A Jornada de Francisco

 

Foto: Fernando Frazão/ABr
Foto: Fernando Frazão/ABr

O Brasil neste mês de julho/2013 acabou de sediar a mais nova etapa da JMJ – Jornada Mundial da Juventude, evento do cristianismo católico iniciado em 1986 durante o pontificado de João Paulo II (1978-2005). Sua próxima fase deverá ocorrer em Cracóvia, Polônia, exatamente para homenagear Karol Josef Wojtyla, em processo de canonização, após ter sido proclamado beato em 2011 por Bento XVI. O encontro reuniu cerca de 175 nacionalidades diferentes no Rio de Janeiro, sede da Jornada, embora tenham ocorrido encontros também em Aparecida do Norte, São Paulo. De acordo com a organização do evento e a Prefeitura carioca, mais de 3 milhões de pessoas se aglomeraram em Copacabana para a Vigília de Oração e a missa de encerramento. O enorme número de peregrinos gerou um novo recorde de concentração de pessoas para o local e cravou a segunda maior aglomeração na história da JMJ, ficando atrás apenas da reunião nas Filipinas, Manila, em 1995. O grande destaque foi a presença do recém empossado Papa Francisco, o argentino jesuíta Jorge Mario Bergoglio, que assumiu o cargo após a abdicação de seu antecessor, em 28 de fevereiro deste ano. Foi a primeira viagem ao exterior realizada pelo novo pontífice e ela pode ser considerada um sucesso. A Igreja carecia de um novo clima após a seqüência de denuncias envolvendo questões de pedofilia, corrupção e disputas internas. Sem dúvidas, a JMJ ajudou a dar um novo alento aos católicos.

O papa Francisco tem buscado desde o início de seu mandato demonstrar austeridade em seus atos, buscando evitar imagens de pompa, de luxo e riqueza. Tem também revelado simpatia e leveza em suas manifestações publicas. A experiência vivenciada chegando ao Brasil, vendo-se preso num congestionamento – um absurdo erro de coordenação dos responsáveis pelo evento – em pleno centro do Rio de Janeiro, mostrou sua determinação em reaproximar-se dos fiéis, abrindo as janelas do veículo onde estava para saudar a população que correu para vê-lo de perto e, se possível, tocá-lo. Como de fato aconteceram várias vezes. As imagens do Papa sendo cercado pela multidão foram multiplicadas pela mídia e correu o mundo. Para os organizadores foi um vexame. Para Francisco, um risco que deu certo. Ele ganhou o publico e fortaleceu sua imagem. O Papa é pop. Mas, assim que toda a poeira baixar, terá que arregaçar as mangas para um duro trabalho. Há muitas questões a serem resolvidas.

O Papa já se posicionou quanto ao sacerdócio das mulheres. Ele veta a ordenação, mas diz que espera que a atuação feminina se intensifique na Igreja, em cargos de liderança e nas pastorais. “Jesus só teve homens como apóstolos”, explicou. Também reafirmou a condenação aos atos homossexuais lembrando, contudo, que ser gay não é pecado e que os não heterossexuais precisam ser integrados à sociedade por sermos todos irmãos. Ele se posicionou contrário ao casamento homossexual. Da mesma maneira que mantém fechada a idéia de celibato, para ele semelhante ao “voto de pobreza”. No livro “El Jesuíta”, de Sergio Rubín e Francesca Abrogetti, também se coloca contrário ao aborto e a eutanásia. São alguns pontos que muitos dos católicos encaram com ambigüidade.

Os problemas de pedofilia, disputas internas e também da corrupção financeira no Vaticano são outros pontos difíceis. A ONU, onde o Vaticano tem posto de observador permanente, chamou a Cidade-Estado para dar explicações sobre os casos de abusos sexuais e violência contra menores. O interrogatório deverá acontecer no início de 2014 em Genebra. As denúncias explodiram especialmente durante os oito anos de pontificado de Bento XVI e envolveram países como Irlanda, Alemanha, EUA e Bélgica. Muitos críticos apontam que a Igreja hesitou em punir padres pedófilos, que se mantiveram em suas dioceses. Bento XVI chegou a encontrar vítimas e emitiu pedidos de desculpas inéditos. Por outro lado, nesta semana, o Vaticano fez um acordo com o governo da Itália para troca de informações buscando combater a corrupção e os escândalos financeiros envolvendo a Santa Sé. 30 anos de denúncias contra o IOR – Instituto para Obras da Religião ajudaram também na renuncia de Bento XVI. Um dos casos mais famosos aconteceu em 1982 na falência do Banco Ambrosiano, um escândalo que envolveu a CIA – Agência de Inteligência Americana e a maçonaria. Em junho um clérigo foi preso sob suspeita de lavagem de dinheiro do IOR. Caíram, então, o diretor-geral e seu vice. De acordo com padres latino-americanos que estiveram há cerca de um mês com Francisco, o Papa teria afirmado “há homens bons e sagrados na administração, mas também há corrupção”. Desgastes profundos para uma sagrada instituição. No Brasil, para o Datafolha, entre 2007 e hoje, o número de católicos caiu de 64 para 57%.

Francisco inicia seu mandato enfrentando seria crise na Igreja. A Jornada Mundial da Juventude foi um momento de oxigenação na relação entre os fiéis e a figura do Papa. Agora, passada a festa, suas euforias e emoções, é preciso encarar com disposição o duro quotidiano que se apresenta. São Paulo, 30 de julho de 2013

 

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais; Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação; Colunista do Jornal Mundo Lusíada On Line, do Jornal Cantareira e da Rádio 9 de Julho AM 1600 Khz de São Paulo.

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