O dilema do mazombo, ou a doença de Nabuco. Por Carlos Fino

Por Carlos Fino

Em dois anos de vivência nos Estados Unidos, no começo deste século, senti na pele aquilo a que o historiador e diplomata brasileiro Evaldo Cabral de Mello, reflectindo em Um Imenso Portugal sobre a obra de Joaquim Nabuco Minha Formação, designou por “dilema do mazombo”.

Mazombo era o vocábulo depreciativo pelo qual os portugueses nascidos no Reino, os reinóis, designavam os portugueses nascidos no Brasil. E estes, devido a essa circunstância, sentiam no espírito, como Nabuco o confessou, uma profunda dicotomia do sentimento pessoal de pertença, divididos que estavam entre os valores da América e os valores da Europa.

“Nós, brasileiros, e o mesmo se poderá dizer dos outros povos americanos, – escreveu aquele que foi o grande arauto da luta contra a escravatura – pertencemos à América pelo sentimento novo, flutuante do nosso espírito; e à Europa por suas camadas estratificadas”. Daí que, “desde que temos a menor cultura, começa o predomínio destas sobre aquele.”

E para acentuar ainda mais o dramatismo dessa dicotomia, concluía com esta fórmula magistral: “De um lado do mar, sente-se a ausência do mundo; do outro, a ausência do país”.

A este dilema daria mais tarde o iconoclasta modernista Mário de Andrade a designação sarcástica de “doença de Nabuco”.

Nascido em Portugal e aí formado, pessoalmente nunca tive dúvidas sobre o meu lugar de pertença; no entanto, vivendo nos Estados Unidos, deu para perceber com grande acuidade que essa dúvida se possa instalar no espírito daqueles que nascem de um dos lados do Atlântico, mas têm raízes no outro. Ao contrário do velho continente, onde o peso do passado é dominante e na realidade está sempre presente, na América só há futuro e por isso, lá vivendo, tinha sempre falta do passado.

Ocorreram-me estas reflexões a propósito da passagem, dia 22, de mais um aniversário da chegada da frota de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, em 1500, efeméride que os brasileiros não celebram nem nunca celebraram, porventura por o considerarem um acontecimento nefasto.

Se, como dizia Nabuco, qualquer brasileiro minimamente culto passa a valorizar as suas raízes europeias, como interpretar esse esquecimento, em flagrante contraste, por exemplo, com que se passa nos EUA, que todos os anos assinalam sem complexos e com espírito universalista, o dia de Colombo, que nem sequer os descobriu?

Quem nos dá a resposta é o próprio Evaldo de Mello:

“…sem compreender o dilema do mazombo, é a própria cultura brasileira do século XX que se torna ininteligível, pois ela foi deliberadamente criada com vista a cicatrizar nossa grande ferida oitocentista, mediante a invenção de uma identidade destinada a romper com a Europa, ou – nos termos de Nabuco – a parar na Primeira Missa. Desde a década de 1920 – acentua o historiador pernambucano – tudo o que fazemos é aguar, com assiduidade rara em face da proverbial inconstância brasileira, as nossas mais recentes raízes, como se não houvesse outras”.

Ao contrário do que sentia nos EUA, não sinto hoje, vivendo no Brasil, falta de passado. Ele está aqui mais presente do que na América do Norte. O que sinto é essa atitude de apagamento deliberado das raízes portuguesas.

Essa foi a opção feita, há quase um século, na Semana de Arte Moderna de 1922 e desde então prosseguida com afinco através da desconstrução marxista e estruturalista a que foi sistematicamente submetida nas universidades a herança lusa.

Longe vão os tempos de O Mundo que o Português Criou, de Gilberto Freyre, ou em que a comunidade portuguesa do Brasil tinha valores da craveira de um Carlos Malheiro Dias ou de um Jaime Cortesão, capazes de contrapor, por aturado trabalho de investigação, obras de grande valor para contrariar o antilusitanismo.

Prevaleceu a visão crítica e sobretudo acabou por se impor o recalcamento, o apagar da memória, base da indiferença hoje dominante, em que Portugal – sem dimensão para a grandeza da ambição brasileira – está fora do radar do Brasil.

Os portugueses, há que reconhecê-lo, também, têm responsabilidades nessa situação.

Primeiro, porque nunca se interessaram verdadeiramente sobre a sua própria história no Brasil. Camões morreu em 1580, antes do desenrolar da grande epopeia que foi o desbravamento do território, a fundação das cidades, a corrida ao ouro – que antecedeu de mais de um século a grande marcha para o Oeste na América do Norte – e por fim a vinda da Corte e a criação do Reino Unido, em 1815.  O poeta ainda assinalou que Portugal atingira a quarta parte nova e que “se mais mundo houvera, lá chegara”. Mas não mais. Ora, não estando nos Lusíadas, toda a aventura portuguesa na América acabou por não se fixar de forma permanente no imaginário nacional.

Depois, porque Lisboa acabou – sobretudo a partir da integração europeia, no final dos anos 80 – por voltar costas ao Brasil, só a ele tendo regressado uma década depois, num movimento que acabou por se desfazer nas águas revoltas da crise de 2008, que ainda estamos a viver.

É a “parceria inconclusa” de que fala o professor da Universidade de Brasília Amado Cervo.

Conseguiremos algum dia superar os traumas da descolonização, tendo uma relação mais descomplexada e explorando juntos esse enorme território que é o nosso passado comum, ao qual de alguma forma aludia, com saudades do futuro, o mazombo Joaquim Nabuco, brasileiro de origem portuguesa?

 

Por Carlos Fino
Jornalista português, nascido em Lisboa, em 1948. Correspondente da RTP – televisão pública portuguesa – em Moscou, Bruxelas e Washington, destacou-se como correspondente de guerra, em conflitos armados na ex-URSS, Afeganistão, Oriente Médio e Iraque. O primeiro repórter a anunciar, com imagens ao vivo, o bombardeio de Bagdad pelas tropas norte-americanas na Guerra do Golfo (2003). Foi conselheiro de imprensa da Embaixada de Portugal em Brasília (2004/2012). Escreve semanalmente para o Jornal Mundo Lusíada.

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