Fake News: Mídia em Portugal fez o contrário do que devia ter feito

Da Redação
Com Lusa

Os veículos de imprensa em Portugal “fizeram o contrário do que deviam ter feito” em resposta à era de (des)informação em que vivemos, considera Paulo Pena, autor de “Fábrica de mentiras: viagem ao mundo das ‘fake news'”.

O livro, editado pela Objectiva e com lançamento neste sábado, na Livraria Almedina, em Lisboa, é o resultado de uma investigação sobre as chamadas ‘fake news’ – informações intencionalmente falsificadas ou manipuladas – em Portugal, iniciada há um ano pelo jornalista Paulo Pena, que tem publicado regularmente sobre o assunto no Diário de Notícias.

Um ano depois, Pena confessa-se, em entrevista à Lusa, “muito mais assustado” do que quando começou a investigar o assunto. “Não só com a existência de uma fábrica das mentiras, de um processo organizado”, refere. “O que eu não sabia antes é que há todo um sistema posto em prática pelas plataformas mais importantes, o Google e o Facebook, de financiamento deste tipo de atividade. Ou seja, por cada clique que uma ‘notícia falsa’ tenha, o Google paga uma verba em publicidade a essas pessoas que criam as mentiras e isso alimenta o negócio”, atesta.

E como tem respondido no jornalismo? Com uma “espécie de ‘kebab’, carne cortadinha aos bocadinhos, que é toda junta com farinha e qualquer coisa e depois fica a rodar num rodízio de grelha durante o dia inteiro e depois é cortada às fatiazinhas pequeninas e é oferecida como refeição de baixo custo”, descreve. “Isto é o contrário do que os jornais deviam ter apostado: deviam ter apostado na profundidade, na capacidade de fazer temas diferenciadores, eles próprios serem diferenciadores uns dos outros e não serem todos iguais, a darem as mesmas notícias, a fazerem-no da mesma forma”, critica.

Porém, os órgãos de informação em Portugal “fizeram o contrário do que deviam ter feito, que foi apostar num modelo de informação (…) que tem o seu modelo de negócio assente nos cliques, no chegar a mais pessoas”, observa.

Sobre a relação entre os órgãos de informação e as ‘fake news’, Paulo Pena responde com “sim, não e talvez”, assinalando o desinvestimento nas redações e o desaparecimento dos mecanismos de verificação. “A existência, dentro das redações, de um mecanismo de controlo sobre o que é publicado é a única maneira de os jornais poderem dizer às pessoas ‘confiem na nossa informação porque nós trabalhamo-la, não estamos aqui para ser pés-de-microfone, nem para passar o que nos dizem, estamos aqui para verificar tudo e é esse o compromisso que um meio de comunicação social tem que ter com o público'”, defende.

“Portugal é dos poucos países na Europa que não tem nenhum tipo de apoio, direto ou indireto, que seja eficaz e visível, ao setor da comunicação social”, lamenta Pena.

No livro que agora lança, Pena quis conhecer “o efeito da mentira”, ou seja, o processo: quem criou, com que razão, de que forma e com que ferramentas. O objetivo, esse, é claro: “chegar a milhões de pessoas”.

Hoje, as pessoas não atribuem a mesma validade à refutação da mentira do que atribuíram à própria mentira. Este “fenômeno de ressonância opinativa” explica que “quanto mais dissermos uma mentira, mais pessoas acreditarão nela”, alerta. Acresce que “as pessoas se sentem confortáveis com essa mentira, porque ela vai de encontro às suas convicções — ‘se eu não gosto de um político e se dizem uma mentira sobre ele, eu acredito na mentira porque não gosto do político'”.

O jornalismo deixou de ser “a moldura do debate público”, assinala. “A partir do momento em que as pessoas passam a receber, maioritariamente, a sua informação através das redes sociais, já não estão a fazê-lo com a lógica que existia antes. Os jornais, as rádios, as agências, as televisões escolhiam os temas pela sua relevância, pela sua importância. Agora, os temas aparecem mais ou menos, nos nossos telefones, nos nossos ‘tablets’, nos nossos computadores, pelo impacto que geram, pelo tamanho da reação popular que geram. E isso é completamente antijornalístico”, constata.

“Ao canalizar o dinheiro da publicidade ‘online’ para esta publicidade direcionada, publicidade ao clique, o modelo que existia de jornalismo está ameaçado de morte. É um prego no caixão mesmo. As empresas de Silicon Valley trocaram a lógica de relevância da informação que o jornalismo tinha por uma lógica do clique, de replicação dessa informação”, denuncia.

Ainda assim, Pena não duvida de que “o bom jornalismo é uma das respostas” ao cenário de desinformação em que vivemos. Mas, ao mesmo tempo, “tem que haver também uma regulação da atividade” das grandes plataformas, como o Google e o Facebook, que nos servem “coisas que valorizamos muito”, mas que não o fazem “de borla”, mas sim “em troca da nossa intimidade”, lembra. “Damos ao Google e ao Facebook todos os dados que não daríamos aos nossos melhores amigos”, recorda.

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