Axiologia: Fonte da Sabedoria

Por Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo

O percurso terrestre corresponde a uma vida humana biológica que, segundo as últimas perspectivas de esperança de vida, pode demorar 75 a 85/90 anos, ao longo dos quais são vivenciadas, tradicionalmente, várias fases ou ciclos: criança, jovem, adulto e idoso, cada um com características próprias, objetivos definidos, embora nem sempre com total convicção e sólida sustentação, incluindo as mais que prováveis alterações bio-intelectuais e outras.

Em todo o caso, e por mais modificações que se introduzam, chegadas ao fim de cada ciclo, na maior parte dos casos, as pessoas não procederiam da mesma forma, nem todas estabeleceriam os mesmos objetivos, e/ou desejariam todos os resultados, se lhes fosse possível começar tudo de novo. Há como que uma instabilidade permanente neste percurso, algo incerto, enigmático e, por vezes, perigoso. O risco voluntário, calculado ou inconsciente, é uma variável que não se domina em absoluto.

Apesar de tudo, é preferível e aconselhável assumir-se um percurso de vida com objetivos intermédios, que poderiam ser divididos em três categorias: a) Metas, que é necessário vencer e ultrapassar; b) Alvos, que se ambiciona atingir e consolidar; c) Valores, que se querem alcançar, sem que jamais se consigam em absoluto, funcionando mais como estímulos, modos de vida, ideais de referência que iluminam o percurso, que simbolizam a perfeição, universais e supremos.

Como os valores absolutos, e toda e qualquer forma de perfeição, são inacessíveis ao Ser humano, resta, de facto, lutar por um percurso moderado e, em função dos sucessos, aumentar a qualidade e quantidade dos objetivos, de tal forma que se possa ter sempre sob controlo, na medida do possível, o percurso que se traçou, já que surgem situações e imponderáveis que escapam às previsões racionais, científicas e técnicas de qualquer pessoa.

Esta prudência pode contribuir para uma vivência com sabedoria, com qualidade, harmonia e felicidade espiritual e material. Os projetos ambiciosos, à partida, aparentemente inalcançáveis, contêm, em si mesmos, um elevado risco que: tanto pode conduzir ao sucesso; como ao fracasso.

Trabalhar com estratégias de pequenos e seguros passos, subir a escada da vida, degrau a degrau, iniciar um novo projeto quando o anterior foi alcançado, poderá significar outras tantas recomendações, para todas as pessoas moderadamente ambiciosas.

Não é “pecado”, não é “crime”, não é “censurável” ter-se ambição, desde que os meios utilizados, e fins a alcançar, não colidam com os legítimos e leais interesses de terceiros, porque todos têm idêntica dignidade, independentemente do seu estatuto social, todos se movem num mundo em constante efervescência social, científica, técnica, porque: «O mundo é o palco da odisseia humana! Cada um de nós representa o seu papel e, por humilde que seja, cada existência tem o seu significado. Estamos sempre crescendo e, certamente, nos serão confiados novos papéis, até nos tornarmos puros e sábios.» (PIRES, 1999:132).

O percurso que cada pessoa terá pela sua frente apresentar-se-á, na maioria dos casos, como muito difícil, por vezes incompreensível para o próprio, inaceitável para os seus semelhantes, todavia, quaisquer que sejam os meios legítimos, os contornos, omissões ou separações, é perduravelmente necessário percorrer um caminho, que deverá ser traçado, projetado, exclusivamente, pelo interessado, e/ou imposto por terceiros, ou em parceria, ou ainda, porque é necessário percorrê-lo para se atingir um determinado bem e um objetivo específico.

Projetos, circunstâncias positivas e/ou negativas, recursos, imponderáveis, variantes, espaço e tempo, são algumas das condicionantes que é preciso ter em conta, e só um bom propósito de vida ajuda a minimizar certos obstáculos.

Em certa medida, quando os propósitos de vida assentam nos axiomas axiológicos, o percurso poderá ser facilitado, quando pontuado de objetivos ético-morais, que conduzam a um bem-estar espiritual, a que se seguem os objetivos materiais, porque: «Conscientes da nossa individualidade, buscamos, muitas vezes, o conforto e a segurança nos bens materiais e procuramos a felicidade nos prazeres dos sentidos. Quanto mais possuímos, mais ansiosos nos tornaremos e, por fim, o nosso maior desejo acaba sendo reencontrar a felicidade perdida. Mas o conhecimento, uma vez ‘ingerido’ nunca mais pode ser ignorado. Desta forma só reencontrarão a paz do paraíso aqueles que conseguirem superar o egoísmo e a atracção exercida pelos valores materiais e, perdendo a consciência da própria individualidade, sentirem-se não apenas com todos os outros, mas com toda a natureza.» (Ibid. 133)

A importância dos valores, como referenciais de uma vida, assente em preocupações dignificantes da pessoa humana, é fundamental para o equilíbrio dos indivíduos, dos grupos, da sociedade. Por isso, a Axiologia se torna, cada vez mais, um imperativo categórico, que deve passar à prática. Uma vida feita apenas de “materialismos”, poderá, mais cedo ou mais tarde, acabar numa existência entediante, gananciosa e avarenta e miserabilista.

Valores que põem em prática sentimentos nobres, mas que também defendem a pessoa de situações que afetam a sua dignidade pessoal, profissional, social e estatutária, naturalmente que são uma defesa legítima, e que devem ser utilizados sempre e quando necessário.

Bibliografia – PIRES, Wanderley Ribeiro, (1999). Dos Reflexos à Reflexão. A Grande Transformação no Relacionamento Humano, Campinas: Editora Komedi.

 

Por Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Professor Universitário, Escritor, Mestre em Filosofia Moderna e Contemporânea.
Blog Pessoal: http://diamantinobartolo.blogspot.com
https://www.facebook.com/ermezindabartolo

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