Era uma vez na América. Por Carlos Fino

Por Carlos Fino

DonaldTrumpCom mais facilidade do que se esperava, Donald Trump foi consagrado a semana passada, na Convenção de Cleveland, candidato à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Republicano. Do lado oposto, Hillary Clinton também não terá, esta semana, na Convenção de Filadélfia, quaisquer problemas em sagrar-se candidata pelo Partido Democrata.

Está assim pronto o cenário para nos próximos meses se travar o que promete ser, a avaliar pelo prelúdio a que vimos assistindo, um dos mais ríspidos e duros duelos de sempre pelo controlo da Casa Branca. E isso porque, como há muito não acontecia, as políticas que um e outro defendem, quer no plano interno, quer no plano internacional, não podiam ser mais contrastantes.

Nenhum deles contesta o sistema capitalista nem a superioridade do país; mas, enquanto Hillary se apresenta como a candidata da continuidade, propondo-se gerir da melhor maneira possível as consequências negativas da globalização, Trump assume-se, pelo contrário, como a voz dos prejudicados por esse processo, defendendo uma viragem radical de perfil fortemente nacionalista, protecionista  e isolacionista, que vai ao ponto de questionar as alianças externas e os acordos internacionais de comércio.

Tirania na América?

Se tudo ficasse por aí, não haveria excessivas razões para preocupação. Os democratas, crentes no “destino manifesto” da América, que lhe conferiria particulares responsabilidades em defesa da democracia e dos direitos humanos em todo o mundo, sempre foram mais inclinados ao intervencionismo externo que os republicanos.

Mas a retórica de Trump vai muito além disso. Ao defender o fecho das fronteiras aos muçulmanos, a construção de um muro ao longo de toda a linha com o México e a expulsão dos 11 milhões de imigrantes ilegais, o candidato republicano ultrapassa os limites do bom senso e do simples conservadorismo moderado, flertando claramente com o racismo e a xenofobia, que aparentemente tomaram conta do Great Old Party.

Culminando a deriva direitista em que embarcou nas últimas décadas, desde Newt Gingrich ao Tea Party, o velho grande partido de Lincoln assume agora com Trump um perigoso espírito de radicalidade que faz alguns analistas temerem até pelo futuro da democracia na América.

A democracia americana – escrevia há dias no New York Magazine o jornalista Andrew Sullivan – “nunca como hoje esteve tão madura para a tirania”. Por seu turno, o cientista político Robert Paxton compara os comícios de Trump às grandes reuniões de massas promovidas por Mussolini. Em declarações ao Washington Post, Paxton frisou que para essa similitude contribui o sentimento de vitimização que se vivia na Europa no entre guerras e está presente hoje nos EUA.

“Esse sentimento de vitimização” – afirmou – “foi absolutamente essencial” para a ascensão do fascismo na Europa; “E penso que é muito forte hoje em dia na América”, em particular entre a classe média branca. Um grupo que vem perdendo poder e representatividade e que a evolução demográfica condena, a partir de 2050, a um papel menor face á ascensão dos negros e latinos.

Na raiz da ira, a desigualdade

Trata-se de uma situação algo paradoxal porque os EUA, globalmente, até vão bem. As políticas americanas postas em prática por Obama responderam muito melhor à crise financeira do que as políticas austeritárias europeias impostas pela Alemanha de Merkel e os resultados são palpáveis – crescimento de 2,4%, em 2015, e queda do desemprego para meros 5%.

O problema é que os beneficiários do crescimento se concentram apenas numa mão cheia de multimilionários e bilionários, quando os rendimentos das classes médias vêm decrescendo sistematicamente. Desde 1999, o rendimento médio anual das famílias diminuiu 5.000 dólares, ao mesmo tempo que as perdas patrimoniais se cifraram em cerca de um terço. Dois terços das famílias estão endividadas, muitas delas fortemente.

Daí o sentimento generalizado de perda e a crescente descrença no velho ideal americano de que quem trabalha e se aplica acabará por vencer. Aquilo a que se assiste desde há pelo menos duas décadas é que os EUA se transformaram num país de muitos perdedores e muito poucos vencedores, com erosão sistemática das classes médias, coluna vertebral de qualquer democracia.

Metade dos jovens com menos de 25 anos – revelava há algumas semanas uma sondagem do New York Times – não acredita mais que o capitalismo seja o melhor de todos os sistemas económicos – dado que explica o amplo apoio que teve o senador Bernie Sanders, rival de Hillary à nomeação democrata.

Duelo ao entardecer

É neste contexto de alguma “exaustão da democracia” – como escrevia há dias a revista alemã Der Spiegel – que o próximo duelo político se vai travar.

O New York Times garantia há dias que Hillary tem 75% de possibilidades de ganhar – quase como marcar um penalty com a baliza aberta! Mas a verdade é que já vimos estrelas falharem em momentos decisivos e não é certo que a maior tranquilidade, normalidade e racionalidade de Hillary Clinton consigam vencer o desafio colocado pelo politicamente incorrecto Donald Trump.

Engajada pelo partido democrata desde a juventude, ainda no final dos anos 60, mulher de ex-presidente, ex-senadora e ex-secretária de Estado, Hillary, que enriqueceu na política, é a cara do próprio establishment. Por isso as suas vantagens – profundo conhecimento dos meandros de Washington e capacidade prática de “conseguir fazer as coisas” – são, simultaneamente, a sua fragilidade. Afinal, ela pertence à elite que boa parte da população detesta ou no mínimo com a qual não se identifica. Com a agravante de um comportamento em geral frio e distanciado que torna ainda mais difícil a sua empatia com o comum dos mortais.

Trump, pelo contrário, já mostrou que sabe captar o sentimento popular e expressá-lo em termos do quotidiano, sem papas na língua e sem medo de quebrar  tabus. Venceu todos os oponentes e ao contrário do que se esperava, não só não foi enquadrado pelo Partido Republicano, como lhe impôs as suas ideias.

De um lado, uma mulher preparada e segura de si, mas fria e basicamente garantindo mais do mesmo – evolução na continuidade; do outro, um desafiante sem experiência política – uma vantagem! – que dá voz de forma calorosa e empática ao descontentamento generalizado, ainda que com o perigo de uma deriva populista de consequências imprevisíveis.

Para qual deles acabará por pender o voto maioritário? Da resposta que for dada em Novembro pode em boa parte depender o futuro dos Estados Unidos e do próprio planeta.

Uma coisa para já é certa – quer o Brexit, na Europa, quer o percurso de Trump, na América, estão aí para provar que as coisas não podem simplesmente continuar como estão.

 

Por Carlos Fino
Jornalista português, nascido em Lisboa, em 1948. Correspondente da RTP – televisão pública portuguesa – em Moscou, Bruxelas e Washington, destacou-se como correspondente de guerra, em conflitos armados na ex-URSS, Afeganistão, Oriente Médio e Iraque. O primeiro repórter a anunciar, com imagens ao vivo, o bombardeio de Bagdad pelas tropas norte-americanas na Guerra do Golfo (2003). Foi conselheiro de imprensa da Embaixada de Portugal em Brasília (2004/2012). Escreve semanalmente para o Jornal Mundo Lusíada.

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