Nação luso-brasileira

Por Igor Pereira Lopes

Durante muitos anos, milhares de portugueses deixaram o seu país a procura de uma nova vida em vários locais do mundo. Migraram para países orientais, africanos, da Europa, da Oceania, da América do Norte, Central e do Sul. Na parte inferior do globo terrestre está um dos principais destinos dos emigrantes portugueses: o Brasil, onde centenas de milhares de portugueses construíram as suas vidas, empreenderam, formaram famílias numerosas e auxiliaram, com a existência de associações e de entidades, a manter viva a cultura de Portugal.

Por essa razão, a mistura entre portugueses e brasileiros ocasionou no nascimento de uma nova nação, ainda mais forte, mais pujante e cheia de vida. Trata-se dos luso-brasileiros, um povo que leva no peito a sintonia perfeita entre amar o seu país de nascença e o seu país de acolhimento. Luso-brasileiros contam com um território vasto, com sentimentos mútuos, com imagens de referência de Norte a Sul de cada um dos países.

Sim. Existe um legado importante. Ser luso-brasileiro já não é mais um mero adjetivo, uma expressão. É uma condição, um advento. Se há uma comunidade que merece distinção, respeito e atenção é a que se desdobra para não ser nem uma coisa nem outra. Sim. Luso-brasileiros não têm nação concreta. Amam as suas raízes, mas não se contentam com a distância entre si e o país irmão.

O Atlântico entre nós é um mero detalhe, é como uma estrada recheada de desejos e satisfação. Sobrevoar as nuvens é a tarefa mais fácil quando se pretendem desbravar mil intenções. E como somos viajantes. Não há passaportes que resistam.

Sim, somos um só. Somos de lá e de cá. Há novatos nessa relação, mas há quem garanta que sempre se sentiu parte desse eufemismo que é ser luso-brasileiro. Documentos perdem, então, a razão.

Sou desses que enxergam a vida por meio de vários tons. Verde, amarelo, azul e branco, mas com pinceladas de vermelho e brasões imponentes. No olhar, Ordem e Progresso. Um só hino. Sim. Sabemos cantar o de lá e o de cá.

Ser luso-brasileiro é ser sentimental, é acreditar que dois continentes se cruzam, a pangeia foi uma desgraça. É realçar diferenças e defender cada lado de forma igual quando surgem críticas. Sim. Brasil e Portugal se cruzam, se encontram além do mar e do horizonte. Famílias inteiras motivam gerações a negociarem o passado. No final, apenas a certeza de que somos um só. Aventureiros como os nossos antepassados. E, certos de que somos almas sem fronteiras, ansiamos por dias melhores. Tanto lá como cá.

Vivemos num limbo particular. Sempre de um lado para o outro. A fazer um intercâmbio de sabores e saberes invulgar, levando nas malas farnéis recheados de esperança.

Por essas e por outras razões, merecemos destaque, respeito. Não podemos simplesmente aceitar que nos rotulem, que nos cerceiem. No Rio de Janeiro, em São Paulo ou noutra cidade brasileira qualquer, domingos são dias de festejos portugueses, de fado, de muito bacalhau, de broa, de música Pimba e das cores e melodias do folclore lusitano. Concertinas e acordeões dão o tom inicial. O vinho, faz a festa seguir horas a fio.

Por sua vez, viver o Brasil em Portugal é saber que temos lá familiares desconhecidos, é sentir algo estranho quando o samba ganha vida, é saber aproveitar o sotaque com açúcar, é valorizar as conexões humanas, o feijão preto, a picanha, a quase temida caipirinha, entre outros aspectos.

Merecemos ser ouvidos. É crucial que tenhamos representantes específicos na Assembleia da República portuguesa. Precisamos contar com o apoio de entidades brasileiras na proteção dos lusodescendentes, dos portugueses. As eleições deste ano contam com candidatos portugueses nascidos no Brasil. E, isso, por si só, faz uma enorme diferença.

Definitivamente somos uma só pátria. Por vezes, mátria. E essa condição é irretocável. Culturas, tradições, ensinamentos. Somos, sim, farinha do mesmo saco. E, como forma de alimentarmos perspectivas, lutamos pelo reconhecimento da nossa existência, no estado mais sólido possível. A retidão de quem pretende mostrar ao mundo esse expoente lusíada e sul-americano.

“Patrícios, brazucas, galegos, brasileiros, portugas. Oh, pá, tá me tirando? Deixa estar, tá valendo!”

Somos luso-brasileiros, com ou sem sotaque, e devemos lutar por uma nova interpretação da nossa condição. Novos tempos exigem uma nova postura. Somos mais do que uma nação, representamos um novo futuro no qual termos como “soberania nacional”, “proteção cultural” e “direitos recíprocos” ganharão novos significados e uma nova significação.

Por fim, mas não por último, ser luso-brasileiro é pertencer a um grupo notável, distinto. Sem essa referência viveríamos perdidos, ausentes, num mundo solitário, recheado de fronteiras culturais e físicas. Sim. Somos luso-brasileiros. Numa esfera sine qua non.

 

Por Igor Pereira Lopes
Jornalista luso-brasileiro em artigo publicado na Revista Port.Com
Autor dos livros-reportagem “Maria Alcina, a força infinita do Fado” (2016); “Casa do Distrito de Viseu: cinquenta anos de dedicação à cultura portuguesa no Rio de Janeiro”(2016) e “Rancho Folclórico Maria da Fonte da Casa do Minho do Rio de Janeiro – a jornada do grupo português que valoriza a cultura portuguesa no Brasil desde 1954” (2019): responsável editorial pelos livros “A Voz da Mulher” (2018), da jornalista e radialista Wylma Guimarães, e “Values, Motivation and Leadership – Fany Tchaicovsky and colleagues” (2015), organizado por Marcelo Fernandes.

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