Guterres: “A marca que vende melhor no mundo hoje é o medo”

Da Redação

Na última sexta-feira, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, declarou que “a marca que vende melhor no mundo hoje é o medo”.  O chefe da ONU disse que “o medo conquista audiências, ganha votos, gera clicks.”

Guterres afirmou que o mundo assiste “a um enorme déficit de confiança em governos, instituições políticas e organizações internacionais.”

Segundo o representante, as “explicações podem soar como desculpas e as pessoas podem se tornar alvos fáceis para nacionalistas, populistas e todos aqueles que lucram com o medo.”

Por isso, o chefe da ONU acredita que o maior desafio para governos e instituições no mundo de hoje é “mobilizar soluções que respondam aos medos e ansiedades das pessoas com respostas.”

Resposta
Para Guterres, isso exige ação das Nações Unidas em três áreas diferentes.

Primeiro, criar soluções concretas para as pessoas que estão sendo deixadas para trás. Para Guterres, a resposta é uma globalização justa e o caminho é a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.

O secretário-geral acredita que isto “é ainda mais importante porque o ritmo da mudança apenas vai se intensificar com a revolução tecnologia” que o mundo atravessa. Guterres disse que essa será a sua principal mensagem no Fórum Econômico de Davos.

Em segundo lugar, ele afirmou que é preciso continuar a mostrar o valor das Nações Unidas. Segundo ele, isso foi feito nos últimos meses com a aprovação do Programa de Trabalho para o Acordo do Clima de Paris, em Katowice, na Polônia, e do Pacto Global para a Migração Segura, Ordenada e Regular, em Marraquexe, Marrocos.

Guterres também destacou o acordo de cessar-fogo, mediado pela ONU, no Iêmen, dizendo que “abriu uma janela de esperança para a pior catástrofe humanitária do mundo.”

Apesar desses avanços, o chefe da ONU reconheceu que “muitos ainda veem a ONU como pesada e burocrática” e é por isso que a organização “está se reformando para ser mais ágil, flexível e eficiente.”

Luta
Em terceiro lugar, Guterres disse que é preciso “recrutar todos os segmentos da sociedade numa batalha por valores, em particular, para enfrentar a ascensão do discurso de ódio, xenofobia e intolerância.”

O secretario-geral afirmou que se ouvem “ecos preocupantes e cheios de ódio de eras passadas” e “visões venenosas penetrando nos debates políticos”. Ele acrescentou um apelo para que nunca se esqueçam as lições dos anos 1930.

Em todas estas áreas, Guterres disse que “a mensagem é clara: as palavras não são suficientes.”

Para o novo ano, ele disse que está “absolutamente comprometido em garantir que as Nações Unidas sejam uma plataforma de ação para reparar a confiança quebrada num mundo em ruinas.”

Multilateralismo
Na última quarta-feira, António Guterres apresentou à Assembleia Geral as principais áreas de ação para 2019 e lembrou as principais conquistas de 2018.

Falando aos jornalistas, o secretário-geral disse que a palavra multilateralismo foi a expressão que mais ouviu nas discussões com os Estados-membros que se seguiram.

Segundo ele, as ameaças da mudança climática, da migração, do terrorismo e da globalização exigem soluções globais, mas “apenas dizer isso não vai fazer com que algo aconteça”. O representante destacou que “dispensar ou difamar aqueles que têm dúvidas sobre o multilateralismo não leva a lugar algum.”

Desigualdade
O chefe da ONU acredita que é preciso perceber porque é que muitas pessoas, em todo o mundo, “não estão convencidas do poder e propósito da cooperação internacional.”

Ele lembrou os anos 90, quando era primeiro-ministro em Portugal, dizendo que existia uma noção “de que a globalização e o progresso tecnológico resolveriam todos os problemas e os seus benefícios chegariam a todos.”

Uma geração mais tarde, o chefe da ONU diz que aconteceram “muitos benefícios”, como “um aumento dramático na riqueza global, a queda da mortalidade infantil, o aumento da expectativa de vida e reduções significativas na pobreza extrema.”

Apesar disso, “as desigualdades cresceram entre os países e ainda mais dentro deles.” Ele acredita que “pessoas, setores e regiões inteiras foram deixados para trás.”

Guterres explicou que “quando as pessoas veem uma economia global fora de sintonia, quando sentem que não têm chance ou esperança e que nenhum líder ou instituição está sintonizada com seus problemas, a instabilidade e a desconfiança chegam certamente em seguida.”

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