O meu mais longo discurso, por Francisco Seixas da Costa

Por Francisco Seixas da Costa

Ontem, contei por aqui a história de um longo discurso que proferi em Ouro Preto, no Brasil.

Hoje gostava de deixar outro episódio, também relacionado com um discurso, noutro “aperto” protocolar. Foi em 2006, no Rio de Janeiro.

Um ano antes, por feliz sugestão do diretor internacional da Gulbenkian, João Pedro Garcia, eu havia proposto que fosse concedida à professora Cleonice Berardinelli a grã-cruz da ordem de Santiago de Espada, como forma de manifestarmos o nosso reconhecimento por uma vida académica dedicada ao estudo e promoção da literatura e da cultura portuguesas no Brasil.

A minha sugestão foi aceite por Lisboa e, aproveitando uma passagem pelo Rio de Janeiro do então primeiro-ministro, José Sócrates, foi decidido organizar a cerimónia da entrega da distinção na grande e incomparável sala do Real Gabinete Português de Leitura.

Creio que mais de duas centenas de pessoas enchiam aquele magnífico espaço, testemunhando o elevado apreço que a professora Cleonice Berardinelli – que entretanto foi eleita para a Academia Brasileira de Letras – a tantos merece. A académica tem hoje mais de 100 anos e é uma querida amiga que tenho no Brasil.

O programa de trabalho do chefe do governo português no Rio de Janeiro, nesse dia 11 de agosto de 2006, estava já bastante atrasado. O trânsito no Rio é muito complicado, a fixação dos tempos para os vários pontos da agenda fora feita de forma um tanto otimista, pelo que a chegada da comitiva ao Real Gabinete se processou quase uma hora depois do previsto, com outros eventos já à espera. Essa é a sina de muitas deslocações oficiais, especialmente quando se pretende atender a diversas solicitações: as conversas prolongam-se, surgem factos inesperados, as visitas demoram mais do que o previsto. Nada que seja muito grave, mas que sempre induz algumas tensões.

À chegada do primeiro-ministro, conduzi-o, de imediato, para uma sala onde estavam a professora Berardinelli e outros convidados importantes. Nesse preciso momento fui alertado para uma questão “trágica”: por uma qualquer confusão, no seio da delegação vinda de Lisboa, as insígnias da condecoração tinham ficado no hotel, bem longe, na Avenida Atlântica. Um estafeta fora entretanto buscá-las mas, uma vez mais atentas as dificuldades do trânsito, era difícil prever os minutos que demoraria a sua chegada.

Esgotados, com alguma rapidez, as amabilidades e os cumprimentos protocolares entre os presentes na sala, ciente do calendário apertado em que se movimentava, que se cumulava ao atraso anterior, o primeiro-ministro deu-me, a certo passo, instruções para que a cerimónia se iniciasse, sem demora.

Eu era talvez a única pessoa que sabia que, se bem que as formalidades e os discursos pudessem arrancar, eles não se poderiam concluir sem a chegada das insígnias. Mas, confesso, em face dos constrangimentos de horários que se viviam, decidi correr o grande risco de deixar iniciar o ato solene.

Sobre o momento, surgiu-me então, uma única solução: embora só estivessem previstos três discursos – o do presidente do Real Gabinete, Dr. Gomes da Costa, o do primeiro-ministro português e o de agradecimento, da professora Cleonice Berardinelli – eu iria improvisar uma intervenção, imediatamente após a do Dr. Gomes da Costa… que duraria todo o tempo que fosse necessário, até à chegada física das insígnias.

Instalados na tribuna, segredei ao Dr. Gomes da Costa que deveria procurar ser tão longo quanto possível. Ele, porém, disse-me que o seu texto estava escrito e que só dava para cerca de dez minutos. Notei que o primeiro-ministro ficou surpreendido quando lhe passei uma mensagem dizendo que eu também falaria na cerimónia: protocolarmente, estando prevista uma intervenção do chefe do governo, não tinha qualquer sentido o embaixador falar.

Ainda perguntei ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Luis Amado, e ao presidente da Fundação Gulbenkian, Emílio Rui Vilar, que tinha a meu lado na mesa, se não queriam dizer “umas palavras”. Com naturalidade, tanto mais que desconheciam o que motivava o pedido, nenhum deles se mostrou disponível.

Estava traçado o meu destino para os próximos minutos. Senti-me como aqueles deputados a quem, segundo a história, são pedidas longas intervenções para dar tempo à chegada de “reforços” para constituir uma qualquer maioria de voto. Com rapidez, alinhei num papel meia-dúzia de “tirets” que iriam servir de esqueleto ao meu discurso: desde notas pessoais sobre a professora Berardinelli, algumas referências aos estudos de literatura portuguesa no Brasil, umas palavras sobre a cooperação entre as universidades e sei lá mais o quê, tudo o que na altura me veio à cabeça como “buchas” possíveis. Naquele espaço sem ar condicionado, o meu crescente suor dava-me a impressão que a temperatura estava a subir em flecha.

Com esperança de ganhar tempo, ouvia em fundo o Dr. Gomes da Costa que, no microfone, prosseguia, de forma que me parecia incomodamente rápida, no seu discurso. Até que, a certo ponto, o ouço dizer: “… e, para terminar, permitam-me que…”. Pronto! Era a minha “deixa”. E comecei a ajeitar a cadeira para sair da tribuna, para iniciar a arenga que o destino me obrigava a fazer. Logo se veria como saía…

E foi então, nesse instante, que vi surgir ao fundo, caminhando em passo apressado desde a porta de entrada do Real Gabinete em direção a nós, a figura diligente do Luís Ferreira dos Santos, o eficassíssimo colaborador do nosso serviço do Protocolo, trazendo nas mãos a preciosa caixa vermelho “bordeaux” com a grã-cruz de Santiago de Espada.

Estava consumado o milagre, logo a mim, que nunca tinha ansiado por uma benfazeja aparição de um santo… E estava salva a honra do convento!

Aqui fica a historieta do mais longo discurso que, desta vez, nunca pronunciei.

 

Por Francisco Seixas da Costa
Diplomata português, ex-embaixador de Portugal no Brasil.

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