Portugal: Direita renova mandato, mas perde maioria absoluta

Por Carlos Fino

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Aparentemente, os socialistas pagaram nas urnas o preço da sua ambiguidade – com um programa bastante moderado, mas uma campanha eleitoral verbalmente radicalizada.

Com 38,55% dos votos expressos nas eleições legislativas deste domingo, a coligação de direita PSD/CDS, no poder em Portugal desde 2011, viu renovado o seu mandato, mas perdeu quase meio milhão de eleitores e, com eles, a maioria absoluta.

Pode por isso dizer-se, revertendo aquele que foi um dos slogans da coligação (Portugal pode mais), que agora, o governo pode menos.

O PS, principal partido da oposição, que em princípio tinha tudo a seu favor para vencer o escrutínio (ao cabo de quatro anos de medidas duríssimas, que envolveram cortes de salários e pensões, redução do investimento e aumento exponencial do desemprego e da emigração), não conseguiu capitalizar o descontentamento, ficando-se pelos 32,38%.

Aparentemente, os socialistas pagaram nas urnas o preço da sua ambiguidade – com um programa bastante moderado, mas uma campanha eleitoral verbalmente radicalizada, acabaram por não ganhar o centro e perder a esquerda.

Os votos de protesto foram engrossar o Bloco de Esquerda/BE (10,22%), que mais do que duplica o número de deputados, emergindo destas eleições como a terceira força política, mesmo à frente dos comunistas da CDU (8,27%), que – sempre intransigentes e nenhuma abertura para o diálogo – conservam com dificuldade as suas posições.

Portugal fica assim na situação algo paradoxal de ter um governo à direita e um parlamento à ideologicamente à esquerda, já que, todos somados, os mandatos da oposição são mais que os do governo. A maioria de esquerda, porém, não se concretiza num executivo porque, embora numérica, politicamente não existe, dadas as profundas diferenças separam os respectivos partidos, designadamente em relação às questões europeias.

Tudo se conjuga assim, mais uma vez, como tem acontecido em Portugal nas últimas décadas, para uma relativa convergência ao centro.

O primeiro ministro Passos Coelho (PSD) e o vice primeiro ministro Paulo Portas (CDS) já afirmaram ter entendido a mensagem das urnas, passando a  falar de “diálogo e humildade”, em absoluto contraste com o que foi a sua arrogante prática política dos últimos quatro anos.

Por seu turno, o líder do PS, António Costa, também já disse que não fará oposição por oposição, recusando quaisquer “maiorias negativas” que não tenham por trás uma alternativa credível de governo.

No discurso de aceitação da derrota, Costa ainda foi ambíguo (haveria, teoricamente, margem para um entendimento com o Bloco de Esquerda, ou mesmo com os comunistas, como sugere uma ala mais à esquerda do PS); mas, ao traçar “linhas vermelhas” que quer ver respeitadas –  defesa do estado social e dos serviços públicos, segurança social, educação, saúde, relançamento do apoio à ciência e respeito pelos compromissos europeus – o líder socialista deixou também entender que está disponível para entendimentos com o governo.

Resta saber como irá reagir o PS a esta derrota e se Costa terá condições para se manter na liderança.

De qualquer forma, o cenário político do país mudou e é agora mais instável, obrigando a um jogo de cintura mais cuidado e apertado, quer por parte dos partidos no governo, quer também da oposição.

Uma situação que vem conferir importância renovada à escolha do novo presidente da república, no começo do próximo ano.

 

Por Carlos Fino
Jornalista português, nascido em Lisboa, em 1948. Correspondente da RTP – televisão pública portuguesa – em Moscou, Bruxelas e Washington, destacou-se como correspondente de guerra, em conflitos armados na ex-URSS, Afeganistão, Oriente Médio e Iraque. O primeiro repórter a anunciar, com imagens ao vivo, o bombardeio de Bagdad pelas tropas norte-americanas na Guerra do Golfo (2003). Foi conselheiro de imprensa da Embaixada de Portugal em Brasília (2004/2012). Escreve semanalmente para o Jornal Mundo Lusíada.

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