O prazer de matar

 

Nunca mais o bairro do Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro será o mesmo. Dia 7 de Abril próximo passado foi a data de um acontecimento absolutamente trágico e impensável até então. E, infelizmente, inesquecível e traumatizante. Nela se deu um massacre contra estudantes de escola municipal, numa manhã calma que, subitamente, remeteu aquele pedaço da Cidade Maravilhosa a regiões já marcadas por eventos como esse, caso dos EUA e seus vários exemplos, de ação de desequilibrados que entram em locais e disparam contra a população indefesa.
Naquela quinta feira, 12 alunos entre 12 e 15 anos foram mortos friamente de imediato, além de outras 12 pessoas terem sido atingidas e saído feridas, assim como inúmeras também sendo vitimadas pelo pânico gerado – gritaria, tiros e sangue – que certamente vai demorar muito para ser apagado. Como vários disseram: “eu vi a morte de perto”. Fica difícil uma coisa dessas se tornar algum dia esquecimento para quem vivenciou tal situação.
Pelo levantamento feito através dos policiais o jovem envolvido na situação vivia sozinho, isolado, havia perdido a mãe adotiva, estava sem emprego. Depressivo. Suas vitimas foram escolhidas preferencialmente sendo mulheres. Muitos apostam que foi uma espécie de revanche por bullying que o rapaz teria sofrido ao estudar na referida escola, circunstancia, aliás, que facilitou sua entrada. Era alguém conhecido. O caso foi destaque na imprensa mundial.
O fato é que, a partir de então, muito se tem falado e, quase que de imediato, reabriu-se a discussão sobre a questão da posse de armas. Alguns setores no Congresso defendem o debate para a realização de uma nova votação sobre o tema. Lembro a todos que em 2005, com mais de 92 mil votos válidos, o plebiscito sobre a posse de armas deu vitória com 63% pela ‘não’ proibição do comércio de armas de fogo e munição no país.
Àquela altura a Revista Veja defendeu publicamente o lado vencedor alegando que proibir venda em diversos países não baixou a criminalidade; que desarmar a população é um elemento básico das políticas totalitárias; que a polícia brasileira é incapaz de garantir a segurança; que a negação iria estimular o comércio ilegal etc. Foi um conjunto que a indústria de armas, diga-se, gostou de ler e festejou o resultado. Hoje o presidente da OAB posicionou-se pessoalmente de forma contrária a um novo plebiscito. A seu ver o referendo de 2005 é legitimo e precisa ser respeitado. Ophir Cavalcante falou que, na realidade, o problema todo é a inexistência de “uma política clara, consistente e efetiva de combate à criminalidade e o tráfico de armas”. Faz sentido.
No entanto, ao que me parece, o problema é muito mais amplo que a posse de armas e o tráfico. Naquele plebiscito votei pelo “Sim”: chega de comércio de armas. Isso claramente evitaria uma maior circulação dessa mercadoria. Obviamente acompanhada de uma intensificação da ação policial, no cerco ao tráfico dessa mortífera máquina. Contudo, como dizia, acredito que não é somente um novo plebiscito sobre o comércio de armas que vai contornar essa questão trágica. O negócio é bem maior. É um problema cultural. Está no hábito, na rotina. A imprensa já registrou que, na chamada Rede Social, onde as pessoas se reúnem para trocar idéias através do espaço da Internet e se há uma grande liberdade de expressão, em vários lugares foram registrados apologias, apoios ao jovem Wellington, assassino de 23 anos. Ou seja, a violência ultrapassa a questão da posse de arma. Ela está no nosso dia-a-dia, no quotidiano, que é competitivo e inúmeras vezes manchado por elementos preconceituosos.
Sem precisar voltar muito atrás na história, lembro que quando acabaram as eleições presidenciais pipocaram incentivos à morte dos nordestinos em São Paulo, culpados pela vitória da candidata do pernambucano ex-pau-de-arara Lula. E as chamadas, as provocações, para se eliminar gays e negros? Ou mesmo o caso da convocação dentro da importante UNESP do rodeio das gordas, onde os machões acadêmicos pegariam as moças mais obesas e subiriam em suas costas imitando os vaqueiros/ peões, caso em meados de 2010? Nossa mídia, que serve para nos recrear, está coalhada de filmes violentos em horário ‘familiar’, um autêntico prazer de matar e jorrar sangue, sem contar os desenhos infantis carregados de instintos nada civilizados. Rádios tocam canções que dizem que mulher é cachorra e gosta de apanhar. São doses cavalares e constantes de evidente valorização da brutalidade que são absorvidas sem maiores filtros, naturalmente.
Há uma forte crise ética na sociedade, excessivamente consumista, utilitária, irresponsável e que esquece os valores coletivos. Família, escola, religião em crise. Tempos difíceis que precisam de muito debate, muita reflexão e iniciativas o mais rápido possível em favor da vida.
São Paulo, 14 de abril de 2011

Prof. José de Almeida Amaral Júnior

Professor universitário em Ciências Sociais; Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação; Colunista do Jornal Mundo Lusíada On Line, do Jornal Cantareira e da Rádio 9 de Julho AM 1600 Khz de São Paulo.

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