O Nazismo poderá estar de volta

Sempre que se fala em nazismo, invariavelmente, surge-nos a ideia de Adolfo Hitler, com todo o cortejo de bandidagem que o acompanhou e apoiou, mas esquecendo duas realidades: que tal tipo de sociedade foi tentada por outros lugares do Mundo, e que o sonho nazi, digamos assim, nunca deixou de ser mantido vivo. Um pouco como uma espécie de herpes.
Sabe-se hoje, e já com grande divulgação, que o avô de George W. Bush se juntou com um conjunto vasto de milionários norte-americanos, com a finalidade de depor Franklin Roosevelt, instaurando de seguida uma organização política do tipo da que então estava a surgir na Alemanha. Viviam-se os primeiros tempos da grande crise de 1929, tendo sido convidado para desenvolver as operações golpistas um major-general que se supunha poder ir na onda.
Para mal dos golpistas, o referido major-general não o foi, tendo denunciado a tentativa de golpe que se estava a preparar, o que impediu o mesmo, mas por via de um acordo de cavalheiros entre Roosevelt e os conspiradores, acabando o major-general por ficar com a sua carreira pelo caminho. No fundo, teve o terrível azar de ser um homem honesto, para lá de não ser milionário.
Depois, decorreu a guerra mundial, sendo que um conjunto vasto de povos do centro europeu sempre soube do que se passava nos campos de concentração nazis, por vezes mesmo praticando coisa semelhante, como se deu na Polónia, Hungria, Croácia, Áustria, Itália, Espanha, Suiça, e outros. A própria Igreja Católica, como hoje se sabe já bem, também tomou conhecimento do que estava a ter lugar, embora tenha, em muitos casos, tido também as suas vítimas, e não tão poucas assim. Contemporizou e teve vítimas.
Simplesmente, tudo continuou depois do final da guerra, sendo que se soube há pouco que o próprio Konrad Adenauer, já como primeiro chanceler da República Federal da Alemanha, pagou com dinheiro público a fuga e a vida de muitos dos nazis fugidos do seu país, sobretudo, para o subcontinente americano, embora nos Estados Unidos e nos países europeus da OTAN se tenha deitado mão de uma excelente parte do escol humano do nazismo, e muito para lá do que poderia ser ditado pelas leis e pela moral.
O trauma derivado do segundo conflito mundial levou à criação das Nações Unidas, bem como à ideia triunfante de Estado Democrático de Direito, que se desenvolveu, sobretudo, no espaço europeu, muito mais que nos Estados Unidos, ou noutros países exteriores à Europa, mas de língua inglesa. Tal valor era apresentado como mostrando uma enorme supremacia face ao socialismo real – o comunismo –, mas a verdade, como agora se percebe, é que esse valor não vale por si só, mas também por aquela razão que levava os povos do Mundo, muito em especial, os europeus, a verem o modelo ocidental como muito superior ao do socialismo real, e que era os potenciais de desenvolvimento que permitia atingir.
Com o fim do comunismo, operou-se o triunfo neoliberal, sem regras, despido de outros valores para lá do lucro e da riqueza, essencialmente suportado no efémero, e cada dia mais criador de desemprego, de pobreza e de miséria. Objetivamente, este modelo está hoje falido, como já todos perceberam, mas continua a ser defendido por uma ínfima minoria de privilegiados, que dele e da pobreza alheia se alimentam.
Claro que ninguém hoje reclama o regresso do comunismo, mas terá de se encontrar um corpo de valores sobre que construir, agora com as terríveis e perigosas tecnologias do nosso tempo, uma nova ordem política, económica e social. Ora, é nas atuais circunstâncias que o retorno do nazismo encontra um novo alento, com os Estados à deriva, sem saída económica percetível, e sem um corpo de valores que estejam para lá do circunstancialismo atual. De resto, muito boa gente por esse Mundo fora acabará por operar esta conclusão pouco esclarecida, mas muito imediatista: talvez se não fosse o Hitler as coisas não tivessem tido o rumo desgraçado que se viu.
É, pois, minha convicção plena que o nazismo poderá estar de volta, mas agora a partir dos Estados Unidos, que, tal como tantas vezes tenho referido, são de há muito um Estado totalitário, numa situação hoje com tendência para crescer, em face da turbulência que varre o Mundo, da sua fantástica e impagável dívida e com a possibilidade de surgirem povos com capacidade para os ultrapassarem no plano da mera luta económica. O que está a passar-se com o Irão, o que há dias sucedeu com militares do Paquistão, o beco sem grande saída para que pode descambar todo o Norte de África, a decadência global da Europa, e tudo o resto, já por demais identificado, pode bem atirar os Estados Unidos para mais uma aventura militar global, que estimo como ganhadora, mas cujo resultado, para lá de não vir a ser comunista, nem mesmo socialista, também já não assentará na (dita) democracia. E é aqui, mais uma vez como nos tempos do avô de George W. Bush, que o nazismo poderá voltar a ver renascer o seu potencial. Veremos se tenho razão ou não. Já agora, esperemos que esteja enganado.

Hélio Bernardo Lopes
De Portugal

1 Comment

  1. Diz a determinada altura que ninguém reclama o regresso do comunismo. Percebe-se que está a falar de uma idéia errada de comunismo, um poder totalitarista e fascista como vai ainda pervalencendo em alguns pontos do mundo. Porém, será isso mesmo comunismo? Eu não sei o que é comunismo. Julgo ter uma idéia muito vaga sobre o que é comunismo. Eventualmente será mesmo a economia de mercado uma forma de comunismo – o capitalismo. Porém, entre as minhas presunções há factos que não posso nem ninguém pode negar: Em Portugal há cerca de 7% de eleitores que reclamam o comunismo. E em Espanha são igualmente cerca de 7%. Isso são cerca de 440 mil eleitores em Portugal e cerca de 1 Milhão e 700 mil eleitores em Espanha. No Chipre o governo é liderado por um comunista e formado por uma coligação na qual o partido comunista cipriota entra com cerca de 30% dos votos dos eleitores. Até na Dinamarca há comunistas no parlamento e no governo. Em França o partido comunista tem 15 das 577 cadeiras do senado. Na Grécia têm 7,5% dos representantes do povo no parlamento – 22 lugares dos 300 totais. No Brasil faz parte das coligações que elegeram Lula da Silva e Dilma Roussef!

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