O escândalo do HSBC na versão verde-amarela

A palavra escândalo faz tempo que virou rotina no vocabulário popular. E, pior que isso, ela não é empregada simplesmente para falar da vida de astros de cinema, da música ou do futebol, como costumeiramente acontece na grande mídia comercial que vive atrás desses casos, porque ajudam muito a vender jornal. Os escândalos têm atingido a classe política de forma incessante, o que é uma vergonha, assim como figuras supostamente impolutas da sociedade que, teoricamente, pagariam rigidamente seus compromissos fiscais entre outras obrigações cabíveis a todos bons cidadãos. O caso Swiss Leaks, que apareceu no início de fevereiro, joga mais lenha na fogueira. Embora muita gente esteja tentando esconder essa ‘nova lenha’.

Um dos maiores bancos do mundo, o HSBC, foi acusado por investigadores no mercado financeiro de evasão fiscal. Denuncias foram feitas contra a filial da instituição na Suíça. Lá, teria abrigado contas de ditadores e traficantes, ajudando a financiar, indiretamente, o terrorismo internacional e crimes como a lavagem de dinheiro. A investigação foi batizada como Swiss Leaks porque foi dada à luz pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos, trabalhando junto ao jornal francês Le Monde, obtendo dados de contas secretas de 106 mil clientes de 203 países entre 1988 e 2007, reunindo um montante cujo valor depositado chega a 180 bilhões de dólares.

Segundo os jornalistas, o HSBC na Suíça, aproveitando das frouxas leis fiscais locais, oferecia serviços para ajudar seus clientes a driblar a tributação sobre suas contas bancárias. O banco admitiu que durante um tempo não atuou de forma correta na aceitação e administração de contas, mas que desde 2007 toma providências para evitar problemas maiores. Autoridades francesas receberam documentos de um ex-funcionário do banco, Hervé Falciani, e repassaram os dados aos jornalistas investigadores. O grupo, então, decidiu publicar alguns nomes ‘de relevância pública’ a seu critério. Alias, cabe lembrar neste ponto, tratando-se de sonegações e afins, estudos publicados pelo Journal of Economic Perspectives, dos EUA, existem cerca de 7,6 trilhões de dólares, o equivalente a 8% da riqueza mundial, guardados em contas de particulares em paraísos fiscais, somente considerando os ativos financeiros e não os bens mobiliários ou imobiliários que podem ser mantidos em paraísos fiscais. Ou seja, os ricos usam e abusam. Assim, então, muita gente bacana passou a suar frio. Inclusive no Brasil.

De acordo com os jornalistas internacionais, as figuras exemplares brasileiras somam 8.667 nomes que estão na lista e colocam o país como o 9º no mundo envolvido com a fuga do fisco e a lavagem de dinheiro. É um fato monstruoso e que, observando nossa mídia comercial, não tem absolutamente nenhum trabalho investigativo profundo, limitando-se a comentários breves e superficiais. País posicionado, repetimos, no 9º lugar deste bilionário alvoroço internacional. Cabe aos nossos patrícios endinheirados algo em torno de US$ 7 bilhões de sonegação e lavagem de dinheiro. Por que então não há empenho como o mensalão e a corrupção da Petrobrás para se aprofundar o caso com valentia e espírito cívico? Por que uma agenda de notícias e não outra? Seletividade esquisita. Pelo planeta corre-se atrás da lista junto às autoridades européias; aqui se desconversa. Resposta é simples: porque pimenta nos olhos dos outros é refresco. Vamos explicar melhor: chamamos isto de hipocrisia. Como diz o ditado: ‘aos amigos tudo, aos inimigos a Lei’. E os trabalhos de ocultamento e dissimulação se espalham por aqui. O que, por si só, já é outro escândalo.

O jornalista Fernando Rodrigues da UOL publicou uma breve lista ‘verde e amarela’ de envolvidos no caso e pintaram nomes de astros de televisão, produtores de TV e cinema, escritores e afins. Mas, ainda não está ai o grande motivo da cautela, da atitude discreta ao longo dos dias. Em meados de março algumas pistas da imensa encrenca foram dadas. Conforme o UOL “ao menos 22 empresários do ramo jornalístico e seus parentes, além de 7 jornalistas, estão na relação dos que mantinham contas na agência do HSBC em Genebra, na Suíça”. Nomes dos proprietários do Grupo Folha, a família Saad – Grupo Bandeirantes, Grupo Abril, Jovem Pan, a falecida Lily Marinho, viúva de Roberto Marinho, da Globo estão relacionados. Há mais, muito mais e seus conseqüentes desdobramentos. É preciso mostrar à população com clareza o tamanho da vergonha, do escândalo sufocado. Especialmente quando se fala em ‘guerra à corrupção no país’. Algo corretíssimo, especialmente se ampla e generalizada.

Uma CPI no Congresso foi requerida, com toda justiça. Estranhamente o PSDB não contribuiu com o pedido. A lista dos titulares das contas certamente guarda estreita relação com outras redes do crime organizado do país e do mundo. Ignorar o fato ou apresentá-lo com seletividade denuncia o envolvimento de personagens poderosos e intocáveis. Cadeia tem que ser para todos os devassos. Petistas ou não. Sem privilégios. E também deve ser para já. São Paulo, 27 de março de 2015.

 

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais; Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação; Colunista do Jornal Mundo Lusíada On Line, do Jornal Cantareira e da Rádio 9 de Julho AM 1600 Khz de São Paulo

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