Ramalho Eanes, por Francisco Seixas da Costa

Comecemos pelo fim. António Ramalho Eanes é um democrata, um homem impoluto e uma pessoa de bem. O regime que saiu do 25 de abril ganha em ter, dentre as personalidades que o representaram num lugar cimeiro, uma figura como ele. Achei muito oportuno e justo que, no momento em que se comemoram os 40 anos da sua posse como presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa tenha decidido homenageá-lo.
Recordo-me bem de assistir, durante a famosa Assembleia “selvagem” do MFA, em 11 de março de 1975, a apelos insanos de alguns excitados participantes, apelando à prisão de Ramalho Eanes, que, ao tempo, era presidente da RTP. Foi Vasco Lourenço quem, com grande vigor, então o defendeu. Tempos depois, na minha memória política, guardo a sua figura ascética, de óculos estranhamente escuros, a receber Costa Gomes na Amadora, ao fim do dia 25 de novembro desse mesmo ano, depois de ter conduzido as operações militares, do lado que se opunha ao radicalismo de esquerda, nesse dia de trágico confronto castrense.
Um ano depois, Eanes era candidato à presidência da República, com o apoio do PS e PPD (a ordem é inversa, porque Sá Carneiro, sabendo por um “leak” que os socialistas iam convidá-lo, resolveu tomar a dianteira). Eanes seria eleito com facilidade. Não votei nele nessa eleição, porque o seu perfil político e pessoal não me inspirava então a menor confiança. Mas acabei por votar nele cinco anos depois, na sua reeleição, mais “by default” do que por entusiasmo, porque do outro lado estava a figura preocupante de Soares Carneiro, um general de perfil autoritário e muito discutíveis credenciais democráticas, apoiado por toda a direita.
Enquanto presidente, Eanes conseguiu um raro pleno ao entrar em conflito simultâneo com os líderes do PS, PPD e CDS. Os tempos da vida político-partidária eram complexos e, reconheça-se, o seu papel não era fácil, até porque era a ele que competia “desenhar” o primeiro recorte de um chefe de Estado em democracia, num regime semi-presidencialista ainda em teste. Em 1980 e 1983, coube-me, por coincidência, a responsabilidade de organizar, logisticamente, duas visitas de Estado de Ramalho Eanes, respetivamente à Noruega e a S. Tomé e Príncipe. Fiquei então com respeito pelo seu elevado sentido de Estado, demonstrado em ambas as ocasiões, embora essa coincidência funcional não tivesse contribuído para criar uma empatia pessoal com a sua figura humana, demasiado rígida para o meu gosto.
Porém, muito ainda antes disso, o que em nada contribuiu para que melhorasse a imagem inicial que dele criara, havia sido o modo como deu livre curso à subida ao poder de uma geração de oficiais generais que se dedicaram, com lamentável zelo revanchista, a prejudicar alguns militares de abril que muito prezo. Faço uma avaliação francamente negativa do seu papel nesse período, mas, pelos vistos, estou quase “sozinho”: já constatei que os seus críticos militares de então, aqueles que terá prejudicado, são, nos tempos que correm, seus grandes admiradores…
Porém, a minha maior crítica a António Ramalho Eanes, com quem me “cruzei” pontualmente no apoio (no caso dele, indireto) à candidatura presidencial de Salgado Zenha, em 1986, tem a ver com a iniciativa, que titulou, da criação do Partido Renovador Democrático (PRD), uma nefasta estrutura partidária, assente numa doutrina de “um partido anti-partidos”, que se reivindicava de uma superioridade ética que o tempo revelou falsa e, na minha perspetiva, tinha germes que, noutros países e noutras circunstâncias, levaram a aventuras políticas que nem é bom lembrar. O PRD tinha a intenção de aniquilar o Partido Socialista. Para evitar isto, Mário Soares – que tinha em Eanes o seu inimigo de estimação, atitude que creio correspondida durante largos anos – acabou por tomar o gesto político de dissolver a Assembleia da República, abrindo caminho a uma década de cavaquismo governativo. Há coisas que se pagam…
Eanes iniciou depois um percurso marcado por alguma discrição, dedicando–se a estudos universitários e, de quando em vez, brindando-nos com algumas dissertações em público, algo rebuscadas, mas onde revelou a maturação de um pensamento político crescentemente próximo de posições progressistas. Neste contexto, o seu apoio às candidaturas de Cavaco Silva tem difícil explicação, a qual terá sempre de ser lida na difícil articulação com o seu surgimento como o grande promotor de Sampaio da Nóvoa no recente sufrágio presidencial.
A vida ensinou-me a olhar de uma forma muito mais ponderada e equilibrada para as pessoas e para as coisas. E, sem qualquer esforço, sou hoje levado a concluir que António Ramalho Eanes é uma figura com grande dignidade, a quem o país deve admiração e merece considerar como umas das referências do nosso regime democrático.
Por Francisco Seixas da Costa
Diplomata português. Ex-Embaixador de Portugal no Brasil

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