Meio ambiente todo maltratado

Como era de se esperar, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, chamada ‘Rio +20’, que teve, segundo a ONU 10.288 delegações, 8.038 ONGs, mais convidados especiais e jornalistas, resultando numa soma acima de 41.400 credenciais para o evento, o maior da história da ONU, foi concluída sob muita polêmica. Pairou no ar a questão: avanços aconteceram ou permaneceu um imobilismo?

Para os participantes oficiais dos debates e redação da carta propositiva, há sim uma dimensão de entendimento de que existe uma decisão global e outra que diz respeito a como cada país vai fazer individualmente suas atuações. Foram meses de conversas para se chegar ao encontro e realização de uma carta em consenso. Desta forma, é fato de que o desenvolvimento sustentável se transforma em paradigma em todos seus aspectos: o social, o ambiental e o econômico no mundo. Por outro lado, muita gente diz que este ‘paradigma consensual de importância sobre desenvolvimento sustentável’ não basta mais. O documento não projeta melhoras em relação ao que se aponta como urgente desde há 20 anos, na ‘Eco-92’. Sintomático desta situação foi a própria posição do Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, que no dia 20/06 afirmou as negociações terem sido difíceis devido aos diversos interesses locais, dos países, que estavam na mesa de discussão. E ele próprio esperava um “documento mais ousado”, segundo texto da própria ONU. No dia seguinte, ele veio à imprensa dizer que a carta era boa sim, afirmando “foi um grande sucesso”. Segundo jornalistas, teria sido pressionado pelo governo nacional a se explicar. Afinal, para a presidência da república brasileira, quem assinou o texto precisa assumi-lo e, como são projeções para o futuro, há sim ambição nos projetos. E cada um deve levar adiante da melhor forma que puder as intenções.

Dentro da Eco-92 um dos fatos mais importantes foi a redação da chamada Agenda-21, com 40 artigos, prevendo que as grandes cidades no planeta deveriam montar sua plataforma de desenvolvimento sustentável mobilizando o máximo possível os diversos segmentos da sociedade. Conforme os especialistas, no mundo, não há nenhuma cidade com 100% de realização referente ao texto. Por outro lado, multiplicaram-se as ações pró-sustentabilidade. No Brasil, por exemplo, segundo o IBGE, entre 1991 e 2005, foram criadas novas 2.215 entidades nesse meio, fortalecendo evidentemente o movimento ambiental no país.

Há 40 anos, na pioneira Conferência de Estocolmo, foi identificada a responsabilidade principal pelo estrago no ecossistema recaindo sobre as potências econômicas, os países mais ricos, sendo eles, portanto, quem deveriam arcar com o prejuízo maior. Isto veio até a Eco-92. Porém, nestes últimos 20 anos, essas nações tem andado mal das pernas. Vêem a ascensão das economias como o Brics. China, Índia, Brasil e Rússia andam com crescimento superior e as potencias, agora, dizem que não podem ser tratadas de forma diferenciada com os que vêm chegando, pois estes não são mais pobrezinhos e eles próprios estariam sem dinheiro para maiores esforços. Cobram igualdade nas relações. Contudo, isto realmente é justo? A Europa Ocidental, os EUA e o Japão, de fato, têm um currículo com mesmo peso de influência sobre a exploração ao meio ambiente em relação aos demais países?

Concretamente, podemos claramente afirmar que o ecossistema veio sendo atacado com o avanço do modo de produção que se configurou após o advento das grandes navegações e descobrimentos. A revolução industrial e o imperialismo resultaram em grandes conquistas tecnológicas, mas também em profunda exploração dos recursos naturais e das sociedades que foram colonizadas, que ficaram presas como satélites às potências capitalistas durante séculos. É justo que estes queiram igualar a importância histórica dos impactos realizados, apenas pelos últimos 20 anos, período de evolução das economias em desenvolvimento?

Na verdade, a impressão que temos é que todo mundo diz pensar em um planeta mais saudável, só que, na prática, o esforço para tanto é empurrado para os outros. Ou seja, ninguém quer abrir mão do poder, do hábito consumista e cheio de desperdícios para acertar as contas. E a realidade é recheada de distorções, desequilíbrios. Em 2010, segundo o Boston Consulting Group – BCG, os milionários representavam 0,9% da população do globo, controlando 39% da riqueza mundial. Para a entidade, o cálculo não inclui casas, bens de luxo e empresas, apenas investimentos acima de 1 milhão de dólares. Dentre os mais ricos, aqueles com fortuna superior a US$ 5 milhões, ou 0,1%, possuíam 22% da riqueza total. A elite financeira mundial concentrava então US$ 47,4 trilhões. Os Estados Unidos lideravam em número de milionários, seguidos pelo Japão, China e Reino Unido. Destaque também para a Suíça e para a densidade crescente em Singapura. Paralelamente, uma pessoa em cada grupo de sete passa fome no mundo atualmente segundo a FAO/ONU. Esta é a lógica do sistema que vivemos. A fome está vinculada a especulação das commodities, onde os alimentos são tratados como produtos financeiros, impactados pela produção de biocombustíveis ou pelos protecionismos comerciais. Fome é questão política e econômica. Não esquecendo a guerra, como vivenciada em regiões da África. E o gasto militar aumentou 1,7 trilhão de dólares, quase o dobro do que na década de 1970, época da corrida armamentista da Guerra Fria. São números impressionantes e não podem passar sem resposta.

Oitenta mil pessoas, mobilizados pela Cúpula dos Povos, que acompanhou e debateu as questões ambientais paralelamente a Rio + 20, marcharam por uma nova ordem mundial mais equilibrada, criticando o lucro a todo custo e alertando para as explorações sobre as populações pobres e a biodiversidade. É o caminho. Esperar por iniciativa de boa vontade das potências é ingenuidade. O dinheiro oferecido pelos EUA para projetos de energia limpa na África – US$ 20 milhões – vale quatro vezes menos que o Boeing que trouxe a secretária Hillary Clinton ao Rio de Janeiro em sua breve passagem. A luta continua e as respostas a esta Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável precisam ser dadas ao longo dos dias com mobilizações permanentes e atitudes firmes. São Paulo, 22 de junho de 2012

 

José de Almeida Amaral Junior
Professor universitário em Ciências Sociais, Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação, Colunista do Jornal Mundo Lusíada On Line e das emissoras Rádio 9 de Julho AM 1600 Khz e Cantareira FM 87,5 de São Paulo.

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