Preservar a Casa-Comum

Por Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

O espaço terrestre, que vulgarmente chamamos Mundo, ou, mais propriamente, o nosso “território” o planeta Terra, habitado pela humanidade, a que pertencemos, é cada vez mais exíguo, fácil e rápido de o percorrer, graças a um conjunto de meios de transportes e comunicações, cada vez mais avançados e seguros, pese, embora, um ou outro acidente que, esporadicamente, ocorre, e que, em certas circunstâncias, se fica a dever a erro humano.

Vive-se, portanto, num mundo globalizado, uma aldeia na qual as pessoas têm cada vez mais facilidades para se encontrarem e, no limite, conviver umas com as outras, numa Casa-Comum, na qual se deveriam comungar e exercer princípios, valores e sentimentos verdadeiramente específicos da dignidade da pessoa humana.

Nesta Casa-Comum, não se pode ignorar um necessário ambiente ético-moral, mas também ecológico que, paulatinamente, parece vir a degradar-se, irreversivelmente, se, entretanto, não forem tomadas e executadas as indispensáveis medidas e proteção do clima, porque esta condição é imprescindível para uma vida com qualidade, para todas as pessoas, sem exceções.

A premência da implementação de medidas de proteção climática impõe-se, e aqui, os países, os responsáveis de altos cargos decisores, os cientistas, os técnicos, os professores e muitas outras entidades, devem intervir com a máxima celeridade, porque já se sabe que: «Hoje, a comunidade científica aceita aquilo que os pobres já há muito denunciam: estão a produzir-se danos talvez irreversíveis no ecossistema. Está-se a castigar a terra, os povos e as pessoas de forma quase selvagem. E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia – um dos primeiros teólogos da Igreja – chamava “o esterco do diabo”; reina a ambição desenfreada do dinheiro.» (PAPA FRANCISCO, 2016:35).

Paralelamente, a outros conhecimentos: teóricos e práticos, que fazem parte de uma educação/formação integral, também o aperfeiçoamento do ensino ambiental, a partir das famílias, passando pela escola, e evoluindo na sociedade, se torna um imperativo universal, porque de contrário, não haverá qualidade de vida equitativa para todas as pessoas.

O mundo que habitamos é de todos por igual, não pode, em circunstância alguma, ser uma possessão de alguns, que dele se servem, a seu belo prazer e para o seu exclusivo proveito. Tudo o que está na Natureza, que não foi produzido pelo homem, é propriedade da humanidade, muito embora se reconheçam inúmeras dificuldades na gestão equitativa destes bens, e na respetiva distribuição justa para todos, de resto, nos tempos que correm, até poderá parecer uma utopia, defender-se que, por exemplo, o petróleo, os diamantes, o gás natural, entre outros bens, sejam repartidos por todos os países. Mas deveria ser. Afinal, é uma utopia.

“Alguém”: Deus, um Criador, a Natureza, uma Entidade Suprema, terá organizado o mundo, de tal forma, que todos os seres nele pudessem coabitar, num equilíbrio sustentável, com uma correlação de forças bem distribuída, mas em que o ser humano tenha sempre uma intervenção moderadora, inteligente e superior.

Compete, portanto: a toda a humanidade em geral; e a cada pessoa em particular, preparar-se, ininterruptamente, ao longo da vida, no sentido de contribuir para a melhor preservação da Casa-Comum, na qual o ambiente é fundamental, o elemento que proporciona melhor saúde, mas também alegria e, por que não, acréscimo do bem-estar e da felicidade.

Muitas têm sido as reuniões nacionais e internacionais; diversos acordos têm sido firmados para que se possa viver num mundo climaticamente mais saudável, todavia, infelizmente, nem todos os signatários das convenções que subscrevem, as cumprem, porque outros interesses: estratégicos, financeiros, económicos, de controlo de recursos e domínio, são mais importantes para tais intervenientes e/ou entidades.

Quer se goste, ou não: «Não podemos esquecer as graves implicações sociais das mudanças climáticas: são os mais pobres que padecem com maior dureza as consequências! Por esse motivo, a questão do clima é uma questão de justiça; e também de solidariedade, que nunca deve ser separada da justiça. Está em jogo a dignidade de cada um, como povos, como comunidade, como mulheres e homens» (Ibid.:37).

Atualmente, não se pode ignorar que o ambiente já faz parte dos Direitos Humanos, na medida em que toda a pessoa deve usufruir de um clima saudável, de condições de vida onde elementos nocivos à boa saúde têm que ser reduzidos ou, desejavelmente, eliminados, porque de contrário, o futuro das gerações vindouras fica gravemente comprometido, pelos piores motivos.

Com efeito: «O abuso e a destruição do meio ambiente aparecem associados, simultaneamente, com um processo ininterrupto de exclusão. Na verdade, uma ambição egoísta e ilimitada do poder e bem-estar material leva tanto a abusar dos meios materiais disponíveis, como a excluir os fracos e os menos hábeis, seja pelo facto de terem habilidades diferentes (deficientes), seja porque lhes faltam conhecimentos e instrumentos técnicos adequados, ou possuem uma capacidade insuficiente de decisão política.» (Ibid.:40).

A envolvência ecológica e climática é uma condição necessária, para que todos os seres que habitam a “Casa-Comum”, possam viver de acordo com um mínimo de conforto e, dentro de cada espécie, com a dignidade que lhe assiste, sendo certo, pelo menos do ponto de vista do autor, que a supremacia maior deverá pertencer à pessoa humana

Obviamente, todos os seres vivos têm a sua dignidade específica, contudo, não é menos verdade que à pessoa humana deve-se atribuir, e defender, um estatuto de relevo, sem que isso signifique qualquer posição antropocêntrica privilegiada, mas tão só, um direito que, dificilmente, alguém terá condições objetivas para contestar.

As preocupações atuais que afetam esta maravilhosa “Casa-Comum”, o nosso planeta  Terra, devem ser combatidas, recorrendo-se aos mecanismos que as leis, a ciência, a tecnologia, o bom-senso e a inteligência colocam à nossa disposição, sob pena de, a curto-médio prazo, o mundo estar cada vez mais dividido: em que de um lado, estão os destruidores do ambiente; e do outro, os que sofrem as suas consequências, e que acabam por cair na marginalização.

É que o clima, o meio ambiente e as alterações que provocam na vida das pessoas, são, por vezes, irreparáveis e, tanto mais graves, quanto deterioram a dignidade humana, na medida em que: «A exclusão económica e social é uma negação total da fraternidade humana e um atentado gravíssimo aos direitos humanos e ao ambiente. Os mais pobres são aqueles que mais sofrem esses ataques por um triplo e grave motivo: são descartados pela sociedade, ao mesmo tempo são obrigados a viver de desperdícios e devem injustamente sofrer as consequências do abuso do ambiente. Estes fenómenos constituem, hoje, a “cultura do descarte”, tão difundida e inconscientemente consolidada.» (Ibid.).

Retroceder no caminho desastroso que se tem vindo a percorrer, no que ao ambiente respeita, constitui, por si só, uma decisão responsável, de superior inteligência e bom-senso; persistir na degradação do ambiente, agravando com esta postura, não só as condições de vida, como as alterações climáticas, para pior, é próprio de quem não defende o bem-estar da sociedade, de quem se preocupa, exclusiva e egoistamente, com os seus interesses, quantas vezes mesquinhos e inconfessáveis.

Impõe-se uma reflexão profunda, porque: «Não podemos continuar a desinteressar-nos da nossa realidade, dos nossos irmãos, da nossa mãe terra. Não nos é lícito ignorar o que está a acontecer ao redor, como se determinadas situações não existissem ou não tivessem a ver com a nossa realidade. Não nos é lícito – mais ainda – não é humano entrar no jogo da cultura do descarte.» (Ibd.:42).

 

Bibliografia.

PAPA FRANCISCO (2016). Proteger a Criação. Reflexões sobre o Estado do Mundo. 1ª Edição. Tradução Libreria Editrice Vaticana (texto) e Maria do Rosário de Castro Pernas (Introdução e Cronologia), Amadora-Portugal:20/20 Nascente Editora.

Venade/Caminha – Portugal, 2020

 

Por Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Presidente do Núcleo Académico de Letras e Artes de Portugal
NALAP.ORG

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