Entrevista: Onde está a música erudita portuguesa?

Quarta – feira | 05 MAI 10

Onde está a música erudita portuguesa?

Mundo Lusíada

José Eduardo Martins, pianista, professor aposentado da USP (Universidade de São Paulo), mantém-se na atividade musical no Brasil e no exterior, sobretudo em Portugal. Irmão do jurista Ives Gandra Martins e do maestro João Carlos Martins, é de uma família luso-brasileira. O pai José da Silva Martins, natural de Braga foi, segundo ele, o decano da colônia portuguesa em São Paulo. Faleceu aos 102 anos.

Hoje, Eduardo Martins atua em diversos países levando a música erudita brasileira e também a portuguesa, o que segundo defende, não existe difusão constante da música erudita. Em uma crítica, o pianista chamou atenção para a música portuguesa que não é tocada no Brasil.

“Tenho a impressão que há um desconhecimento dos músicos brasileiros. Eles desconhecem essa música. E os músicos portugueses mais conhecidos fora de Portugal geralmente não tocam a música portuguesa, preferem tocar a música internacional”, diz Eduardo Martins, citando que Portugal conta com “músicos extraordinários” que tocam a sua música erudita.

Este é, para ele, um dos fatores que prejudica a difusão deste estilo musical vindo de Portugal. “Se as pessoas que são mais conhecidas de Portugal se apresentam fora sem tocar a música portuguesa, essa música não é difundida. Ela é difundida pelos extraordinários músicos que moram em Portugal, e por alguns luso-brasileiros, como é o meu caso, que tocam a música portuguesa”.

O pianista já gravou 4 CDs de música portuguesa, na Bélgica, com divulgação em outros países, e agora pretende lançar mais dois. Também gravou outros títulos de música erudita brasileira, e defende que os músicos brasileiros, “até por uma questão de raiz”, deveriam se ater para esta questão. “Mas não faz porque a mídia não ventila, porque os compositores não são conhecidos” critica.

Para o pianista, essa luta na difusão da música erudita deve ser da comunidade portuguesa. “Tem que haver uma luta das comunidades para que essa música venha a ser tocada aqui, distribuição de partituras para pessoas estudarem, divulgação dos CDs de música portuguesa tocada por interpretes portugueses ou não. Esta música tem que ser conhecida”.

Folclore e Brasil Para ele, os grupos folclóricos existentes no Brasil representam muito bem a raiz portuguesa no país irmão. “Esses grupos autênticos portugueses, estes folclóricos que representam as regiões portuguesas, tenho a mais profunda admiração. Eles representam os costumes dos povos, é algo extremamente bonito” elogia.

Além desta, o fado é também, para ele, um grande gênero da música popular portuguesa. “Fado é uma manifestação fantástica. Nós tivemos no ano passado a apresentação de Carlos do Carmo em São Paulo, realmente o maior fadista que existe. O fado é também uma manifestação popular. Mas na música erudita, não se toca música portuguesa no Brasil”. O fado e o folclore são, porém, culturas musicais mais difundidas no Brasil, assim como a música brasileira é divulgada em Portugal, até mesmo a erudita. “A música erudita brasileira é satisfatoriamente tocada em Portugal. Há muitos interpretes brasileiros que viajam sempre, que passam por Portugal e tocam por exemplo Villa Lobos, ou Camargo Guarnieri”, cita. Do contrário porém, os músicos portugueses que vêem ao Brasil não tocam música portuguesa, relata o músico.

Na parte da história, o pianista citou também em seu discurso a Arte Sacra no Brasil, uma herança portuguesa, e a pobre difusão da Arte Barroca na região de São Paulo, São Vicente, Santo André, Vale do Paraíba. “Esta arte teria que ser mais valorizada também, mas o brasileiro não pesquisa este lado da Arte Sacra, que foi o berço da arte no Brasil”, diz o músico, criticando a existência de poucas obras a respeito deste trabalho, que atualmente integra os museus de São Paulo. “Em Minas, na região de São João Del Rey, do ciclo do ouro, por lá houve obras fantásticas que foram feitas por brasileiros. Mas da nossa região de São Paulo é pouco estudada, e é uma arte maravilhosa”.

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