Democracia Decadente

Por mais que tentemos nos afastar das discussões sobre a crise financeira internacional, seu barulho permanece intenso e, ainda por muito tempo, vai ser difícil ignorá-la. Nestes últimos dias novos desdobramentos dão idéia disso. Buscando minimizar os prejuízos crescentes e as fortes pressões do sistema financeiro, dois governos europeus tiveram suas lideranças trocadas. Claramente falando: postos para fora. Por outro lado, manifestantes contrários exatamente a essa autoridade absoluta que tem o mercado foram atacados na cidade de Nova York, EUA, pela prefeitura local, onde protestavam acampados há dois meses. O poder constituído colocou a força física para funcionar de forma truculenta. O clima é tenso.
Na Europa havia uma deterioração do caso por conta do atraso nas decisões de equacionamento dos problemas enfrentados pelas economias com maiores dificuldades. Alemanha e França acreditam que Grécia, Portugal e Itália gastaram mais do que podiam e, por isso, devem sacrifício pelos erros cometidos. No entender credor, é preciso punição aos excessos feitos. Castigo sobre os responsáveis. Os países devedores, no entanto, alegam que na verdade há um desequilíbrio em toda a zona do euro e que os ricos deveriam consumir mais e exportar menos, para se tentar uma equalização.
Em meio a esse tiroteio, o então primeiro ministro grego, Georges Papandreou, anunciou o intuito de realizar um plebiscito no país em janeiro/2012 sobre o pacote ofertado à Grécia pelas potências. Caiu sobre sua cabeça, daí adiante, uma enxurrada de críticas pela idéia. Desde os próprios conservadores gregos, seus patrícios, até os investidores das bolsas, passando, claro, pelos lideres dos países superavitários. “– Como assim, perguntar ao povo?”, questionaram indignados os credores. “– Não há outras saídas. Têm que aceitar a proposta e fim de papo!”, bradaram irados. O referido pacote prevê a diminuição da dívida grega em 50% mas, mesmo com essa ‘bondade’, calcula-se que as condições de sua realização estagnarão os helênicos por cerca de 10 anos e, conseqüentemente, vão retirar recursos de aposentadorias, pensões, salários, investimentos e programas sociais. Resultado do caso: o petulante primeiro ministro, que segundo analistas, ‘traiu a confiança do mercado e fez jogo de cena’, caiu. Em seu lugar entrou o conservador Lukas Papademos, ex-vice-presidente do Banco Central Europeu entre 2002/10 e homem de confiança dos ‘mercados’. Ficará na posição até as eleições de fevereiro de 2012. Apenas para lembrar, a economia grega teve uma contração de 5% este ano, enquanto o desemprego chegou a 20% da população economicamente ativa. Nikitas Kanakis, diretor da Médicos do Mundo, disse que Atenas está à beira de uma crise humanitária. “Dos 40 meninos e meninas que o nosso pediatra examinou há duas semanas, 23 estavam desnutridos”. Em Setembro, o ministro da Saúde, Andreas Loverdos, informou que os suicídios aumentaram 40% nos primeiros meses de 2011(IPS/Carta Maior). É o cenário social devastado de um país que será esfolado para honrar as suas dívidas. E, como deu para notar, discussões democráticas estão fora de cogitação.
A oeste da Grécia, passando o Mar Jônico, encontramos a Itália. Lá também seu premiê foi sacado. Tombou o empresário da mídia Silvio Berlusconi, eleito três vezes para primeiro ministro e contando com maioria no Parlamento. Aliás, a queda não aconteceu por conta dos vários vexames por ele perpetrados e explorados exaustivamente pelos tablóides sensacionalistas. Nada disso. Quem derrubou o excêntrico político neoliberal foi o temor da instabilidade. O mercado o despediu, mostrando que não poupa nem velhos parceiros. Em seu lugar entrou Mario Monti, um tecnocrata – ex-empregado do Goldman Sachs – que tem a confiança do Conselho Europeu. A instabilidade financeira italiana apresenta uma enorme dívida pública que atualmente corresponde a 120% de seu PIB. É o maior débito do bloco (€ 1,9 trilhão), valor superior à soma das dívidas de Espanha, Portugal, Irlanda e Grécia. Com desempenho em baixa o desemprego de setembro bateu na casa dos 8,3% de sua PEA. Interessante notar que os referidos ‘eleitos’ para tentar apaziguar os ânimos do mercado são antigos colegas integrantes da Comissão Trilateral, fundada em 1973, contando com personalidades dos EUA, Canadá, Europa Ocidental e Japão, para análise e controle da economia global em tempos de Guerra Fria. Ambos estão sob o consenso da Troika: Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu, União Européia. A opinião publica, aturdida, assiste às jogadas.
Por outro lado, a crise financeira internacional, detonada em 2008 e que permanece então alvoroçando a economia planetária, tem incansáveis críticos por ter sido o exuberante fruto da atuação irresponsável, franqueada, dos mega especuladores e que agora traga recursos dos Estados para compensar os seus abusos, num mecanismo injusto, contudo, usual, no interior do sistema capitalista. Notem os dados. As 25 maiores instituições de Wall Street, olho do furacão da crise e espaço sagrado das finanças estadunidenses, viram os lucros irem de 80 bilhões de dólares em 2006 para um prejuízo de 10 bilhões de dólares em 2008. Contudo, durante esse período, a polpuda remuneração dos executivos nessas mesmas 25 corporações permaneceu inalterada. Pesquisa com presidentes de 200 das maiores empresas abertas dos Estados Unidos mostra que os bônus pagos em ações e opções – a principal parte dos pacotes de remuneração – aumentaram 32% no ano passado em comparação com 2009. De 2009 para 2010, os ganhos cresceram 95% (Exame, jun/2011). Traçando um paralelo, apenas para comparar, a taxa de desemprego nos EUA ronda os 9% da PEA, algo em torno de 14 milhões de pessoas. Na zona do euro, 10,2% da PEA ou 16,1 milhões de cidadãos (Setembro/ 2011). Dentro deste revoltante contexto, então, aconteceram o M12M, Movimento 12 de Março ou “Geração à Rasca”, em Portugal; o M15M, Movimento 15 de Março ou movimento dos indignados, na Espanha e o “Occupy Wall Street”, nos Estados Unidos, inspirado naqueles. Ações de diversidade social complexa e que exprime a universalização da condição de empobrecimento da maioria, intitulada “Os 99%”. Os manifestantes são em bom número trabalhadores desempregados, jovens em funções precárias e estudantes endividados. No caso do “Occupy Wall Street” há também, além dos exemplos europeus, veteranos de guerra, sindicalistas, juventude desencantada, hippies, entre outros. Em essência são movimentos pacíficos, que se utilizam das redes sociais para ampliar sua mobilização furando a censura da grande mídia. Várias cidades no mundo aderiram a causa, incluindo São Paulo, repercutindo a indignação e a falta de perspectivas desta sociedade contemporânea globalizada, consumista, vazia e predatória com a natureza. Como gritavam os milhares de portugueses em passeata no mês de outubro passado, debaixo da pressão sob novo governo eleito, também para aplacar a sede dos financistas: “esta dívida não é nossa!”.
O que podemos assim constatar é que, danosamente, a esfera econômica engole a política. A força do mercado avança sobre os interesses coletivos das populações. O poder das grandes corporações esfarela as razões populares com suas pisadas. O deus mercado, seus sacerdotes e matilha são ambiciosos, cruéis e excludentes. Atores financeiros definem governos e influem nos projetos dos países. É verdade que a Europa é o berço da democracia, contudo, também é o mais transparente símbolo de sua inquietante decadência.  São Paulo, 18 de novembro de 11

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais; Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação; Colunista do Jornal Mundo Lusíada On Line, do Jornal Cantareira e da Rádio 9 de Julho AM 1600 Khz de São Paulo.

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