Golpe de Moscovo – começo do fim da URSS. Por Carlos Fino

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Por Carlos Fino

Os últimos meses tinham sido particularmente agitados. Em Dezembro de 1990, protestando contra a nomeação por Gorbachev de algumas das figuras mais conservadoras do regime, Shevardnadze demitira-se do cargo de ministro dos negócios estrangeiros, deixando no ar um alerta: “Vem aí uma nova ditadura!”.

Logo a seguir, em Janeiro de 1991, tropas da KGB dispararam sobre uma multidão em Vílnius, capital da Lituânia, fazendo uma dezena de mortos e uma centena de feridos. Depois, em Março, realizou-se em Moscovo uma das maiores manifestações de sempre – cerca de cem mil pessoas no centro da (ainda) capital soviética em favor da democratização e pelo aprofundamento das reformas. Sem tradição democrática, a Rússia nunca tinha visto algo parecido.

A situação económica, social e política era muito tensa. O apoio financeiro dos países ocidentais com que Gorbachev contava não chegou a concretizar-se e a tendência era de agravamento, com dificuldades crescentes no abastecimento – lojas vazias e enormes filas para assegurar o pão nosso de cada dia.

Mas chegara Agosto e as coisas pareciam ter serenado um pouco. Gorbachev negociara com as repúblicas que ainda não reivindicavam a sua independência um novo Tratado da União, que instituiria uma grande descentralização do poder, marcando para dia 20 a cerimónia de assinatura. E logo a seguir partira para uns dias de férias na Crimeia. Boa parte dos jornalistas estrangeiros acreditados em Moscovo, entre os quais me encontrava, aproveitaram para fazer o mesmo.

Cheguei a Lisboa no dia 18, pensando que iria desfrutar de umas merecidas férias na praia da Caparica, onde então tinha um pequeno apartamento. Mas não cheguei a desfazer a mala. Na madrugada do dia seguinte, fui acordado por um telefonema da minha irmã mais velha: “- Já viste o que aconteceu em Moscovo?” Não, não tinha visto… “Houve um golpe de Estado, pá!”.

Esse é o maior pesadelo pelo qual nenhum correspondente quer passar – estar fora do local de trabalho num momento decisivo.  Felizmente, nesse dia, havia voo da Aeroflot. A RTP – televisão pública portuguesa – marcou a viagem e à noite já estava de novo em Moscovo a reportar sobre os acontecimentos.

A primeira impressão era de que se tratava de um golpe estranho – não havia tropas no aeroporto, a rádio “Ecos de Moscovo”, favorável às reformas, continuava a emitir e as ligações telefónicas com o estrangeiro, embora sempre demoradas e dependentes de um pedido prévio à central, continuavam a funcionar. Era um golpe manifestamente indeciso.

Na tarde desse mesmo dia, os homens do golpe – o autodenominado Comité de Estado para a Situação de Emergência, GKTCHP, na sigla em russo –  que integrava, entre outros, o vice-presidente Ienáv, o ministro do Interior Pugo, o ministro da defesa Iázov e o chefe da KGB Kriutchkov, deram uma conferência de imprensa conjunta (outra originalidade em golpes de Estado) em que pareciam assustados – Ienáv falava com voz entaramelada e tremiam-lhe as mãos…

Os acontecimentos mais dramáticos tiveram lugar na noite de 19 para 20. Tanques enviados pelo GKTCHP para tomar de assalto a sede do governo da Rússia, chefiado por Boris Ieltsin, que em cima de uma tanque se opôs abertamente ao golpe, apelando à resistência,  dispararam no centro de Moscovo contra um grupo de jovens que tentava barra-lhes o caminho. Três foram mortos, mas os tanques acabaram por não passar, defrontando cada vez maior resistência, incluindo de muitos soldados que se recusavam a atirar de novo sobre a população.

Nessa madrugada, ao cabo de algumas horas de angústia, unidades militares mudaram de campo e em vez de tomarem de assalto a chamada Casa Branca – sede do governo russo – como lhes tinha sido ordenado, passaram a defendê-la. Com a população jovem nas ruas em favor de Ieltsin e as unidades militares mais importantes ora hesitantes ora contrárias à acção desencadeada pelo GKTCHP, o golpe estava condenado ao fracasso.

Gorbachev sabia?

Na mansão de férias do Estado, em Foros, na Crimeia, Gorbachev declarou-se traído e, apesar de se considerar prisioneiro, gravou uma mensagem contra os golpistas.

Lembro-me de, na altura, ter considerado tudo aquilo meio estranho e, mesmo depois do desenlace, fiquei na dúvida – Gorbachev sabia ou não sabia do que se estava a passar?

A resposta, hoje, é inequívoca – Gorbachev sabia. Meses antes, o presidente da câmara de Moscovo, Gavrílov, comunicara ao embaixador americano Matlock que um golpe estava em curso e quais eram os principais conspiradores. A informação foi transmitida a Washington, que a fez chegar por canais diplomáticos ao líder do Kremlin.

A reação de Gorbachev foi sempre a de considerar que as coisas estavam sob controlo. Essa era aliás a aparente intenção (ou a justificativa?) das nomeações de figuras conservadoras que ele próprio promoveu – atraí-las para o núcleo do poder para eventualmente as neutralizar. Mera ilusão – todas elas acabaram por traí-lo.

Resta saber se houve efectiva traição, ou se a ambiguidade de Gorbachev deixou as coisas indefinidas num limbo que permitia várias interpretações. Indo de férias numa altura crítica, a mensagem implícita podia ser a de conferir luz amarela a uma tentativa de volte-face, ao mesmo tempo que ele se mantinha longe, à espera de ver o resultado.

A verdade é que a situação lhe escapava cada vez mais e Gorbachev não dava conta de reassumir o controlo de um processo – a liberalização do regime –  que, qual aprendiz de feiticeiro, cada vez mais lhe escapava.

Seja como for, os acontecimentos acabaram por evoluir numa direção que ele nunca pretendeu – quando reemergiu em Moscovo, como ele próprio confessou, foi como se tivesse regressado a um outro mundo.Tudo tinha mudado – o líder agora era Ieltsin – o  chefe da resistência ao  golpe – e a mudança controlada da URSS com que Gorbachev sonhara praticamente eclipsara-se. Não mais uma evolução, de cariz social-democrata, mas uma guinada completa rumo à desintegração.

As repúblicas aproveitaram o colapso do poder central em Moscovo para declarar autonomia. No dia 1 de Dezembro, a Ucrânia aprovava, em plebiscito, a sua independência e uma semana depois os três líderes eslavos (Rússia, Ucrânia e Bielo-Rússia) declaravam extinta a URSS, criando, em sua substituição, a Comunidade de Estados Independentes.  No dia 25 de Dezembro de 1991, Gorbachev renunciava e a 1 de Janeiro de 1992 a bandeira vermelha com a foice o martelo do comunismo era arreada dos mastros do Kremlin, erguendo-se, em sua substituição, a velha bandeira tricolor dos czares moscovitas do século XVII.

Não foi o golpe falhado que desintegrou a URSS. Essa desintegração já vinha de longe, com o esgotamento ou, melhor, com o falhanço do modelo económico soviético. Na própria concepção de Lénine, o socialismo só se justificava se instaurasse uma produtividade superior à do capitalismo. E isso, talvez com excepção dos tempos heroicos da mobilização popular na construção das infraestruturas básicas – nunca se concretizou de forma sistemática.

Não foi, portanto, o golpe falhado que desintegrou a URSS. Mas o golpe veio precipitar tudo, acelerando um processo de transformação que era inevitável. O modelo estava esgotado e a mudança impunha-se. E em 1991, na altura em ocorreu, tudo já tinha ido demasiado longe – do gosto pela liberdade à afirmação da autonomia das nações – para se conceber que um outro caminho ainda teria sido possível.

 

Por Carlos Fino
Jornalista português, nascido em Lisboa, em 1948. Correspondente da RTP – televisão pública portuguesa – em Moscou, Bruxelas e Washington, destacou-se como correspondente de guerra, em conflitos armados na ex-URSS, Afeganistão, Oriente Médio e Iraque. O primeiro repórter a anunciar, com imagens ao vivo, o bombardeio de Bagdad pelas tropas norte-americanas na Guerra do Golfo (2003). Foi conselheiro de imprensa da Embaixada de Portugal em Brasília (2004/2012). Escreve semanalmente para o Jornal Mundo Lusíada.

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