Pesquisadora mostra como fotografia aproximou emigrantes no Brasil a Portugal

Da redação
Com Lusa

A pesquisadora portuguesa Ana Gandum, que analisou fotografias enviadas pelos portugueses emigrados no Brasil e pelas suas famílias de Portugal, revela como a fotografia serviu de aproximação ao país natal, especialmente nas décadas de 50 e 60.

“Mais do que o fenômeno migratório em si, a fotografia é o meu grande objeto de estudo. E a fotografia em circulação como recordação. Esse é o fenômeno migratório [os portugueses que partiram entre o século XIX e os anos 60 para o Brasil] que mais se presta a destacar esse potencial da fotografia por causa da distância e da fratura imensa que isso representa entre os dois países em termos de comunicação”, disse Ana Gandum em declarações à Lusa, em Paris.

A investigadora portuguesa, que está atualmente a terminar o doutoramento em Estudos Artísticos na Universidade Nova de Lisboa e Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil, esteve na capital francesa na quinta-feira à noite para a conferência “Lembranças, souvenirs, recuerdos: photographie et migrations portugaises au Brésil (1890-1960)”, organizada pela delegação da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris e a Universidade de Paris Nanterre.

Apesar de se debruçar sobre o estudo da fotografia entre 1890 e 1960, a investigadora portuguesa tem tido dificuldade em encontrar fotografias do fim do século XIX e início do século XX, épocas de forte emigração de portugueses para o Brasil, devido à necessidade de integração dos portugueses na sociedade brasileira.

“Tanto os italianos como os japoneses, em São Paulo, são comunidades muito mais marcadas identitariamente. Os portugueses, sobretudo pela questão colonial, foram muito mal vistos pós-independência do Brasil. A comunidade vai sofrer alguma invisibilidade e são marcados como uma figura não muito desejada. Nessa altura, depressa a sua identidade portuguesa se fundiu com a brasileira e não há muitos registos fotográficos”, concluiu a investigadora.

Ana Gandum teve mais acesso às fotografias enviadas pelos dois lados do oceano já nos anos 50 e 60, fazendo uma grande parte da sua pesquisa no Brasil junto de emigrantes portugueses ou dos seus descendentes.

Entre os exemplos mostrados na conferência, havia fotografias das partidas, da chegada e das primeiras conquistas e das saudades das famílias.

Do outro lado, os emigrantes recebiam fotografias das atividades do quotidiano das aldeias portuguesas e postais para recordar as paisagens que tinham deixado para trás.

Para Ana Gandum, um dos exemplos mais marcantes da sua pesquisa é uma fotografia que mostra um homem na praia de Copacabana e uma legenda a apontar para um dos prédios onde está escrito “Vivo aqui”.

“A pessoa faz questão de marcar que vive ali, está numa praia em Copacabana e faz questão de mostrar à mãe onde vivia e isso é curioso porque há necessidade de partilhar um imaginário”, descreveu a investigadora.

A fotografia, segundo Gandum, criou assim um espaço de diálogo e partilha entre os que partiam e para os que ficaram.

“Mais do que uma memória ou uma forma de recordar o que se viveu, a fotografia é, na sua origem, uma forma de construir um espaço e um tempo diferenciados, até porque recordar significa relembrar ao coração. Assim, a recordação fotográfica é dar-se ao outro e, ao mesmo tempo, inscrever os que mais amamos no nosso coração. Esta partilha é não só um elemento comum, mas também uma vivência em conjunto”, lembrou Ana Gandum.

A pesquisadora já organizou duas exposições no Brasil sobre o tema da fotografia na comunidade portuguesa, lançou um livro através de uma edição de autor e pretende agora continuar a difundir as conclusões do seu estudo através de um ‘site’ que estará ‘on-line’ nos próximos meses.

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