A nossa pouca educação e a educação dos outros

Mais uma vez, o país observa ao longo de seu território, manifestações dos profissionais da educação pedindo maior atenção para suas necessidades referentes a melhorias nas condições de trabalho e aumento de seus salários. Isto é algo profundamente lamentável, pois, são reclamações que se sucedem há anos e, mais que isso, sabemos que, se de fato, desejamos um país mais próspero, justo e sustentável, educação é um requisito fundamental para atingirmos esses objetivos. Sem a menor sombra de dúvidas. A história do mundo revela isso claramente. Todos os países desenvolvidos, os chamados ‘centrais’, mostram poder no seu ensino. Mas, no Brasil, os governantes são um tanto quanto resistentes no que tange essa questão. E o grito de protesto ecoa novamente.

Professores de escolas públicas municipais e estaduais prepararam, nesta semana, diversas mobilizações para cobrar o cumprimento do piso nacional do magistério. Atividades aconteceram em 23 Estados e no Distrito Federal. Passeatas, assembléias e atos públicos foram realizados. Criada há quatro anos, a Lei do Piso Nacional do Magistério determina um valor mínimo que deve ser pago a professores com formação de nível médio e jornada de 40 horas semanais. Para 2012 esse valor foi definido em R$ 1451,00, mas vários Estados e municípios pagam menos do que determina a regra. É um grande absurdo. O Rio Grande do Sul, por exemplo, remunera os professores com R$ 791,00, ou seja, o menor piso do país. Esse valor é o que ganha, basicamente, por seis horas/ dia, um atendente de telemarketing na capital paulista. Função, convenhamos, com todo respeito, menos nobre que a docência. O Estado de São Paulo paga hoje R$ 1894,00 como piso. Um detalhe: a lei não prevê punição para quem desrespeitá-la. Tudo muito frágil. Sem incentivo, com uma tremenda desvalorização, quem vai se candidatar a ser professor? É mais barato e mais simples fazer outra atividade qualquer para se obter um salário nessas proporções. E como é que ficam as novas gerações? Que qualidade de ensino os futuros brasileiros receberão?

A paralisação nacional além de cobrar o cumprimento da lei também defende o aumento dos investimentos públicos em educação. A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação quer que o Plano Nacional de Educação que tramita na Câmara dos Deputados inclua em seu texto uma meta de investimento mínimo na área, equivalente a 10% do Produto Interno Bruto – PIB a ser atingida em um prazo de dez anos. Uma década. E ainda assim, há resistências.

Por outro lado, coincidentemente, nesta semana, saiu o novo ranking das melhores universidades do mundo. É chamado de THE – Times Higher Education. É publicado em Londres e para fazê-lo ouviu 17.554 acadêmicos/ pesquisadores de 137 países. Cada entrevistado pode indicar até 15 instituições que consideram as melhores do mundo em seus campos de estudo. A boa notícia é que temos, no meio das mais importantes escolas, a Universidade de São Paulo relacionada na lista. Ela se encontra entre as 70 mais bem avaliadas. É também a única representante de toda a América Latina. Entre os critérios utilizados na escolha, a USP aparece melhor sob o ponto de vista da reputação do que em outros critérios mais objetivos como relação aluno/professor, quantidade de trabalhos científicos publicados, investimento em pesquisas etc.

No quadro geral dessa pesquisa, podemos notar que, por continente, a América tem 48 instituições gabaritadas, a Europa 31, a Ásia 17 e a Oceania 4. A África não apresenta classificados. Os EUA têm, sozinhos, 44 universidades entre as 100 melhores, alem da própria ‘campeã’, a Universidade de Harvard, e outras três entre as seis mais bem posicionadas. O Reino Unido vem em segundo lugar com 10 instituições. Depois, Holanda com 5, França e Alemanha com 4 cada uma, entre outros.

A América Latina não tem representantes na relação. Isso é muito triste e ainda inequívoco legado de um passado colonizado que não foi ultrapassado plenamente. Assim como o continente africano. O Brasil, por sua vez, colocou uma universidade no ranking. É muito pouco, quase nada, para a 6ª economia do planeta. E o que isto tem a ver com o início de nossa conversa? Tudo. É uma sequência que precisa ser corrigida. Como conseguirmos boas universidades e consequentemente pesquisas e conquistas científicas e tecnológicas sem termos um ensino fundamental e médio também fortes? O Brasil, com mais de 512 anos de história, necessitar avançar muito em seus problemas sociais, entre eles os seus aspectos educacionais. País que não valoriza os seus mestres, aqueles que se dedicam ao ensino, não tem luz própria e jamais será efetivamente autônomo, independente, porque pensará sempre do jeito que os outros, poderosos, sabidos e colonialistas, desejam. Triste e ignorante destino.

 

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais; Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação; Colunista do Jornal Mundo Lusíada On Line, do Jornal Cantareira e da Rádio 9 de Julho AM 1600 Khz de São Paulo.

 

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