Luís Vaz de Camões, na obra ribeiriana e roteiro literário de Coimbra

Por Jean Carlos Vieira Santos

 

Em 2024, Camões, 500 anos. Tenho a honrosa oportunidade de revisitar o manuscrito “Camões e a geografia”, de Orlando Ribeiro, publicado em 1980 na Plataforma Finisterra – Revista Portuguesa de Geografia. O texto orlandino sublinha que Camões não é só o cantor das glórias lusíadas e das líricas que se situam em tantos lugares por onde andou, mas o mais geógrafo dos poetas.

Apesar de não haver uma definição universal aceita da geografia camoniana, explana-se que Camões compreendia perfeitamente que a geografia é verdadeiramente a reunião de todas as notícias que se possam obter sobre as diferentes regiões da terra, sobre sua configuração e seu relevo, acerca do seu clima, produções e habitantes. Na esteira de Ribeiro (1980), verifica-se que Camões entrou no mundo da geografia pela mão do próprio fundador da Ciência, Alexander Von Humboldt, um dos maiores naturalistas e viajantes de todos os tempos.

Nesse ínterim, Camões conhecia os geógrafos e cosmógrafos medievais, que escreveram em latim e, na condição de estudioso, se sensibilizou a essa questão, sem negar o conhecimento daquela época. Com a obra disponível na Revista Finisterra, Ribeiro (1980) reafirma que Camões não foi unicamente poeta, mas também homem universal do Renascimento, com uma cultura humanista de base, alargada por leituras como por viagens que realizou.

Esse não geógrafo de formação esteve em Marrocos, Macau, Cabo da Boa Esperança (duas vezes) e costa oriental de África. Tais estadas lhe proporcionaram uma experiência de viajante desconhecida pelos poetas do seu tempo, ao descrever minuciosamente o que viu de fato. Para Ribeiro (1980), Camões tinha perfeita noção da geografia do próprio tempo, da Terra conhecida e das suas partes, em que possuía dotes e expressão de observador. Era um conhecedor profundo da história de Portugal.

À luz dessa leitura e em conformidade à obra ribeiriana, um dos primeiros requisitos de Camões para ser geógrafo era o sentido de localização. Em “Os Lusíadas”, Camões utiliza os conhecimentos do seu tempo com poderosa erudição e uma instrução científica completa. Quanto à importância da natureza nos registros poéticos camonianos, Ribeiro (1980) explica que, em “Os Lusíadas”, uma flora poética aparece em Ilha dos Amores, onde se sobressai a feição mediterrânea que está perfeitamente de acordo com a intenção do poeta.

Ao se inserir no mundo de Camões pelas escritas de Ribeiro (1980), observa-se que “Os Lusíadas” glorificam os lusos, e a grande revolução do mundo pelas navegações ibéricas é atribuída apenas aos portugueses. Para o autor estudado, Camões se sentiu sempre demasiado português e se entusiasma com as glórias dos seus maiores ícones para se elevar a uma concepção ibérica da descoberta do mundo. Esta leitura mostra o sentimento de Ribeiro por Camões como uma divindade tutelar das Ciências da Terra, desde o seu lugar no mundo até aos espaços e aos povos que dão às regiões um fisionomia própria e inconfundível que ele tão bem soube captar.

No aprofundamento do texto analisado, são constatados posicionamentos embebidos de várias emoções e do compromisso com a obra.  Tem-se a ciência de que o mundo viajante de Camões é desvelado não apenas na geografia de Orlando Ribeiro, o que também não é novidade nos diferentes campos do saber do meio acadêmico; logo, considera-se pertinente dialogar com roteiros literários contemporâneos nos quais nem sempre Camões é a atração principal, como no exemplo a seguir – isso não invalida e, tampouco, distorce a grandeza do maior nome da literatura portuguesa.

Um exemplo de itinerário literário que confirma a realidade escrita no paragrafo anterior, em que Camões não era o objeto central do passeio, ocorreu durante a visita guiada “Rural em reflexão na cidade: espaços e escritores”, a qual fez parte da programação do IV Congresso Internacional Soberania Alimentar/XI Encontro Rural RePort/XVIII Congresso de História Agrária (SEHA), evento realizado de 6 a 8 de setembro de 2023 na Universidade Coimbra.

Nesse roteiro literário se salientam as oponências de Miguel Torga, Eduardo Lourenço, Fernando Namora e Eça de Queiroz, em uma visita enriquecedora e fecunda para os sujeitos de diferentes países e áreas do conhecimento que participavam do evento. Entretanto, o grupo de pesquisadores/“turistas literários” manifestou interesse em conhecer a relação de Camões com a Universidade de Coimbra e, naquele momento, a caminhada atingiu outro sentido fértil, pois a presença do pesquisador na cidade universitária remetia à necessidade de mergulhar na relação da caminhada com o mundo camoniano, mesmo que tal interesse ultrapassasse a proposta da visita guiada.

Diante dos questionamentos, não ocorreu uma peregrinação de informações pelo intimo de Camões em Coimbra, mas apontamentos possíveis e incompletos foram citados durante o percurso realizado, o que gerou certo grau de satisfação ao grupo. Em vista disso e dos caminhos percorridos neste texto, a reflexão não se esgota aqui, pois se abre a outras perspectivas de análises devido ao sentimento de que Orlando Ribeiro e Luís de Camões são inesgotáveis. Por fim, no tocante a escrita posta neste trabalho, a obra ribeiriana mostrou que Camões não escreveu “Os Lusíadas” enclausurado em um gabinete, apenas com suas noções e ideias, pois partiu da geografia e da relevância do empírico para essa ciência e foi um viajante que conseguiu despertar no leitor o interesse por lugares, paisagens e territórios.

 

Referências

RIBEIRO, O. Camões e a Geografia. Finisterra, 15 (30), 1980.

SANTOS, J. C. V. Viajante infatigável, o mais geógrafo dos poetas: Revisitando Camões a partir da obra de Orlando Ribeiro. Dos Algarves: Tourism, Hospitality and Management Journal, 44, p. 34-46, 2024.

 

Por Jean Carlos Vieira Santos

Professor e Pesquisador da Universidade Estadual de Goiás (UEG/TECCER-PPGEO). Pós-doutorado em Turismo pela Universidade do Algarve (UALg/Portugal) e Doutorado em Geografia pela Universidade Federal de Uberlândia (IGUFU/MG).

 

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