A Frustração Obama

 

A visita do presidente dos Estados Unidos ao Brasil era um evento bastante aguardado. Gerou expectativa para muita gente. Agitou a vida em Brasília e no Rio de Janeiro. Mas, na hora ‘H’, não revelou nada de extraordinário. Obama foi simpático, mas protocolar. E não fez movimento algum em direção a algo que pudesse destacá-lo em relação aos demais chefes de estado daquela terra que por aqui passaram outras vezes. Aliás, por que o faria?
Como explicou a profª Maria da Conceição Tavares, UNICAMP e UFRJ, “Obama não consegue arrancar concessões do establishment americano nem para si, quanto mais para o Brasil. […] Quase nada depende da vontade de Obama, ou dito melhor, a vontade de Obama quase não pesa nas questões cruciais. A sociedade norte-americana encontra-se congelada pelo bloco conservador, por cima e por baixo. Os republicanos mandam no Congresso; os bancos têm hegemonia econômica; a tecnocracia do Estado está acuada”. E diz mais: “Exerce um presidencialismo muito vulnerável, descarnado de base efetiva. Obama foi eleito pela juventude e pelos negros. Na urna, cada cidadão é um voto. Mas a juventude e os negros não tem presença institucional, veja bem, institucional que digo é no desenho democrático de lá. Eles não tem assento em postos chaves onde se decide o poder americano. Na hora do vamos ver, a base de Obama não está localizada em lugar nenhum. Não está no Congresso, não tem o comando das finanças, enfim, grita, mas não decide.”
A experiente professora nascida em Portugal e naturalizada brasileira tinha razão. Ingênuo vê-lo como ‘salvador da Pátria’. Muito pior. O presidente norte-americano, inclusive, foi protagonista de uma atitude, a meu ver, lamentável. Típica do velho imperialismo daquela nação. Fazendo um pronunciamento em território brasileiro, ele apontou ao mundo árabe que deveria aprender conosco a realizar democracia. Gentil, mas uma tremenda ‘saia justa’. Afinal, temos bons relacionamentos com os povos do médio oriente, o governo Lula apoiou a causa Palestina, tentou pacificar a relação ocidental com o Irã etc. enquanto a política norte-americana é bastante questionada na região. Além do mais, lamentavelmente, determinou a partir de Brasília um ataque violento contra a Líbia, país com o qual o Brasil faz parceria empresarial no continente africano. Especialmente sabendo que a presidenta Dilma claramente manifestara-se contrária a qualquer intervenção militar externa à situação de crise nos países islâmicos. E é bom lembrar que a Líbia era até dias atrás um parceiro importante do Ocidente no combate à Al Qaeda. Tem uma população pobre de apenas 7% e a colocação no IDH como 53º lugar (Brasil é 73º). Como Obama vem falar em ‘autodeterminação dos povos’?! Há décadas Eisenhower, ex-presidente republicano, já deu a dica para a situação: o poder está com o complexo militar-industrial. E eu complementaria: com os financistas também, conforme profª Tavares.
Estes fatos demonstram como os EUA e seu presidente continuam os mesmos. Vieram para sondar as possibilidades com o Pré-Sal, porque tem dificuldades com o mundo islâmico – está atolado até o pescoço no lamaçal das guerras no Afeganistão e no Iraque – e com a Venezuela de Chaves. Precisam de outro parceiro nessa geração de energia. Mas, não facilitaram negociações quanto ao protecionismo existente contra os produtos brasileiros, nem com referência à dificuldade dos vistos de entrada. Muito menos acenaram com a possibilidade, dentro então da esfera dos Direitos Humanos para a América Latina, de acabar com a prisão de Guantánamo ou mesmo finalizar a agressão contra o povo cubano e o embargo de décadas que sufoca a ilha socialista.
Para concluir este breve raciocínio. Duas cenas. Primeira: Empresários, políticos e ministros brasileiros em Brasília. São submetidos a uma revista feita por funcionários do governo dos EUA, causando indignação e irritação. Há relatos que apontam jornalistas também tendo passado por esse autêntico ‘mico’ em sua própria terra.  Segunda: No domingo à noite Obama e família fariam um passeio ao lindo Cristo Redentor, no Corcovado. Porém, desde o final da tarde daquele dia o símbolo internacional do Brasil é tomado pelos estadunidenses. Os jornalistas nativos precisam deixar os equipamentos para serem revistados sem a presença deles. Quando Obama e comitiva chegaram os brasileiros ficaram em segundo plano em relação aos colegas visitantes. E foram também proibidos de fazer matéria narrada enquanto o presidente pop-star e sua família observavam a vista. Por que do cala boca? Segundo os ‘homens de preto da Casa Branca’, para que os lideres pudessem aproveitar bem o especial momento de espiritualidade…
Em plena Quaresma este explícito exercício do colonialismo não deve ter feito nada bem ao octogenário Cristo Redentor, um símbolo de autêntica fraternidade. Há quem diga que rolou uma lágrima lá de cima rumo à Floresta da Tijuca, vizinha a grande imagem de braços abertos. Porém, com a presença do astro forasteiro, isso passou despercebido.
Obama, até agora, não surpreende em nada: apesar do verniz que lhe dá maior charme que o seu antecessor em Washington, mostra que é mais do mesmo.
São Paulo, 24 de março de 2011
Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais; Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação; Colunista do Jornal Mundo Lusíada On Line, do Jornal Cantareira e da Rádio 9 de Julho AM 1600 Khz de São Paulo.

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