Movimento associativo tornou possível integração dos portugueses no Rio

Por Igor Lopes

Foto/Arquivo: Igor Lopes/Mundo Lusíada

Ninguém tem dúvidas de que, através da influência lusitana, temos um Rio com muita história, definido em períodos históricos ricos em patrimônio, que geraram uma cultura ímpar para a nossa cidade, e, mesmo, para o país. Contudo, o número de portugueses que vivem no Brasil é menor. Pesquisas recentes indicam que várias famílias pediram visto de residência no Brasil, mas nenhum desses dados consegue se igualar ao fluxo migratório de anos atrás. Com o intuito de decodificar o trabalho dos portugueses por aqui e de mostrar em que circunstâncias surgiu o movimento associativo luso no Rio, Antônio Gomes da Costa, presidente da Federação das Associações Portuguesas e Luso-Brasileiras e do Real Gabinete Português de Leitura, apresentou uma palestra sob o tema “O Movimento Associativo de Raiz Portuguesa” no Centro do Rio, no último dia 16, com o apoio da Academia Luso-Brasileira de Letras. Uma das conclusões do seu discurso é que, embora haja menos influência lusa por aqui, o cotidiano carioca é responsável pela manutenção de serviços e locais de raiz portuguesa. Nada mais do que natural do que dizer que esse movimento associativo é responsável por ter facilitado a integração dos portugueses na cidade maravilhosa.

Em uma palestra que ficou marcada pelo detalhamento da vida e história do movimento associativo português no Rio, Gomes da Costa recordou a importância da fundação do Gabinete de Leitura, em 14 de maio de 1837, cujo objetivo era promover a instrução. O local foi “concebido e estruturado pelos portugueses do Rio” e não tinha “qualquer finalidade de lucro”, por isso, “as obras eram emprestadas gratuitamente pelo período estipulado no regulamento da biblioteca”. “Mas o que mais importava aos seus fundadores era que os jovens emigrantes, chegados das terras d’além-mar com poucas letras e obrigados a trabalhar durante o dia inteiro para sobreviver, tivessem os livros ao seu alcance para melhorar os conhecimentos gerais e aperfeiçoar as aptidões”, conta Gomes da Costa, que recorda que o Gabinete de Leitura foi a primeira associação de raiz portuguesa a ser criada no Brasil depois da proclamação da Independência.

Durante o discurso, Gomes da Costa lembrou que, pouco tempo depois da fundação do Gabinete, foram criadas as Beneficências Portuguesas, uma outra expressão do associativismo. “A saúde era um setor que estava praticamente entregue às Misericórdias e aos hospitais de algumas Ordens religiosas, como a Ordem Terceira de São Francisco da Penitência e a Ordem do Carmo”, conta.

Após essa fase, mais alguns exemplos do associativismo de raiz lusa surgiram, como a criação dos liceus de artes e ofícios, das escolas e dos educandários, “sendo estes ligados, quase sempre, às irmandades religiosas”, avalia Gomes da Costa, que afirma que o Liceu Literário Português, fundado no Rio em 10 de setembro de 1868, teve um papel importante na alfabetização dos mais pobres da população da cidade e na formação profissional dos jovens emigrantes. “As aulas de Arte Náutica, ministradas no Liceu, contaram várias vezes com a presença do Imperador D. Pedro II, tal era o prestígio da instituição”, sublinha.

Outra vertente fundamental foi o aparecimento das sociedades de auxílio mútuo, “que tinham por escopo o acolhimento de idosos e abandonados, a repatriação de emigrantes doentes, o fornecimento de remédios e a ajuda às famílias largadas na miséria, à infância desvalida e aos indigentes”.

Já na segunda metade do século XIX, vieram os clubes sociais e desportivos, como o Clube Ginástico Português, em 1868, e o Club de Regatas Vasco da Gama, em 1898, com o intuito de “reunir e de servir de convívio das famílias luso-brasileiras”.

Por fim, Gomes da Costa realçou que, no século XX, o associativismo teria alcançado uma nova fase, com o aparecimento das casas regionais, que serviam como “manifestações de amor dos emigrantes a sua terra natal”, onde, até hoje, reúnem-se “famílias originárias da mesma província ou de uma mesma cidade para dançar e cantar o vira e a chula, para ouvir as concertinas e as tocatas, para evocar as aldeias de berço e as festas de verão, a gastronomia da província e os trajes típicos, os cultos religiosos e as tradições populares”. Nesse padrão de descobertas associativas, de caráter cultural, surgiu a Federação das Associações Portuguesas, em 1931, onde se dinamizava a comunidade lusitana no nosso país.

Ainda na opinião de Gomes da Costa, hoje, vive-se um cenário diferente. Ele alerta para o fato de que, nas últimas décadas, estamos assistindo ao que ele chama de “profundas mudanças no movimento associativo”, fruto do “quase desaparecimento das correntes da emigração para o Brasil”, ocasionando uma redução “drástica na entrada de portugueses no país”.

“Se no crepúsculo do século XIX, em algumas cidades, a percentagem de portugueses ultrapassava os 10% da população e se, pelos cálculos de 1940, o seu número era de 800 mil em todo o país, a situação atual é muito diferente. Para uma população de mais de 192 milhões já não chega a 150 mil o número de portugueses de origem que vivem no Brasil. E a grande maioria desses portugueses atingiu uma faixa etária superior aos 60 anos”, acrescenta Gomes da Costa.

Muitas das associações existentes e que eram ativas teriam deixado de ter um papel de protagonista após o Estado assumir funções na área da saúde, educação e previdência. “O resultado é que muitas das associações que existiam e tinham um desempenho robusto perderam força, ou quando não, entraram numa fase de enfraquecimento e decadência que dificilmente poderá ser revertida”.

Gomes da Costa assume ainda que “o associativismo de origem portuguesa atravessa desafios que não são fáceis de vencer”. Para ele, “os centros regionais continuam a reunir as famílias, a estimular o folclore entre as crianças e os jovens, ou a reviver festas profanas e procissões das províncias e das Ilhas adjacentes, das festas das Fogaceiras às festas do Divino”. No entanto, Gomes da Costa acredita que o papel da sociedade brasileira é fundamental na manutenção de alguns serviços, que já estão incorporados no dia a dia carioca.

“Haverá sempre brasileiros a abrir as portas dos Gabinetes de Leitura e dos Liceus, das Caixas de Socorros e das Beneficências, das casas portuguesas e dos clubes onde se cruzaram sonhos da lusitaneidade. E, havendo brasileiros, não se perderão os patrimônios construídos e deixados pelos portugueses”, finaliza.

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