Cavaco Silva: Simplesmente lamentável

Sem ter ainda adquirido e lido este mais recente livro do Presidente Cavaco Silva, de onde hoje mesmo nos foram transcritas algumas passagens relativas às suas relações com o anterior Primeiro-Ministro, José Sócrates, a verdade é que não recordo um só grande estadista que tenha, nas circunstâncias institucionais do nosso Presidente da República, procedido como agora se pôde ver.

Estas palavras recentes do Presidente Cavaco Silva, e que se constituem na sua interpretação vivencial de certos fatos, acabam por mostrar, porém, que algo de semelhante pode, num dia destes, vir a ter lugar com outro qualquer representante cimeiro da nossa soberania ou da nossa vida institucional suprema. No fundo, o Presidente da República revela fatos e sobre eles tece opiniões e impressões pessoais, mas que, como todos percebem, acabam por se projetar no próprio partido de que o antigo Primeiro-Ministro foi líder. Ele atinge, pois, o próprio PS.

Mas basta recordar os casos mais recentes passados por essa União Europeia afora, ou mesmo nos Estados Unidos, para de imediato se verificar que este procedimento do Presidente Cavaco Silva nunca está presente. Ninguém imagina, naturalmente, que Juan Carlos venha a tecer sobre Zapatero considerações deste teor. Nem Barack Obama acusou George W. Bush do que quer que fosse. Mesmo Sarkozy, depois de tudo o que pôde ver-se com Dominique de Villepin, foi por este acusado do que quer fosse, mesmo havendo razões para assim proceder. Nem Isabel II se determinou a expor publicamente os seus pontos de vista sobre as relações mantidas com Blair ou com Brown. É o tipo de atitude nunca praticado por um verdadeiro estadista. E é uma regra de ouro, sempre presente, no plano das relações institucionais.

Claro está que, tendo o livro sido agora dado a conhecer ao público, a atual imagem pública do Presidente Cavaco Silva terá tido o seu peso nesta lamentável decisão. Hoje, com mais de seis anos na Presidência da República, o Presidente Cavaco Silva sabe bem que a sua imagem pública está profundamente atingida, constituindo-se numa verdadeira desilusão junto da generalidade dos portugueses.

Estes, naturalmente, não são parvos, percebendo muitíssimo bem que a distância entre o Portugal recebido pelo Presidente Cavaco Silva e o que ele deixará à esmagadora maioria dos portugueses na hora da sua saída, se constitui num verdadeiro abismo. E o Presidente Cavaco Silva sabe, e muitíssimo bem, que não lhe é possível, depois do que se lhe ouviu em duas campanhas eleitorais, explicar o estado do País com base apenas na ação política de José Sócrates. Os portugueses não são parvos.

E mesmo os menos interessados na vida pública, só com dificuldade esquecerão os episódios do Estatuto Político e Administrativo dos Açores, ou a historieta das escutas a gente do Palácio de Belém, ou o infeliz e inapropriado discurso da sua tomada de posse, nem aquela afirmação de se estar a chegar aos limites suportáveis pelos portugueses, com tudo quanto depois se pôde ver com o atual Governo, suportado no (quase) silêncio do Presidente Cavaco Silva.

Mas os portugueses lembram agora bem as palavras sobre a situação material do Presidente Cavaco Silva e de sua família, bem como aquele inesquecível episódio da António Arroio. Recordam como pedia silêncio face às notações das agências financeiras, e como depois, já com o seu partido no poder, as veio condenar, mostrando-se admirado com a apatia de vinte e sete chefes de Estado ou de Governo. Um verdadeiro slalom político.

Quando agora nos é dado ver este episódio das relações entre o Presidente Cavaco Silva e o anterior Primeiro-Ministro, José Sócrates, torna-se-nos fácil comparar a qualidade política de Jorge Sampaio e de Pedro Santana Lopes, até mesmo depois de também nessa altura ter estado presente o célebre artigo da boa e da má moeda. Um abismo de cultura política. Anos-luz em matéria das qualidades que se requerem a um político, mormente se quiser passar pela História como estadista.

Este mais recente episódio do Presidente Cavaco Silva no desempenho das suas funções foi, inquestionavelmente, o seu pior momento político como Presidente da República, só semelhante ao das suas intervenções na noite da vitória da segunda eleição presidencial. Uma página negra que ficará a marcar a História da III República Portuguesa, assim corroborando o que tantas vezes pude já escrever: a chegada de Aníbal Cavaco Silva a Presidente da República foi o maior erro dos portugueses desde 25 de Abril de 1974. Uma página negra a não esquecer.

 

 

Por Hélio Bernardo Lopes
De Portugal

 

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