Guterres na ONU pode dar nova vida à CPLP. Por Carlos Fino

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Por Carlos Fino

Vinte anos volvidos sobre a sua criação, em Julho de 1996, a CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – ainda hoje é muito pouco conhecida no Brasil: os políticos não se interessam, os media ignoram e o povo desconhece. E isso apesar de ter sido um brasileiro,  então embaixador do Brasil em Portugal – o afabilíssimo José Aparecido de Oliveira, de saudosa memória – um dos seus principais impulsionadores.

Contradições internas, alguma falta de iniciativa própria, dificuldades financeiras para sustentar projetos acordados e – the last but not the least – desconfiança nos meios políticos e mediáticos de que a CPLP possa ser, mais do que um instrumento comum ao serviço de todos, um artifício para mascarar um hipotético neocolonialismo lusitano, ainda que apenas linguístico, explicarão o ceticismo, o desinteresse e o desconhecimento brasileiros.

No que respeita a ceticismo, aliás, o Brasil não está só. Na véspera da XI Cimeira bienal da CPLP, que a semana finda se realizou em Brasília, o jornal Público, um dos mais prestigiados órgãos de imprensa portugueses, escrevia em editorial que tais encontros, pelo pouco que avançam, não passariam de uma oportunidade para os seus participantes confraternizarem às custas dos respectivos erários públicos:

“É, no fundo, uma patuscada simpática onde não se leva nada demasiado a sério. Nem a língua, nem os direitos humanos, nem a prosperidade dos cidadãos.” (sic)

Este ceticismo nem sequer é novo. Já em 1991, antes mesmo do lançamento da CPLP, o ensaísta Eduardo Lourenço, alargando aos outros países de língua portuguesa o seu desencanto por ter constatado que Portugal não fazia parte do sonho de grandeza do Brasil, escrevia em Imagem e Miragem da Lusofonia:

“Nunca formaremos um conjunto, num sentido de comunidade linguístico-cultural (nem mesmo acrescentando o contributo dos novos países africanos de expressão portuguesa) capaz de constituir um pólo de influência histórico-política no mundo como indubitavelmente será o caso dos países de expressão hispânica.”

Paradoxalmente, neste pano fundo de descrença entre os seus próprios membros, a CPLP tem vindo a alargar a sua relevância internacional através da inclusão de países associados. Um deles – a ditatorial Guiné Equatorial – com risco da própria alma, é verdade. Mas outros, como agora a República Checa, a Hungria e a Eslováquia, traduzindo um genuíno interesse pelas potencialidades do grupo.

A diplomacia tem vindo portanto a preencher com algum êxito o espaço deixado em aberto pelo aparente desinteresse dos políticos e o ceticismo dos filósofos, consolidando uma base que a eleição do ex-primeiro ministro português António Guterres para Secretário-Geral da ONU poderá eventualmente reforçar, conferindo à CPLP um novo impulso.

Guterres no centro

Basicamente, foi isso que já aconteceu em Brasília, onde Guterres acompanhou de perto os trabalhos da XI Cimeira lusófona.

O novo executivo brasileiro não só parece mais atento que o anterior às relações bilaterais com Portugal, que Dilma deixou de lado nos últimos anos, como parece ter percebido de imediato a oportunidade de ouro que pode constituir  para as ambições internacionais do país a presença de um português “amigo do Brasil”,  na expressão de Fernando Henrique Cardoso, no comando da principal organização internacional.

Guterres – cujo governo, no final dos anos 90, justamente com FHC do outro lado do Atlântico, deu início à internacionalização da economia portuguesa conferindo toda a prioridade ao Brasil, logo depois da União Europeia – também não se limitou às formalidades e à cortesia da praxe. Numa declaração calculada, fez saber que pretende ver o Brasil empenhado na resolução de conflitos e é favorável a uma reforma do Conselho de Segurança.

Traduzindo – o Brasil tem em Guterres um aliado para renovar a sua ambição de poder um dia sentar-se à mesa com os grandes.

Temer, por seu turno, não por acaso, foi ao encontro da velha aspiração portuguesa de fazer da nossa língua idioma oficial das Nações Unidas, um projeto ambicioso mas caro, que já vem de trás, ao qual o apoio empenhado do Brasil poderá agora conferir impulso decisivo.

Numa palavra, o fator Guterres, mesmo antes da sua efetiva entrada em funções, em Nova Iorque, já produz efeitos – no plano externo, no plano bilateral Portugal-Brasil e, concomitantemente, em termos de CPLP.

Portugal e Brasil podem até ser concorrentes em África e essa rivalidade funcionar como travão a mais iniciativas conjuntas no âmbito da Comunidade lusófona; mas há objetivos no plano externo que interessam a todos e que poderão facilmente avançar se Portugal e Brasil caminharem juntos, funcionando – sem ofensa para os outros – como uma espécie de motor do conjunto, a exemplo do que fazem França e Alemanha na União Europeia.

Nesse contexto, talvez a proposta portuguesa – apresentada agora oficialmente em Brasília – de dar passos concretos em termos de maior liberdade de circulação dentro do espaço comunitário que nos é próprio possa também avançar.

Passando agora por Lisboa já pôde constatar um início de concretização dessa ideia – o funcionamento de local específico para apresentação de passaportes dos países CPLP – um passo que todos poderiam facilmente adoptar.

Um dia, quem sabe, a Comunidade dos Países Língua Portuguesa também poderá ter uma televisão própria para que todos os que a integram se conheçam melhor. Já houve projeto, e até anúncio oficial, mas tudo parou. Essa, pelo menos, será a minha proposta se, no período que antecede as cimeiras, for aberto na rede um espaço para sugestões vindas do público. Mas esses são contos mais largos, que terão de ficar para outra vez.

Para já, uma coisa é certa – a CPLP e cada um dos países que a integram não podem desperdiçar a chegada de um português, reconhecido humanista, ao cargo de Secretário-Geral das Nações Unidas.

 

Por Carlos Fino
Jornalista português, nascido em Lisboa, em 1948. Correspondente da RTP – televisão pública portuguesa – em Moscou, Bruxelas e Washington, destacou-se como correspondente de guerra, em conflitos armados na ex-URSS, Afeganistão, Oriente Médio e Iraque. O primeiro repórter a anunciar, com imagens ao vivo, o bombardeio de Bagdad pelas tropas norte-americanas na Guerra do Golfo (2003). Foi conselheiro de imprensa da Embaixada de Portugal em Brasília (2004/2012). Escreve semanalmente para o Jornal Mundo Lusíada.

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