Especial Entrevista: Cesária Évora de coração aberto

A Alma de Cabo Verde de volta aos palcos brasileiros

Eulália MorenoEspecial para Mundo Lusíada

Eulália Moreno

>> Cesária Évora durante o show no Memorial da América Latina em São Paulo, 30 de Abril.

Na esquina da avenida São João com a rua Aurora estava o palco mais concorrido da IV Virada Cultural que, durante 24 horas ininterruptas (26 e 27 de Abril) movimentou a cidade de São Paulo com vários shows musicais e mostras artísticas.

E esse foi o palco que a filha de Justino da Cruz Évora, pisou, descalça como de hábito, para mais uma apresentação, referida pela imprensa no dia seguinte como “memorável”. Dentre as milhares de pessoas presentes, muitos cabo-verdianos, orgulhosamente exibindo a bandeira do seu país. “Já toquei muitas vezes no Brasil mas nunca para esse tanto de gente. É um espetáculo magnífico, como nunca vi”, declarou Cesária à saída.

Quarta, dia 30, 19h30, Auditório Simón Bolivar, Fundação Memorial da América Latina

José Augusto da Associação Cabo Verdiana nos aguarda na entrada e nos conduz ao interior do Auditório onde Cesária Évora concluía uma participação especial para a Tv.Cultura de São Paulo. Seguimos pelos corredores até o camarim da “Diva dos Pés Descalços” que, fumando um dos seus cigarros, nos põem à vontade: “Sirvam-se, tem aqui cafézinho, bolinhos” diz apontando para uma mesa num dos cantos do recinto.A primeira pergunta pela emoção do encontro é a curiosidade quanto aos pés descalços. Faz parte do seu charme?, pergunto num murmúrio para esconder a quase indelicadeza. Ela sorri. “Não, nada de charme. Canto descalça porque é assim que me sinto confortável. Como é o seu nome?“

“Eu canto por prazer, não acredito nem em sonhos nem em destino, o que me alegra é saber que passei anos de sofrimento para hoje pode ter a vida que tenho. No Mindelo nós dizemos que é melhor beber primeiro o veneno e depois o mel. Agora eu estou bebendo o mel”.

Longo foi o seu caminho desde o Café Royal no Mindelo, sua terra natal, até os palcos mais importantes do cenário artístico mundial, desde o anonimato até o reconhecimento.

Madonna colocou duas vêzes um avião à sua disposição para que ela fôsse cantar na sua festa de aniversário. “Da primeira vez não fui. Ela queria que eu fosse apenas com o meu pianista. Da segunda fui porque pude levar comigo todos os meus músicos”.

“Não cantava no Royal por dinheiro, ficava ali conversando com as pessoas, fumava os meus cigarros, bebia o que queria e cantava o que me pediam”, esclarece. “Hoje esse lugar já não existe mais, os espanhóis o derrubaram e estão ali construindo um hotel de luxo”.

Cesária, “Cize” para os amigos, nasceu no dia 27 de Agosto de 1941 numa família de mais quatro irmãos. Sua mãe, dona Joana era uma “cozinheira de mão cheia” e trabalhava numa casa de pessoas ricas que adoravam os seus cozinhados. Seu pai Justino da Cruz Évora era um exímio tocador de cavaquinho que faleceu quando Cesária tinha apenas sete anos. “A música está no meu sangue, foi a herança do meu pai”. A vida tornou-se difícil e Cesária foi para um colégio de freiras onde permaneceu durante três anos.

Adolescente, começou a cantar aos domingos na praça principal do Lombo, acompanhada ao saxofone por sua irmã Lela. “A primeira vez em que cantei, a troco de alguma coisa, foi por um jantar na Congelo, uma empresa de pesca de portugueses que se tinha instalado no Mindelo. Até podia cantar bem mas ninguém me escutava”.

E cantava músicas de Ângela Maria. “Até hoje Ângela Maria é a voz que mais me emociona. Quando me apresentei aqui em São Paulo, há dois anos, no Sesc, as pessoas da produção me disseram que eu ia ter uma surpresa. Eu queria saber que surpresa seria. E eles me diziam que se contassem não seria surpresa. Sabem o que foi? Ângela Maria e Agnaldo Timóteo que me foram assistir e subiram ao palco para me abraçar. Fiquei muito feliz, muito mesmo”.

Nos anos 60, o comerciante João Mimoz registrou no seu gravador doméstico duas músicas cantadas por Cesária e enviou as fitas para Portugal. “Um completo fracasso, ninguém deu a mínima atenção”. Em 1975, Cabo Verde tornou-se independente e enfrentou várias crises sociais e políticas. Cesária deixou de cantar e mergulhou num profundo estado de depressão. “ Fiquei calada durante mais de 10 anos”.

Em 1987, o cantor Bana a convidou para uma série de concertos para a comunidade caboverdiana em New Jersey, Estados Unidos. “Tivemos altos e baixos, não foi sucesso. De volta a Lisboa fui cantar num restaurante do Bana para pagar a minha passagem de volta mas aí encontrei José da Silva e a vida começou a mudar” .

José se apaixonou pela voz de Cesária e a convidou para gravar um disco em Paris. “Eu estava com 47 anos, não tinha nada a perder, não conhecia Paris e fui“. Lá, José contactou com Luis Morais, Paulino Vieira e Manu Lima, músicos caboverdianos já conhecidos na capital francesa que com Cesária gravaram o álbum “A Diva dos Pés Descalços”. O lançamento desse disco teve lugar no clube New Morning em 1 de Outubro de 1988. “O teatro só estava com metade da platéia mas uma das músicas que eu cantei, a coladera Bia Lulucha fêz um grande sucesso na comunidade que lá vivia e o José, que era muito insistente, decidiu que eu gravaria um segundo álbum, em 1990, Distino di Belita, incluindo mornas acústicas e coladeras eletronicas”.

Cesária volta para o Mindelo e canta nos bares para garantir o sustento dos seus dois filhos e da sua mãe. Viviam, em condições precárias, numa casa quase em ruínas no número 7 da rua William Du Bois, próximo ao porto. O seu segundo álbum “Distino di Belita” não foi um sucesso comercial mas atraiu a atenção de alguns produtores que convenceram José da Silva a fazer com Cesária um álbum meramente acústico. “Voltei para a França em Maio de 1991 e gravei Mar Azul que logo depois de lançado, em outubro, atingiu a lista dos mais vendidos. Voltei a cantar no New Morning que dessa vez estava lotado”.

E Cesária começou a tornar-se um mito. Em 1992 lançou “Miss Perfumado” que teve 300 mil cópias na primeira tiragem e que inclui as músicas mais conhecidas do seu repertório, como “Sodade”, “Angola” e “Lua nha Testemunha”. A imprensa internacional passou a elogiar a sua voz única, por vêzes a comparando a Billie Holliday. O seu gosto por um bom conhaque, os inseparáveis cigarros, a sua vida difícil num arquipélago belíssimo porém esquecido, as noites quentes no Mindelo, tudo contribuiu para aumentar a aura de encantamento à sua volta.

Longe de casa há vários meses, este espetáculo no Memorial encerra a sua digressão anual que na Austrália esteve prestes a ser cancelada no seguimento de uma ameaça de acidente cardiovascular.. “Estive mal mas enquanto tiver saúde continuarei cantando. Depois de mim outros virão, cantando até melhor do que eu. Temos em Cabo Verde vozes muito bonitas”.

O nosso tempo com Cesária já se esgotou. No Auditório o público a aguarda com impaciência. “Estou apresentando o meu novo álbum mas, não consigo sair do palco se não cantar Sodade. Se não cantar, eles não me deixam ir embora”.

Cesária cantou as 18 músicas previstas no programa e mais duas para atender aos pedidos do público. Despediu-se, como sempre, com um “Até Amanhã” e certamente foi dormir desejando amanhecer no Mindelo, a cidade doce e morna, com as suas velhas casas preservadas e pintadas em tons pastel, sombreadas por acácias rubras em flor ou por belas buganvílias.

Ali a sua casa é ponto habitual das peregrinações turísticas, embora do lado de fora não se veja mais do que as janelas e paredes de um apartamento simples. Como ela.

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