Os protestos urbanos que se derramam pelo Brasil

Toda novidade causa algum tipo de espanto. É algo natural. E estes movimentos de protesto nas ruas, nas últimas semanas, não são diferentes. Há, inquestionavelmente, uma sensação confusa no ar, misto de temor com euforia. E a pergunta: até onde vai isso tudo?

Em verdade, o chamado MPL, Movimento Passe Livre, não é tão novo assim. Estava ausente das atenções dos grandes veículos de comunicação. Em 2008 já se definia num sítio da internet colocando-se como “um movimento social brasileiro que luta por um transporte público de verdade, fora da iniciativa privada”. Seus mentores desejavam contribuir com o debate sobre a mobilidade urbana, apoiando a estatização do transporte “garantindo o acesso universal através do passe livre para todas as camadas da população”. Refletiam várias ocasiões de protestos públicos contra o aumento das tarifas como ocorreu, por exemplo, em Salvador (2003) e Florianópolis (2004), e participando já com propostas no quinto Fórum Social Mundial (2005). No referido texto na internet, posicionavam-se como fundamentados nos princípios de organização aprovados em independência, apartidarismo, horizontalidade, decisões por consenso e federalismo. E suas lutas têm uma data comemorativa: 26 de outubro, ‘Dia do Passe Livre’.

Mas, efetivamente, para o público em geral, o MPL ficou mesmo sob os holofotes a partir deste  junho. No dia 6 ocorreu a primeira manifestação contra o aumento de R$ 0,20 que entrou em vigor na cidade de São Paulo ao abrir o mês. Na Av. Paulista houve confusão e vandalismo. A polícia atuou firme na repressão. Só o Metrô de São Paulo estimou em R$ 73 mil os prejuízos no primeiro dia, sendo R$ 68 mil em vidros quebrados e R$ 5.000 com luminárias danificadas. Isso, no entanto, não intimidou o pessoal. O movimento voltou à carga com reencontros posteriores. E, cada vez mais, aumentando o número de simpatizantes da causa. O interessante é que, até a quarta manifestação, a imprensa insistentemente chamava os protestos de baderna, de rebeldia sem causa, bagunça e afins. É bom lembrar que, até então, nem se conhecia efetivamente o MPL. Porém, nesta ocasião, a Polícia Militar foi flagrada batendo em protestantes que não faziam nada de extraordinário e, mais que isso, os militares acabaram por ferir, com balas de borracha, além dos ativistas, pelo menos oito profissionais da imprensa. Isto, inquestionavelmente, mudou a posição dos jornalistas. A mídia, até então contrária, os mostrou com outros enfoques, passou a ‘compreender’ as razões dos manifestantes, que se articulavam através das convocações via redes sociais, um instrumento extremamente importante para a organização. E os protestos passaram a se espalhar espontaneamente por diversas cidades do país e também do exterior.

Na terça feira, 18 de junho, 250 mil pessoas marchavam em São Paulo; 150 mil no Rio de Janeiro; 5 mil em Brasília e por aí foi. Uma espécie de desejo de participação como não se via há anos. Mensagens na internet e cartazes de manifestantes apontavam que ‘o Brasil acordou’. Mesmo com cenas de violência gratuita por parte da massa – imagens mostravam que houve conflito entre grupos participantes, uns muito violentos e outros pedindo paz, resultando em assaltos, quebradeira de lojas e do patrimônio público – a imagem do MPL não foi afetada. Tanto que dia seguinte, 19 de junho, o prefeito Haddad revogou o aumento dos ônibus, assim como fez Alckmin para trens e metro.  E muitas outras cidades também voltaram atrás nos reajustes. Uma clara vitória política do Passe Livre. Embora, é bom se ter cuidado com euforias, pois, alguém vai pagar a diferença porque ‘não existe almoço de graça’. Irá refletir em realocação de recursos dentro das esferas do Estado e do Município. O poder público arcará com o ônus, ou seja, vai tirar recurso de outros investimentos? Ou haverá – o que seria certo – uma auditoria firme na contabilidade das empresas de transporte urbano?

Não podemos esquecer que a cidade de São Paulo, que inspirou os demais pontos do país nas manifestações, passou recentemente por protestos de professores, de trabalhadores do metrô, da saúde. É uma cidade carente de qualidade nas áreas citadas, assim como na segurança pública, onde uma onda de assaltos assusta a população de classe média, ao mesmo tempo em que extermínios acontecem na periferia e os casos solucionados são poucos. Há inúmeros motivos pelo que se manifestar nesta metrópole, de sujeira a não pagamento de precatórios, passando pela inexistência de bibliotecas e centros de culturas em muitas regiões até, inclusive, a construção de um novo estádio de futebol utilizando-se de recursos públicos, confrontando inúmeras carências. Obra, aliás, que une Estado com Município, administrações de partidos opostos que se atrelaram com curiosa facilidade para a milionária empreitada. Nesse sentido, o MPL poderá ‘fazer escola’ e se desdobrar para outras vertentes de reivindicações além da tarifa que acendeu o estopim. Pautas é que não faltarão, portanto. Aliás, não aumentar a passagem também não refresca quanto ao mau atendimento do transporte público na capital.

Por outro lado, os governantes, agora, ficaram em difícil posição. É muito bom ver o povo nas ruas, indignado com as mazelas dos gestores, cobrando as autoridades constituídas. Demorou para se mexer, todavia, cutucou a letargia, a preguiça da classe política, acomodada e afastada da população. Esta é a grande vitória até aqui. Tomara que não perca o fôlego. E consiga controlar os inevitáveis aproveitadores truculentos, assim como os golpistas de plantão, que se misturam à causa justa.

A política precisa efetivamente da participação popular e há muito isto não acontece no Brasil, país que conviveu durante muito tempo com regimes autoritários. Quando os cidadãos se abstêm de sua participação nas questões sociais, sempre haverá aqueles que aproveitarão de bom grado o ensejo para proveito próprio. São os primeiros capítulos desta história. Hoje tem mais. Vamos ver os desdobramentos seguintes. As eleições já se enxergam no horizonte.

Prof. José de Almeida Amaral Júnior, São Paulo, 20 de Junho de 2013

 

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais; Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação; Colunista do Jornal Mundo Lusíada On Line, do Jornal Cantareira e da Rádio 9 de Julho AM 1600 Khz de São Paulo.

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