O eterno retorno da (im) produtividade portuguesa

Por Bruno Bobone

Há alguns meses, durante a celebração do 184º aniversário da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, referiu na sua intervenção que, para garantir uma trajectória de crescimento económico justo e sustentado, é necessário aumentar os níveis do investimento, melhorar a gestão das nossas organizações e aumentar de forma sustentada os níveis de produtividade da economia portuguesa.

Sobre o primeiro ponto já aqui reflectimos há pouco tempo e, futuramente, teremos tempo para aprofundar o segundo desafio. Neste momento, gostaria de insistir especialmente na importância crucial da produtividade.

Este é, senão o maior, um dos maiores desafios que enfrentamos em termos económicos. Apenas o aumento da nossa produtividade permitirá que alcancemos os objetivos de qualidade de vida que ambicionamos. Por isso mesmo, este é, e deve ser, um dos temas prioritários para a economia portuguesa e para os intervenientes que nela participam, tanto empresários como trabalhadores e Governo.

Mas, qual o lugar que actualmente ocupamos em termos de produtividade e como chegámos até aí?

Um Portugal improdutivo e a ficar para trás na Europa
De acordo com os números fornecidos pela Pordata, a produtividade do trabalho em Portugal baixou entre 1995 e 2017, quando comparada com a média europeia. O nosso país apresenta hoje um nível de produtividade laboral por hora equivalente a 68% da média da UE. A Alemanha, por exemplo, registou em 2016 quase o dobro da média europeia e, em comparação com o resto dos países da região, atrás de Portugal só se encontram algumas das economias do leste e a Grécia.

Esta diminuição portuguesa foi a resposta, em termos gerais, a dois factores: um cíclico, ligado à perturbação ocorrida durante os últimos anos no mercado de trabalho em consequência da crise económica que atingiu o nosso país; e outro, relacionado com a nossa incapacidade crónica e estrutural para empreender as acções necessárias para melhorar os índices de produtividade da economia.

Destaco esta segunda dimensão porque, na minha opinião, é inegável que houve um momento, depois da entrada de Portugal na Comunidade Europeia, em que os incentivos para a modernização e a vontade dos portugueses de construir um país melhor criaram um contexto ideal para empreender esta tarefa, árdua mas necessária. Era, sem dúvida, o momento mais oportuno para enfrentar o défice estrutural de produtividade da nossa economia.

Infelizmente, os intervenientes responsáveis por empreender estas mudanças (leia-se, organizações empresariais, sindicatos e Governo) em vez de lutarem para criar as condições necessárias para o crescimento da produtividade do trabalho em Portugal, enredaram-se em negociações em defesa de interesses particulares e de curto prazo.

As consequências desta negligência são hoje evidentes. Mas chorar sobre o leite derramado não nos levará a lugar nenhum. Compreender o passado deve servir-nos para não repetirmos os mesmos erros e para vermos com mais clareza qual o melhor caminho para avançarmos. Por isso, importa fazer uma segunda pergunta complexa: como actuar, a quem compete actuar e sobre que aspetos prioritários é necessário actuar?

O que fazer (e quem o deve fazer) para aumentar a produtividade portuguesa?
A bibliografia económica analisou bastante esta problemática, enumerando várias ações que seria necessário empreender para atacar o nosso défice de produtividade. De entre estas acções, gostaria apenas de mencionar 2 dimensões concretas que considero fundamentais:

A melhoria das competências profissionais
A implementação de novos modelos de organização a nível de empresa
Em primeiro lugar, e esta é uma questão de base, existe uma dimensão educativa, já que Portugal apresenta, em média, um baixo nível de formação académico/profissional em comparação com outros países com o nosso nível de desenvolvimento económico.

Neste sentido, é necessário realizar uma avaliação exaustiva do sistema de formação profissional português, com programas específicos que incidam sobre os perfis de baixa qualificação, aumentem a oferta de perfis de elevada qualificação e especialização e apontem para a melhoria das competências de gestão nos perfis de direcção.

Aqui é claro que o Estado deve desempenhar um papel central, mas as empresas não devem desvincular-se desta responsabilidade. É crucial encontrar formas mais eficientes de coordenação da procura e das necessidades do mercado com a oferta do nosso sistema de ensino em termos educativos e de formação profissional.

Em segundo lugar e aqui é fundamental o papel dos empresários em coordenação com os trabalhadores, terão de ser feitas reformas que favoreçam o aumento da produtividade no seio de cada empresa, no contexto das relações laborais, apostando em novos modelos de organização que integrem sistemas meritocráticos em todos os níveis da organização.

Isto permitirá adicionar aos contratos de trabalho esquemas claros de incentivos aos trabalhadores, relacionados com a sua produtividade, favorecendo a distribuição dos benefícios a nível empresarial e a nível da economia em geral e criando as condições de motivação necessárias para aumentar o nível de produtividade dos trabalhadores.

Ambas as respostas mostram claramente que a aposta fundamental é nas pessoas, já que, definitivamente, elas são o maior activo de qualquer empresa, organização, economia ou sociedade; não o são o petróleo ou qualquer outro recurso natural, nem a localização ou o domínio de um eixo geoestratégico, e nem mesmo a dimensão da indústria ou do mercado. São as pessoas! É investindo nelas que conseguiremos ultrapassar a armadilha da improdutividade portuguesa e garantir a via do crescimento económico justo e sustentado de que o nosso Presidente falava.

 

Por Bruno Bobone
Presidente da CCIP – Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa
27 Novembro – 2018

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