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Eduardo Lourenço: um ensaísta inigualável

Por | 7 março, 2017 as 11:41 am | Nenhum comentário

Por Adelto Gonçalves

I

Eduardo Lourenço (1923) cumpre uma trajetória ímpar na história do pensamento português, sendo considerado o grande pensador e ensaísta da Literatura Portuguesa. A vantagem de se viver muito – bem haja – é que o homenageado pode desfrutar desse reconhecimento. No caso de Lourenço, esse reconhecimento definitivo veio com a publicação pela Fundação Calouste Gulbenkian, de Lisboa, de suas Obras Completas, de que saíram à luz três extensos volumes.

Organizado em torno do livro homônimo publicado em 1974 pela Editora Inova, do Porto, o terceiro volume (Tempo e Poesia), além de reunir extenso número de textos dispersos dedicados à poesia e a quase todos os nomes mais relevantes da poesia portuguesa do século XX, traz um conjunto considerável de inéditos, todos revistos e em alguns casos, concluídos com exclusividade para esta edição. São textos que Lourenço escreveu entre as décadas de 1950 e 1970, muitas vezes a pedido de editores e autores.

Assim, o leitor encontrará ensaios inéditos sobre a poesia de Eugénio de Castro (1869-1944), Adolfo Casais Monteiro (1908-1972), Raul de Carvalho (1920-1984), Maria Teresa Horta (1937) e Salette Tavares (1922-1994). Aqui aparecem também reunidos todos os estudos que o ensaísta dedicou à poesia de nomes indiscutíveis como Teixeira de Pascoaes (1877-1952), José Régio (1901-1969), Miguel Torga (1907-1995), Jorge de Sena (1919-1978), Sophia de Mello Breyner (1919-2004) e António Ramos Rosa (1924-2013), entre outros.

O primeiro volume das Obras Completas, de 2011, tem por título Heterodoxias e retoma textos já incluídos nas versões anteriores, além de recolher inéditos. O segundo volume, Forma da Poesia Neo-realista e outros ensaios, de 2014, reúne tudo o que o autor escreveu sobre o neorrealismo. Além do livro Sentido e Forma da Poesia Neo-realista, escrito em 1959/1960 e só publicado em 1968, o tomo reúne uma massa enorme de textos dispersos, alguns deles não apenas estritamente sobre autores e obras do neorrealismo literário.

Embora os três volumes tenham igual importância como receptáculo de quase tudo o que saiu da pena do professor e filósofo Eduardo Lourenço, sem dúvida, o terceiro é o que reúne o que há de mais fino e precioso de sua vastíssima produção, constituindo a mais importante obra sobre poesia alguma vez editada em Portugal, como afirmou Carlos Mendes de Sousa na extensa e elucidativa introdução que escreveu para esta edição que contou com a sua coordenação.

II

Como bem observou Mendes de Sousa, o que se destaca nos ensaios de Lourenço é a sua heterodoxa maneira de ler o mundo que não leva em conta visões ideológicas e esquematicamente condicionadoras nem os modelos ditados pelo marxismo nem pelo catolicismo tradicional, o que era comum à época, ainda que em seus primeiros estudos sejam frequentes as alusões a episódios, locais e personagens bíblicos. A rigor, influenciado pelo filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), o crítico nunca se limitou a escrever meras recensões ou resenhas de livros, mas, mesmo quando escreveu textos mais leves e de poucas linhas, produziu alentados ensaios que chamam a atenção do leitor por suas imagens e ideias insólitas.

De fato, o pensamento do professor Lourenço, ao longo de uma carreira acadêmica invejável, voou tão longe e alcançou tantos ângulos que hoje é impossível imaginar um ensaio sobre poesia portuguesa sem levar em conta o que ele já escreveu. Nos ensaios do volume III, por exemplo, há frases lapidares que atravessaram o século.

É o caso das duas frases que encerram o ensaio “Orfeu ou a poesia como realidade” em que Lourenço define o papel dos dois corifeus do modernismo português, Fernando Pessoa (1888-1935) e Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), ícones da revista Orpheu, da qual só saíram dois números em 1915, mas que exerceu notável e duradoura influência por seu vanguardismo: “A importância extrema de Sá-Carneiro e Pessoa na nossa Poesia é precisamente a de terem chegado no fim desse movimento doloroso e exaltante e terem tido olhos, imagens e vida para tomar parte num confronto decisivo para o esclarecimento dos limites e poderes da alma humana. Um perdeu aí a vida que tinha, o outro a que poderia ter tido. Assim ganharam a que finalmente haviam de ter”. (pp. 87-88).

Mas não só. Antes, no mesmo ensaio, pode-se ler: “Naquele tempo eles eram apenas jovens à volta dos vinte anos decididos a ser fiéis às suas necessárias, libertadoras e estranhas experiências. O pouco que se conhece da sua biografia nesse tempo mostra-os cheios de perplexidade. A dialética incomum de Pessoa revela-o oscilante e confundido ante a necessidade de testemunhar por ideias e formas que de todos os lados requeriam lugar e voz. Divide-se, multiplica-se, duvida dos seus panfletos de gênio, abandona os amigos, incapaz de distinguir neles e talvez em si mesmo a loucura e o exibicionismo das suas atitudes; mas finalmente, quando chega a hora, ele está presente, é a grande, visível e invisível presença desse Orpheu, onde se apresentará já, “tal como a Eternidade enfim o mudará”, jogando o seu duplo jogo de seriedade formal de F ernando Pessoa e o da fantasia absoluta de Álvaro de Campos. Ele bem pressentia que Orpheu era a ponte por onde a sua Alma passaria para o Futuro”. (pp.81-82).

III

Outro ensaio que se destaca, entre tantos textos fulgurantes, é o que leva por título “Situação de Régio”. Aqui o ensaísta, depois de reconhecer que o mito-Pessoa começa a se extenuar pelo excesso do seu culto, observa que a voz de Régio “emerge de sua sombra e da sua falsa morte”. E acrescenta: ‘José Régio é um dos poucos autores portugueses de quem, com verdade, se pode realmente dizer que têm um mundo. E isto conta ou deve contar quando se mede a obra de um homem pelo raio da ambição que nele encarna e não apenas pela fulgurância sem espessura de um acerto sem raízes nem alcance”. (p.380).

Em “Evocação espectral”, o ensaísta recorda a Coimbra de seus vinte anos, de quando conheceu o médico Adolfo Rocha, então já conhecido literariamente como o poeta e contista Miguel Torga, no auge de sua fama como autor de Bichos e Contos da Montanha.  Mais jovem 15 anos, Lourenço diz que, a essa época, não seria a pessoa mais indicada para se ocupar da obra de Torga “com objetividade e justiça”, apesar da amizade que mantiveram e que continuaram epistolarmente depois que o “aprendiz de filósofo” se foi para Hamburgo.

Outro texto de poucas, mas densas, linhas é o que leva por título “Jorge de Sena” e que evoca este poeta, romancista, critico literário, ensaísta, dramaturgo, erudito e tradutor, um dos autores mais marcantes do século XX português. Dele diz: “Herdeiro do modernismo tanto como do movimento Presença, foi não menos sensível ao questionamento da cultura e da literatura, levada a cabo pelo surrealismo. Vendo bem, sua obra é inclassificável”. (p. 461).  Acrescente-se aqui que o seu modernismo vinha de sua ligação com o movimento deflagrado a partir da revista Presença (1927-1940), fundada por José Régio, Branquinho da Fonseca (1905-1974) e João Gaspar Simões (1903-1987).

Para Lourenço, na poesia portuguesa, de tradição quase só lírica, a obra de Jorge de Sena “é quase uma exceção, pelo seu gosto descritivo, discursivo e, sobretudo, pela sua vontade de se oferecer um inimigo “objetivo” opondo-se ao intimismo confessional”. Diz mais: “O paradigma poético de Jorge de Sena é o de Camões, a quem não só consagrou estudos que fizeram – e fazem – data, mas a quem se assimilou simbolicamente, vendo nele o poeta perseguido pela mediocridade da sua época e pela mentira do mundo”. (p. 461).

IV

Eduardo Lourenço, nascido em São Pedro do Rio Seco, concelho de Almeida, distrito da Guarda, província da Beira Alta, concluiu a Licenciatura na Faculdade de Letras de Lisboa em 1946, assumindo em seguida as funções de professor assistente, cargo que desempenhou até 1953. Desse ano até 1958, exerceu as funções de leitor de Língua e Cultura Portuguesa nas universidades de Hamburgo, Heidelberg e Montpellier.

No período de 1958-1959, atuou como professor convidado na Universidade Federal da Bahia. Foi ainda leitor nas universidades de Grenoble e Nice, na França. Nesta última universidade, foi maitre-assistant, cargo que manteve até a sua jubilação em 1989. Na França, terra natal de sua esposa, Annie Salomon (1928-2013), viveu por seis décadas. Pela editora Gallimard, de Paris, lançou Une Vie Écrite.

Seu primeiro livro, Heterodoxia I, é de 1949. Com mais de 40 livros publicados, é autor de O Desespero Humanista na Obra de Miguel Torga (1955), Heterodoxia II (1967), Sentido e Forma da Poesia Neo-realista (1968), Fernando Pessoa Revisitado – leitura estruturante do Drama em Gente, (1973), O Labirinto da Saudade – psicanálise mítica do destino português (1978), Fernando, rei da nossa Baviera (1986), Nós e a Europa ou as duas razões (1988), A Europa Desencantada – para uma mitologia europeia (1994), O Esplendor do Caos (1998), Portugal como Destino seguido de Mitologia da Saudade (1999), A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia (1999), As Saias de Elvira e outros ensaios (2006) e Paraíso sem Mediação (breves ensaios sobre Eugénio de Andrade (2007), entre outro s.

No Brasil, a presença de seus livros é ainda restrita, embora tenha conquistado o Prêmio Camões em 1996. Na sequência, a Companhia das Letras, de São Paulo, publicou Mitologia da Saudade (1997) e A Nau de Ícaro (2001). Em 2015, a editora portuguesa Gradiva reuniu seus principais ensaios de temática brasileira no volume Do Brasil: Fascínio e Miragem.

Acumulou mais de 20 prêmios. Em 2016, ganhou a Prêmio Vasco Graça Moura – Cidadania Cultural. É Doutor Honoris Causa pelas universidades do Rio de Janeiro (1995), de Coimbra (1996), Nova de Lisboa (1998) e de Bolonha (2006). De 2002 a 2012, exerceu as funções de administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi ainda adido cultural na Embaixada de Portugal em Roma.

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Obras Completas de Eduardo Lourenço III – Tempo e Poesia, com coordenação e introdução de Carlos Mendes de Sousa. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 816 págs., 2016, 25 euros.

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Por Adelto Gonçalves
Jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. E-mail: [email protected]



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