Diálogo Ecumênico em Defesa de um Planeta mais justo

Dois fatos importantes no pós-carnaval 2016 que precisamos destacar em nossa coluna. Um, foi o momento histórico do reencontro da maior autoridade da Igreja Católica com o representante da Igreja Ortodoxa Russa. Papa Francisco e patriarca Kirill se reuniram em Havana, Cuba, nesta sexta feira, 12 de fevereiro, em um espaço reservado do aeroporto internacional José Martí. Desde o século XI, no ano de 1054, plena Idade Média, quando aconteceu a cisão da Igreja, isto não ocorria.

As agências internacionais destacaram que foi em 2014, quanto aconteceu uma visita à Turquia e conversaram por telefone, o papa Francisco passou a desejar este momento de aproximação. Então, a sorte fez coincidir que, nesta oportunidade, ambos estivessem viajando pelas Américas. O patriarca indo à ilha caribenha e o papa ao vizinho México. Então, não perderam a chance. No encontro, entre vários temas como a secularização, a defesa da vida e dos valores da família, destacou-se a perseguição que os cristãos estão sofrendo, especialmente no Oriente Médio. Um dado curioso deste grande evento é que ele se deu em um país que até recentemente era oficialmente ateu. Mas, certamente pesou que ele está fora da Europa, região que foi ingrediente de discórdia entre as duas instituições que agora se reaproximam, sem contar que Cuba tem boas relações tanto com o Vaticano quanto com a Rússia.

Outro ponto é a Campanha da Fraternidade 2016, cujo tema é a “Casa Comum, nossa responsabilidade”, buscando unir forças em prol do direito ao saneamento básico e pelas políticas públicas que garantam o futuro do planeta, em sintonia com o pensamento do Sumo Pontífice. E, além da importância essencial da questão temática, traz também, como no encontro de Havana, a marca do diálogo, do ecumenismo.

Vale ressaltar que, a cada cinco anos, a Campanha ocorre desta maneira, agregando diferentes expressões religiosas, sendo levada adiante pela CNBB e pelo Conic – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil. É a quarta vez que isto ocorre. Anteriormente, no ano 2000, teve como tema “Dignidade humana e paz”. Depois, em 2005, tratou de “Solidariedade e paz”. A anterior, em 2010, versou sobre “Economia e vida”. Agora, chama a atenção para a importância do saneamento básico, do consumo de água potável, ao direito humano à saúde para toda a população, não apenas para as minorias privilegiadas. Francisco, em nota, escreveu que “a grave dívida social para com os pobres parcialmente é saudada quando se desenvolvem programas para prover de água limpa e saneamento as populações mais pobres”. Veja, clicando aqui, o vídeo da CF 2016 https://www.youtube.com/watch?v=-4yeFIM2Wbg

A IV Campanha da Fraternidade Ecumênica divulgou, então, alguns dados que permitem uma noção geral do grave quadro que encontramos ao nos depararmos com o problema proposto à reflexão dos cristãos. Assim, para lembrarmos alguns deles: o Brasil é considerado campeão mundial em desperdício de água; segundo o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, empresas de abastecimento apresentam índices de perda de água tratada por elas de até 60%; conforme o Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento Básico, em 2013, 82% da população brasileira não têm acesso à água tratada; mais de 100 milhões de pessoas não têm acesso à coleta de esgoto; apenas 39% dos esgotos são tratados; todos os dias são despejados na natureza o equivalente a 5 mil piscinas olímpicas de esgoto sem tratamento; de acordo com a PNAD/2013, 10,6% dos domicílios não são contemplados pelo serviço público de coleta de resíduos sólidos; o Brasil é um dos 20 países do mundo nos quais as pessoas têm menos acesso aos banheiros – não custa destacar aqui que somos uma das 10 maiores economias do mundo –; o País gera, aproximadamente, por dia, 150 mil toneladas de resíduos sólidos; cada pessoa gera, em média, 1 quilo de resíduos sólidos diariamente; São Paulo gera entre 12 mil a 14 mil toneladas diárias de resíduos sólidos; segundo o DATASUS, em 2013, aconteceram no País 340 mil internações por infecções gastrointestinais; entre as principais consequências por falta de saneamento e água potável estão doenças como cólera, hepatite, febre tifóide, infecções intestinais. No mundo, uma criança morre a cada 2,5 minutos por não ter acesso à água potável, entre outros itens.

É muito importante, portanto, esta união, este esforço conjunto, ecumênico, em busca de reflexões e propostas para encontrarmos soluções em defesa de um mundo mais justo, mais harmônico, porque as distorções e violência são uma aberração que precisam ser combatidas com vigor. E, para concluir, cada vez mais nota-se que ganha força o que alguns analistas apontam há certo tempo: Francisco vai se projetando como o maior estadista na Terra hoje. São Paulo, 12 de fevereiro de 2016.

 

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais; Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação; Colunista do Jornal Mundo Lusíada On Line, do Jornal Cantareira e da Rádio 9 de Julho AM 1600 Khz de São Paulo

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