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Uma “Semana Da Pátria” deprimente

Por | 11 setembro, 2017 as 10:19 am | Nenhum comentário

A república atarantada do Brasil não consegue uma pausa para tanta notícia ruim. Difícil a população conseguir começar a acreditar numa saída em curto prazo. Ela não se apresenta. Cada vez mais, a solução aponta para a saída da eleição em 2018. Somente a manifestação da democracia pode dar alento para o quadro triste que vivemos diariamente. E não é força de expressão. A cada 24 hs, temos notícias novas desabonando os atuais governantes. Aqueles que, garantiram, fizeram o impeachment contra uma presidenta eleita, para limpar o País de uma quadrilha, de corruptos contumazes e que, na seqüência, os investimentos necessários para o retorno do crescimento econômico e do aumento da taxa de emprego não tardariam a chegar. E, a construção da chamada ‘Ponte para o Futuro’ levaria o Brasil, segundo eles, atrasado pelo tamanho do Estado na vida da sociedade, para a ‘modernidade’, ou seja, em outras palavras, a ação do mercado em liberdade cada vez maior.

Pois bem, o que temos constatado é, de fato, a redução da participação do Estado. Um programa que foi implementado ainda durante os debates no judiciário e no legislativo do julgamento, antes mesmo que a decisão para a retirada de Dilma fosse oficialmente definida pelo presidente do Supremo. A saída dela para as análises do legislativo e da Justiça foi motivo para uma reformulação dos ministérios e secretarias, com um desmonte absoluto do que havia sido estruturado. Temer, o vice que assumiu a presidência, ainda interinamente, simplesmente eliminou o programa que venceu a eleição e ele próprio foi signatário como aliado na chapa vencedora do pleito, impondo um outro. Uma outra diretriz, completamente diversa. E que não passou pelo crivo popular. Um conjunto de objetivos que não passaram e não passariam pela vontade popular. Por isso, para grande parte da população, o fato de 2016 não passou de um golpe. Mais um na história brasileira. Ele se concretizou apenas para que o mercado assumisse um protagonismo ainda maior do que já possui. Rasgaram conquistas de décadas, atacando as leis trabalhistas, reduzindo o investimento em educação, pesquisa e saúde, oferecendo privatizações e cessões de ativos da Petrobrás, da Eletrobrás, de áreas na Amazônia, entre outros fatos, incluindo ataque à aposentadoria. Resultado disso, uma brutal rejeição a Michel Temer. Ele é aprovado por 4% da população, segundo pesquisa Vox Populi no início de agosto/ 2017. E, por essa aversão, essa praticamente nula simpatia, dentro do próprio grupo que patrocinou a queda de Dilma, entre as elites brasileiras, Temer também não é unanimidade. Já em fins de 2016 FHC dizia que “é o que temos para o momento, uma pinguela”. Assim, o atual mandatário se equilibra com liberação de verbas, com cargos e desonerações para setores. Agronegócio, mineradoras e bancos já receberam facilidades brutais e perdões de dívidas. Porque são grandes atores com seus representantes no Congresso. Entretanto, não convence. É um cenário tenebroso. Com baixo investimento, alto desemprego e crise fiscal.

Nestes dias, durante a “Semana da Pátria”, os brasileiros não foram poupados pelas notícias vergonhosas envolvendo os três poderes. Sérgio Moro, o juiz curitibano e estrela maior da Operação Lava Jato, teve sua mulher, a advogada Rosângela Moro, envolvida com recebido de dinheiro do escritório do também advogado Rodrigo Tacla Duran, apontado como operador de propina da construtora Odebrecht. Duran pagava não apenas o escritório de Zucoloto, do qual Rosângela é sócia, mas a própria esposa do juiz Moro, conforme noticiaram os jornais. Duran acusa o advogado Carlos Zucolotto Júnior, amigo do juiz Sérgio Moro, de negociar facilidades, como redução de penas e multas, em acordos de delação premiada na Operação Lava Jato. E isto foi ocultado nos meios da referida Operação por pelo menos dois anos. Quando se quer, o silêncio é obsequioso aos amigos e o escândalo é uma boa estratégia sobre aos inimigos. Mesmo que as delações, que se multiplicam, não sejam provadas muitas vezes. Afinal, delatar não é provar, não é flagrar. Coisas bem diferentes. E, Moro, no entanto, ficou ‘na dele’ (http://www.redebrasilatual.com.br/politica/2017/09/nassif-mulher-de-moro-recebeu-pagamentos-de-investigado-na-lava-jato ). O que é problemático demais. E não foi só. Nesse contexto, das acusações e espetáculo midiático, outros capítulos aconteceram. Em novos áudios envolvendo o dono da JBS, Joesley Batista, agora com o executivo Ricardo Saud, cheios de cafajestagem e arrogância, fala-se de ações ilícitas envolvendo um procurador “afinado com eles” em tentativa de influenciar o procurador-geral da República Rodrigo Janot em negociações de acordo penal. Gilmar Mendes, ministro do Supremo e presidente do TSE, disse que Janot é “delinqüente” e “chantagista” e o acordo anterior com Joesley Batista foi “tragédia” e “desastre”. Joesley afirmou que Temer é “ladrão”, nos áudios revelados meses atrás. Temer, por sua vez, disse que Joesley é “criminoso”. Joesley disse que “Janot sabia de tudo”. Janot, o procurador-geral, afirmou que o ministro Gilmar Mendes é “decrépito moral” e tem “disenteria verbal”. Temer, apesar dos áudios, foi inocentado pela Câmara e não foi sequer investigado. Janot aposentou-se agora do cargo de procurador geral da República e, na saída, acusou Lula e Dilma de ‘liderarem quadrilha’, para o prazer da grande mídia e dos membros da Operação Lava Jato de Moro, aquele que não citou a mulher em meio ao caso Odebrecht. E, concluindo o cenário da semana, fechando com ‘chave de ouro’, a Polícia Federal encontrou aproximadamente R$ 52 milhões em malas e caixas de papelão na Operação Tesouro Perdido, a maior apreensão de dinheiro vivo no Brasil, ocorrido em Salvador. Apartamento vinculado a Geddel Vieira Lima, investigado por desvios na Caixa Econômica Federal, vice-presidente em 2012 da instituição e ex-ministro de Lula e Temer. Imagem que correu o mundo. Foram 7 máquinas para fazer a contagem do montante e representa, em dólar, o 7º posto de assalto na história planetária (Band News, 6/9/2017). Os últimos envolvimentos de Geddel com enguiços morais e legais deu-se quando o ex-ministro da Cultura, Marcelo Calero, acusou Geddel de pressão para liberar a construção de um edifício em Salvador, empreendimento em que o ministro baiano tem uma unidade. E ele se tornou réu havia um mês, por obstrução da Justiça. Dias atrás, ao observar o contexto, o ex-ministro do Supremo, Joaquim Barbosa, grande personagem durante o julgamento do ‘Mensalão’, voltou a afirmar que há um ano “o Brasil foi sequestrado por um bando de políticos inescrupulosos que reduziram as instituições a frangalhos” (Valor Econômico, 1/9/2017).

São sucessões de escândalos que mostram o fato sistêmico envolvendo o capital privado com os políticos e administradores públicos. JBS, Odebrecht, mineradoras, imprensa, são empresas que tem interesses fortes junto ao Estado, junto aos governos. E a tentação da corrupção é monstruosa. Juízes, ministros, secretários de governo são alvos permanentes de sedução. Escorregões morais devem ser punidos de forma exemplar. O Estado não é mais corrupto que o setor privado. Tal discurso é uma balela, argumento absolutamente ideológico. Todavia, em plena “Semana da Pátria”, escancara-se que o Brasil não é independente e permanece sugado pelos interesses de grandes poderes, internos e externos, não tendo compromisso com o bem-estar da população, com a idéia de Nação. Se o povo não promover sua organização, sua disposição para a luta, estará fadado à permanente exclusão de seus direitos.

São Paulo, 8 de setembro de 2017

 

Prof. José de Almeida Amaral Júnior
Professor universitário em Ciências Sociais; Economista, pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação; Colunista do Jornal Mundo Lusíada On Line, do Jornal Cantareira e da Rádio 9 de Julho AM 1600 Khz de São Paulo



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