A Copa em São Paulo na marca do Pênalti

A oficialização da cidade de São Paulo como uma das sedes da Copa do Mundo de 2014 está sendo festejada. Muita gente estava aguardando o fato com bastante ansiedade. Interessante é que o povo, no geral, talvez ainda não tenha percebido que o referido campeonato, um evento bonito, não tem participação popular especialmente no que tange ao seu ‘filé’, ou seja, ver os jogos nos gramados. A não ser, com muita sorte, que sobrem alguns ingressos de partidas pouco atraentes e os organizadores resolvam ‘queimar’ alguns tickets. Mas, fora isso, as entradas serão destinadas aos pacotes turísticos, em grande parte para os estrangeiros e, assim, essa pretensão que muitos têm de estar nas arquibancadas torcendo pelos artistas da bola vai acabar sendo esvaziada, ficando mesmo na base do telão em praça pública ou coisa afim.
O governo federal, sobre a Copa, fala em modernização, especialmente nos transportes, e tem a expectativa na geração de 700 mil novos empregos no país. Mas, de fato, para a cidade de São Paulo, a Copa vai ser um benefício? Qual o custo disso e quem vai faturar em cima?
De imediato, há a questão ética da injeção de verba e construção para um patrimônio privado, ou seja, o sonhado estádio do Corinthians. Essa história é bastante complicada. Primeiro que a cidade já conta com pelo menos 4 arenas que estão aí e tem dificuldades de permanecerem cheias na maior parte do tempo em que rolam os torneios estaduais e também o nacional. Há o Pacaembu, o Morumbi, o Parque Antarctica e o Canindé. Dos 4, o Pacaembu é público. É da municipalidade. Está numa região valorizada e bem estruturada. Se fosse trabalhado, reformado, poderia ser o estádio local para as disputas. Muitos vão dizer que é muito pequeno e de velha concepção. Contudo, repito, é um patrimônio público, ou seja, da cidade e seria uma melhoria para um bem municipal. Em tese, benéfico a todos, portanto. Negativo. Como alternativa, então, cogitou-se usar o estádio do Morumbi, que é grande e palco das decisões mais importantes dos clubes paulistas. Ao Morumbi caberia complementar elementos que fechassem as exigências, afinal, já existe, está feito, pronto. Seria um menor gasto. Mas, o clube, São Paulo, dono do campo, não tem boas relações com o presidente da CBF, Sr. Ricardo Teixeira, que está há décadas na liderança da entidade, sob a sombra de seu ex-sogro, João Havelange, ex-presidente da FIFA. Teixeira, aliás, ultimamente tem estado na vitrine midiática como objeto de denúncias de jornalistas estrangeiros com acusações de recebimento de propina e a própria CBF também foi matéria de inquérito parlamentar em Brasília. De qualquer modo, a Fifa e a CBF negaram a aceitar o espaço do tricolor e entregaram nas mãos do dirigente Andrés Sanches, do Corinthians, a incumbência de criar, a partir do zero, o estádio para a Copa, em Itaquera. Um êxtase para a segunda maior torcida do país e, claro, ingrediente bastante forte para convencimento de muitos hesitantes. Jamais, assim, teria chance um investimento para o estádio da Portuguesa, por exemplo, que tem uma localização sensacional, na própria Marginal do Tietê, próximo a duas estações de metrô, no caminho do aeroporto de Cumbica, vizinha a uma área que precisa de incentivo para se reerguer, nos bairros da Luz e Santa Ifigênia, a vergonhosa Cracolândia. Dois coelhos numa paulada só: Copa e reforma daquela área degradada do Centro. Enfim…
Incrível o poder da FIFA sobre a vida na cidade. É comovente se notar o esforço de nossos administradores em fazer a empreitada funcionar conforme os dirigentes esportivos pediram. A Câmara trabalhou em regime de exceção. Prefeito e Governador vão juntos empurrando a coisa, flexibilizando regras, insistindo no objetivo, onde há verbas milionárias envolvidas. O clube e a Odebrecht fecharam o orçamento do estádio em R$ 820 milhões e é aguardada a liberação de R$ 400 milhões do BNDES para financiamento da arena.
Gostaria de ver toda administração pública com tal ousadia para resolver problemas quotidianos. A cidade está muito suja, o trânsito é caótico, no período das chuvas nos transformamos em uma Veneza de araque, o metrô nos momentos de pico é um deus nos acuda, idem para o sistema de trens, sem contar a educação que pouco ensina. Torço, sinceramente, como paulistano, que as empreiteiras e os especuladores imobiliários não sejam os únicos a festejar com esse esforço todo e que o povo obtenha frutos permanentes.
Em paralelo, estes dias o Estadão publicou uma matéria sobre o sucateamento de um patrimônio cultural que não é o futebol, mas a arte em geral, simbolizada pela TV Cultura, premiada e tão querida, veículo fundamental para o bom nível midiático nesse campo. Nos últimos 12 meses, a direção da emissora demitiu 993 trabalhadores – 46% dos seus funcionários. A sua audiência despencou nos últimos anos. A média atual é a mais baixa da sua história – corresponde a 0,8 ponto, o equivalente a 47,2 mil domicílios. Essa queda teve reflexos na própria arrecadação da emissora: em maio, a receita obtida foi 58% menor do que a prevista pelos gestores, o que é um absurdo. A Rádio Cultura AM sumiu no dial, é um simples ruído. Por que os administradores não se mobilizam para salvar esse patrimônio publico? Educação e entretenimento de nível são direitos da população. O governo paulista deveria se empenhar nesse papel. É muito triste ver a discrepância de vigor nas ações nesta semana envolvendo um caso e outro. Se jogar bola é uma paixão nacional, sua cultura é algo muito mais amplo e uma questão de identidade. E em ambos os casos é dinheiro do contribuinte sendo empregado.
Gosto muito de futebol, mas, por enquanto, essas fantásticas atitudes todas entre cartolas e políticos me dão uma sensação estranha, uma frustração daquelas, como um pênalti mal batido em jogo de decisão.
São Paulo, 20 de julho de 2011

Prof. José de Almeida Amaral Júnior

Professor universitário em Ciências Sociais; Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação; Colunista do Jornal Mundo Lusíada On Line, do Jornal Cantareira e da Rádio 9 de Julho AM 1600 Khz de São Paulo.

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