Entre versos e músicas, um português redescobre o Brasil

O diretor de “Bibi Vive Amália” está em São Paulo.

Por Eulália MorenoPara Mundo Lusíada

 

Eulália Moreno

>> Tiago Torres da Silva que escreveu e dirigiu “Bibi vive Amália”, com Bibi Ferreira. “Quando lhe falei sobre um projeto de levar a sua vida aos palcos ela respondeu-me que a vida dela era simples demais para interessar a alguém”.

“Roubando Canções” é o novo projeto de Tiago Torres da Silva, 38 anos, poeta, escritor e letrista lisboeta que está no Brasil, entre Rio de Janeiro e São Paulo, acompanhando as gravações de Ana Luíza, Elba Ramalho, Ney Matogrosso e Alcione para músicas suas e de Luis Felipe Gama. Esse trabalho “centrado no universo brasileiro” (o resto é segredo) será editado em Portugal pela gravadora Grão em finais de 2008.

Tiago cresceu ouvindo e admirando a música brasileira desde que, na casa de sua avó, ouvia Ivon Curi, Carmélia Alves e Ângela Maria mas foi através de Amália Rodrigues que ficou conhecido do grande público do Brasil quando, em 2001, escreveu e dirigiu “Bibi vive Amália”, com Bibi Ferreira. “Amália é o meu referencial, foi e será sempre. Quando lhe falei sobre um projeto de levar a sua vida aos palcos ela respondeu-me que a vida dela era simples demais para interessar a alguém mas, mesmo assim, continuei a trabalhar na recolha de material para o que eu pretendia fôsse a espinha dorsal da peça: Amália nas suas próprias palavras. Nesse ínterim conheci Bibi que se entusiasmou com a idéia. Infelizmente, logo a seguir Amália nos deixou e Bibi protelou a estréia teatral por respeito a sua memória”.

Emoção na estréia de “Bibi Vive Amália”“Bibi Vive Amália” inaugurou o Teatro Ribalta no Rio de Janeiro onde também esteve em cartaz no teatro João Caetano e no Canecão e em São Paulo, no Teatro Agostinho. “O dia da estréia foi impressionante. O guitarrista Carlos Gonçalves que acompanhou Amália durante vários anos quando viu Bibi Ferreira no centro do palco não conteve a emoção: foi como se Amália estivesse novamente entre nós. Muitas pessoas que assistiram a peça disseram o mesmo. Bibi Ferreira é magnífica, uma escola viva do teatro, tive o maior orgulho em trabalhar com ela”. Esse espetáculo foi levado a várias cidades de Portugal. “Bibi confessou-me que a ovação recebida no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, foi a maior já recebida em sua longa vida nos palcos”, revela Tiago.

Não ganharam nenhum prêmio. “O meu prêmio foi trabalhar com Bibi. Como me disseram algumas pessoas, eu comecei por onde muitos gostariam de terminar: dirigindo Bibi Ferreira”.

Antes de “Bibi Vive Amália”, Tiago já tinha escrito várias peças, dentre elas “É o Mar, Alfonsina, É o Mar”, um monólogo interpretado pelo ator português José Neves. Inspirada na vida da escritora argentina Alfonsina Storni estreou durante a Expo-98, em Lisboa e veio representar Portugal no Festival de Teatro de Curitiba, Paraná recebendo muitos elogios por parte da crítica especializada.

Os versos, as canções e os sonhosAlém do teatro, a música sempre esteve presente na sua vida. São vários os intérpretes brasileiros ou portugueses que incluíram composições de Tiago nos seus álbuns. Ney Matogrosso foi o primeiro depois vieram, entre outros, Zélia Duncan, Chico César, Daniela Mercury, Joana, Maria Bethânia, Monica Salmaso, Ná Ozzeti, Rita Ribeiro e Seu Jorge. Em Portugal, Né Ladeiras, Beatriz da Conceição, Ana Sophia Varela, Jacinta, Maria João, Mafalda Arnauth, Eugenia Melo e Castro, Celeste Rodrigues, Joana Amendoeira, Julieta Estrela, Lara Li e Teresa Tarouca. “Não coleciono intérpretes. Sinto-me honrado pelas minhas letras ganharem vida e colorido através de grandes vozes. Ainda não consegui que Simone, Elza Soares, Gal Costa e Caetano Veloso no Brasil e Tonicha, em Portugal gravassem algo meu. Esse é um dos meus sonhos. Um dia, quem sabe?”

Tem mais de 250 letras ainda à espera dos acordes que lhe darão mais vida e confessa não ter problemas de inspiração. “O processo de criação começa direcionado para determinado cantor ou cantora. Escrevo as letras idealizando quem as vai cantar. Os intérpretes são os meus musos e musas. Interiorizo tudo o que eles gravaram antes, tento ouvi-los já cantando a minha nova composição, sinto-me como se ela fôsse uma parte deles ou como se eu próprio fôsse, eles. O resultado é que composição e interpretação parecem ter nascido ao mesmo tempo”.

Escreve versos em tons coloquiais inspirados tanto no dialeto crioulo de Cabo Verde como em expressões brasileiras. É criticado por isso mas não se importa. O Acordo Ortográfico considera uma perda de tempo tantas discussões. “Eu não quero ser escritor de um lugar, quero ser escritor de uma língua. Quem fala é o dono da língua. O Brasil teve a sua evolução lingüística, as suas influências, como não aceitar isso?”, interroga.

E Sonha. Sonha Sempre. Gostaria de trazer o “Fado Mulato”, recentemente lançado em CD, para uma apresentação na Casa de Portugal. Esse espetáculo estrelado pela fadista Maria João Quadros (proprietária da “Casa da Mariquinhas”, em Lisboa) reúne composições que vão desde o Fado Castiço até fados compostos em parcerias com Ivan Lins, Olivia Byington, Francis Hime, Zeca Baleiro, Chico César e Alzira Espíndola.

Entre versos , canções, e sonhos Tiago ainda encontra tempo para escrever as suas crônicas semanais no Jornal de Letras, “Manhãs de Insonia” e livros, dentre eles “Timbó- As Aventuras de um Português no Brasil”, editado pela Editora Sete Caminhos e que pode ser adquirido on-line através do site www.webboom.pt.

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