Consolidação do português levará décadas no Timor

Em entrevista à Radio ONU, presidente do Timor-Leste diz que língua está sendo falada, cada vez mais, após introdução em 2002.

Por Mônica Villela Grayley Da Rádio ONU em NY

O presidente do Timor-Leste e Prêmio Nobel da Paz, José Ramos Horta, afirmou que a consolidação da língua portuguesa em seu país deve levar de 20 a 30 anos. Segundo Horta, aos poucos, o idioma começa a ser falado por cada vez mais pessoas após a reintrodução como língua oficial em 2002, ano da independência do Timor.

Em entrevista exclusiva à Rádio ONU, José Ramos Horta afirmou que a decisão de fazer do português língua oficial no país asiático não foi executada facilmente. "Começamos praticamente do zero, enfrentando alguma hostilidade e incompreensão por parte de alguns parceiros internacionais que pensavam que era uma tolice da nossa parte reintroduzir o português, que deveríamos introduzir o inglês como língua oficial. Hoje a língua portuguesa é uma realidade em Timor-Leste, já muito mais falada do que era há cinco, 10 anos".

Segundo ele, a promoção, introdução e a expansão de uma língua, até sua popularizaçao não se faz em poucos anos. "Mas eu acredito: com o atual esforço, com o apoio generoso de Portugal e do Brasil, o português rapidamente será uma língua real no nosso país, no sentido de que as pessoas a usem no dia-a-dia, nas trocas comerciais, nas conversas de família, nos campos de futebol, nas festas, nas zaragatas, usa-se o português, portanto o português real e não apenas falado pela elite, pelos políticos etc".

Nos debates anuais da Assembléia Geral, encerrados na última passada, o presidente de Portugal, Aníbal Cavaco Silva, pediu apoio a uma presença maior do português em organizações internacionais incluindo as Nações Unidas. A política de internacionalizar a língua portuguesa foi lançada por Portugal e endossada pela CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, em julho.

Discordia sobre tribunal O presidente do Timor-Leste também afirmou que discorda de propostas para criação de um tribunal internacional para julgar responsáveis por crimes e violações cometidos no Timor durante a luta pela independência do país, da Indonésia.

Segundo Ramos Horta, ele mesmo é uma vítima de violações dos direitos humanos e por isso fala com propriedade sobre a necessidade de perdão. "Eu faço parte desta população que é vítima que morreu ou sobreviveu e tem as cicatrizes físicas e emocionais da guerra. Eu perdi quatro irmãos mortos pelos indonésios. Eu próprio quase morri em 11 de fevereiro por ato irracional de um grupo de pessoas que chocou profundamente o povo e a comunidade internacional. Eu sei o que é ser vítima e o que é a violência. Mas é necessário para as vítimas tentar esquecer o passado. Não esquecer os familiares que morreram, mas esquecer do que ocorreu no passado. É isso o que o Timor-Leste tem que fazer para não ser refém do trauma, do drama do passado", disse.

De acordo com o presidente do Timor-Leste, um tribunal internacional para julgar crimes do passado não seria uma tarefa fácil de realizar e traria mais problemas que soluções.

"É impossível levar os generais indonésios a julgamento. Ninguém o vai fazer. E com razão. Se houvesse um tribunal internacional contra a Indonésia, primeiro: não haverá ninguém para julgar porque a Indonésia não vai cooperar. Segundo: vai completamente subverter, desestabilizar as nossas relações com a Indonésia. A Indonésia, que com muito sentido de Estado, deu um passo a frente ao nosso encontro. Como nós também demos um passo em frente ao encontro da Indonésia, da nova Indonésia. Como vamos nós fazer isso à Indonésia? A esse país que também luta pela democracia? Então é melhor não falar de um tribunal internacional porque haveria muitos ali a sentarem ali em Haia a serem julgados", afirmou.

A Comissão de Verdade e Amizade foi formada em 2005 para apurar casos de violações de direitos humanos, assassinatos e outros crimes cometidos durante a luta pela independência da Indonésia.

O momento final da violência ocorreu após o anúncio do resultado de um referendo em 1999 que decidia pela soberania do Timor-Leste como nação. Vários timorenses foram mortos incluindo nove funcionários das Nações Unidas.

O último relatório da Comissão de Verdade e Amizade foi divulgado em agosto finalizando assim os trabalhos do grupo.

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