O Câncer da Sociedade

Há alguns dias atrás o ex-presidente Lula recebeu a desagradável noticia de uma séria doença que atingiu sua laringe. Pelo visto, conforme algumas pessoas próximas comentaram, ele sentia alguma coisa estranha na garganta, mas tinha receio de pesquisar. Por pressão familiar e dos amigos, foi buscar explicações. Fez o certo. E deu sorte. Se tivesse demorado mais, poderia ser pior. Agora está se tratando nas mãos de grandes especialistas, com boas chances de cura, segundo os boletins médicos.
Não tivesse acontecido com o ex-presidente da república, talvez essa conversa terminasse por aqui, destacando exatamente que as pessoas devem procurar o especialista e fazer exames rotineiros de saúde para evitar que qualquer problema apareça de surpresa. Mas, infelizmente o caso vai além dessa importante dica de prevenção. E entra nos tortuosos caminhos do preconceito e da maldade humana.
Assim que as agências de notícias deram o fato ao grande público, as redes sociais através dos facebooks, do twitter e também de e-mails começaram a multiplicar mensagens bastante raivosas dirigidas a ele, cuja hidrofobia demonstra o tanto de rancor existente neste país, secularmente cheio de contrastes sociais e que não consegue se convencer de que todos têm direitos a uma vida decente, de qualidade e dignidade. São os mesmos que ironizam a chegada da ‘nova classe média’ que, bem ou mal, caracteriza uma melhora no consumo de milhões de pessoas que passam a ter possibilidades anteriormente vetadas. Reclama-se porque não há domésticas disponíveis como antes, ou não há mão de obra barata que topa tudo por uns trocados. Agora virou mania: todo mundo ‘quer ter direitos’. Ou, ‘ninguém quer trabalhar’, estão todos ‘vivendo de Bolsa Família’. Ou ainda ‘indo para o Prouni’, se metendo a estudar. A velha pergunta: ‘se o povo melhorar, quem vai fazer o serviço duro?’ E, símbolo dessa mudança é Lula, fatalmente o grande objeto desse ódio.
Impressionante como é alvo constante de gozações de baixo nível. É permanente o esquecimento das boas maneiras, da boa educação. Desrespeito e falta de consideração são absolutamente comuns em relação a sua figura. Exemplos básicos: em 2004 o correspondente do The New York Times, Larry Rohter, comentava sobre “o governo esquerdista de Lula [que] foi atingido por uma crise após a outra, de um escândalo de corrupção ao fracasso de importantes programas sociais” destacando as bebedeiras do presidente, colocando o país em vergonha perante a comunidade internacional (http://www.pampalivre.info/bebedeiras_de_lula_repercutem.htm). Ano seguinte, em 2005, o senador Arthur Virgílio, do PSDB do Amazonas, ameaçou ‘dar uma surra’ em Lula. E foi corroborado por ACM Neto, do PFL bahiano (http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u73653.shtml). Hoje, são constantes os comentários em rádio e tv falando da ‘herança maldita’ de Lula para Dilma, em outras palavras, a corrupção em ministérios, que dificulta o bom andamento do presente governo. E por aí vai. Agora, além das questões ministeriais, há também o problema da doença descoberta e as pilhérias do tipo ‘vida desregrada’ que o teria levado a ficar doente. E, mais que isso: ‘tem que ser tratado no SUS’.
Se Lula fosse filho das elites brasileiras isto não aconteceria. Alguém duvida? Por exemplo, quantos se preocuparam ou insistiram em enviar e-mails ou gravar comentários em rádio e televisão falando para prefeito, governador ou outro ex-presidente qualquer deslocar-se para o trabalho de ônibus ou metrô? Claro, especialmente em horário de rush. Nunca recebi ou ouvi coisa nesse sentido. Quantos  sugeriram com bastante veemência que comessem com seus funcionários na base do ‘bandejão’ ou de ‘quentinhas’. Óbvio, sem ser época de eleição. No dia a dia. Ou que colocasse o filho na escola pública, ao invés de pagar colégio particular. Algum outro político de destaque recebeu tantas sugestões para se tratar usando o SUS? Aliás, a qualidade efetiva do serviço público deveria ser um exercício de permanente observação desses gestores para o benefício da população. O governador Mário Covas, quando adoeceu, não foi ‘convidado’ a se tratar no SUS ou afim. A falecida Profª Dra. em antropologia Ruth Cardoso, mulher de FHC, também fez seu tratamento no Sírio Libanês. O próprio avô de ACM Neto não pegou fila para ser cuidado no UniCor em São Paulo. Churchill fumava, tomava as suas doses e, mesmo assim, permanece como herói britânico. E por ai vai.
Todos esses insultos e invencionices acontecem porque Lula é um nordestino do interior, vindo de uma família de retirantes, ‘pau-de-araras’, como milhares que saíram de seus lugares no sertão para tentar vencer no Sul. E, mais que isso, o que deixa essa gente arrogante em desespero, ele venceu. Um operário que foi além do batente no torno mecânico e é recebido nos grandes palácios globo afora. Tanto o senador do PSDB quanto o do Dem, assim como o jornalista norte-americano do NYT, tiveram que engolir logo a seguir às suas ações as conquistas de Lula em seu governo. Segundo Barack Obama, presidente dos EUA, Lula ‘é o cara’.
Ele foi eleito duas vezes pelo voto direto. E fez sua sucessora, que hoje é recebida na ONU e nas grandes capitais do mundo sendo uma opinião destacada, não apenas fazendo figura decorativa. A primeira mulher na presidência. Sua primeira palestra como ex-presidente, paga por uma multinacional, valeu R$ 150 mil, por 40 minutos de fala. E continua sendo requisitado, com agenda e platéias cheias ao redor do planeta. Ele é agraciado por diversas universidades européias, como em setembro, quando recebeu o título de doutor “honoris causa” no Instituto de Estudos Políticos de Paris, o Sciences Po, por sua “contribuição ao desenvolvimento econômico e social de seu país”. O primeiro latino-americano a ganhar a honraria. E em seu discurso lembrou o “orgulho de ter criado 14 universidades, 126 campi universitários e 214 escolas técnicas”. Saiu do governo com recorde de aprovação, escapando da crise financeira global e fortalecendo o mercado interno, dando condições de expansão da sustentação da chamada Classe C, sendo um dos mercados mais requisitados para investimentos do exterior e deixando como legados a realização de uma Olimpíada e de uma Copa do Mundo. Apoiou as investigações da polícia federal nos casos envolvendo seu governo. É inegável aos olhos dos organismos internacionais que o Brasil evoluiu social e economicamente em seu governo. E esses triunfos não são suportados pela elite e por seus discípulos raivosos.
Ninguém tem obrigação de ir com a sua cara, votar nele ou em seus candidatos. Porém, há limites para tudo. Ele que cuide de sua vida privada da forma que legalmente bem entender e lhe for direito como cidadão. E ponto final. O fato é mais uma prova de que a luta pelo poder no Brasil é selvagem e de baixo nível. Nunca tivemos um estado do bem estar social como experimentado pelos europeus. O povo sempre foi mantido cativo, vigiado. Uma espécie de prolongamento da relação casa grande-senzala. ‘Direitos só para os meus, obrigações para os demais’. Não entendem que a política tem adversários, não inimigos. Você pode discordar, mas não ridicularizar ou desrespeitar o outro. Este país, que ainda tem muito a fazer, o que aprender e só irá adiante se houver civilidade. Democracia – coisa rara em nossa trajetória de 500 anos – conta com elementos básicos como humanismo e ética. A intolerância demonstrada pela elite e seus adeptos subservientes tem vários exemplos tristes na história, resultando em obscurantismo, guerras e massacres. É ignorância e brutalidade. Esse comportamento preconceituoso precisa ser combatido com força e tenazmente, igual ao câncer que agride o ex-presidente Lula.

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais; Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação; Colunista do Jornal Mundo Lusíada On Line, do Jornal Cantareira e da Rádio 9 de Julho AM 1600 Khz de São Paulo.

2 Comments

  1. Não poderia esperar outra coisa do senhor senão isso, palavras abalisadas, autênticas, com propriedade e esclarecimento.
    O senhor é um verdadeiro mestre na acepção da palavra, único, inovador, diferente.
    O senhor personifica o Mito da Caverna, sendo suas palavras o fecho de luz para nossas mentes.
    Viva Lula, Viva Amaral, Viva o Brasil!!!!!!!!!
    Marcelo Candido, Aluno do 4º Semestre da Universidade NOve de Julho, Noturno.

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