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A Teoria Brasilianista Da Origem Do Fado

Por | 9 agosto, 2017 as 10:57 am | Nenhum comentário

A teoria brasilianista da origem do fado e a aristocratização através do fenômeno do Marialvismo.

Por Fabiana Moutinho

A origem etimológica do fado vem de Fatum que significa destino. Destino este implicado há inúmeras concepções e possibilidades. Existem várias teorias sobre a origem histórica do fado, temos a teoria que remonta o romanceiro que está presente na cultura portuguesa desde a idade média momento em que ganha uma grande divulgação e efetua a ligação entre a cultura palaciana e a cultura popular. Os músicos ambulantes personagens da difusão do estilo atravessaram vários espaços geográficos e realizaram um trabalho de disseminação tendo como principal temática as dores de amor, paixões arrebatadoras e as tragédias que teve como terreno mais fértil; a cidade de Lisboa.

O estilo musical seria a continuação do romanceiro tradicional oriundo de todo o território português, herdeiro de uma tradição novelesca disseminada através dos músicos ambulantes que eram ouvidos nas ruas, nas tascas e nas casas de prostituição que no decorrer do tempo caem no gosto da aristocracia portuguesa freqüentadora deste ambientes.

Segundo José Alberto Sardinha, jurista português e pesquisador etnográfico:

Este gênero poética-musical foi difundido entre o povo pelos jograis e depois, durante séculos e até aos nossos dias, pelos cegos músicos, os “ceguinhos” da terminologia popular, e pelos músicos ambulantes em geral, que cantavam de terra em terra de feira em feira os mais marcantes sucessos amorosos, dramáticos ou trágicos. O Fado, que não é um fenômeno exclusivamente lisboeta ou coimbrão, teve sua origem nas canções narrativas, herdeiras da tradição romancística, quando, pelos princípios do séc.XIX, os referidos músicos ambulantes passaram a ser ouvidos e apreciados pelos nobres freqüentadores das tabernas e dos prostíbulos e os seus caíram em moda na alta sociedade.(Sardinha 2010:50)

Outra possível origem está ligada a presença moura na cidade de Lisboa, os cânticos mouros possuem em sua composição sofrimento e melancolia presente no fado, está teoria não contém uma base etnomusical para se calcar, sendo considerada ingênua e improvável.

A teoria que vamos seguir para desenvolver o seu contexto histórico está baseada na origem brasileira do fado que possui ampla aceitação e embasamento documental que remonta as primeiras notícias sobre o gênero,segundo o musicólogo e historiador brasileiro José Ramos Tinhorão, surgiu no Brasil como dança buliçosa no período em que a família Real Portuguesa mudará a sede do reino durante as invasões napoleônicas.

A afirmação que o fado nasceu no Brasil baseia-se em dois aspectos basicamente: a anterioridade de notícias do estilo, primeiramente no Brasil e posteriormente em Portugal; e as semelhanças entre o bailar do fado e a dança do Lundum , dança dos negros. Assim está em “Cartas Chilenas”, de Tomás Antônio Gonzaga:

A ligeira mulata, em trajes de homens,

Dança o quente lundu e o vil batuque,

E, aos cantos do passeio, inda se fazem

Ações mais feias, que a modéstia oculta. (Gonzaga 2006:98)

Segundo José Ramos Tinhorão:

A dança,rica de movimentos subordinados à alternância dos cantos do tocador de viola e coro de participantes, chamada fado, apareceu no Rio de Janeiro dos fins do século XVIII como uma espécie de apropriação definitiva, por parte dos brancos da colônia, do que genericamente se considerava dança de negros .

Pelo que indicam as descrições de contemporâneos, a nova dança constituiria, no geral, uma fusão das anteriores danças do fandango, da fofa e do lundum-cuja umbigada ostensiva mantinha-, mas acrescentando pormenores indicadores da maior participação da gente branca.(Tinhorão 1994:42)

O autor através de fontes históricas baseadas em relatos de viajantes estrangeiros compilou relatos que demonstram a existência de uma dança chamada fado em terras brasílicas; em 1817-8, a referência no livro Voyage autour Du monde do viajante francês Louis Freycinet em que cita “los fados” como uma dança lasciva do populacho;

1819, o Poeta Falmeno menciona “os bailes do fado”;

1825, o alemão Karl Schlichthorst do Exército Imperial brasileiro, relata a passagem em que uma negra de ganho dispõe se a dançar o fado;

1827, o alemão Johann Von Weech, durante sua estádia no Rio de Janeiro menciona o fado no rol de danças brasileiras.

1854, na obra “Memória de um Sargento de Milícias” a relato sobre bailar o fado nos tempos do rei.

Se no meio da algazarra de um fado rigoroso, em que a decência e os ouvidos dos vizinhos não eram muito respeitados..

Todos sabem o que é fado, essa dança tão voluptuosa, tão variada, que parece filha do mais apurado estudo da arte. Uma simples viola serve melhor do que instrumento algum para o efeito.

O fado tem diversas formas, cada qual mais original. Ora, uma só pessoa, homem ou

mulher, dança no meio da casa por algum tempo, fazendo passos os mais dificultosos, tomando as mais airosas posições, acompanhando tudo isso com estalos que dá com os dedos, e vai depois pouco e pouco aproximando-se de qualquer que lhe agrada; faz-lhe diante algumas negaças e viravoltas, e finalmente bate palmas, o que quer dizer que a escolheu para substituir o seu lugar.

Assim corre a roda toda até que todos tenham dançado.

Outras vezes um homem e uma mulher dançam juntos; seguindo com a maior certeza o

compasso da música, ora acompanham-se a passos lentos, ora apressados, depois repelem-se, depois juntam-se; o homem às vezes busca a mulher com passos ligeiros, enquanto ela, fazendo um pequeno movimento com o corpo e com os braços, recua vagarosamente, outras vezes é ela quem procura o homem, que recua por seu turno, até que enfim acompanham-se de novo.

Há também a roda em que dançam muitas pessoas, interrompendo certos compassos com palmas e com um sapateado às vezes estrondoso e prolongado, às vezes mais brando e mais

breve, porém sempre igual e a um só tempo. (Almeida 1985:108)

Ambiente do Brasil-Colônia, a dança do lundu,1835.Johann Moritz Rugendas.

No decorrer da obra encontramos repetidamente a palavra “fado” para designar canto e dança o que suscitou nas falas de Mário de Andrade sobre a hipótese de o fado português ter origem no Brasil, em sua obra Pequena História da Música, “O fado (inicialmente dançado):danças que nem a roda,infantil;danças iberas que nem o fandango;danças dramáticas que nem os Reisados, os Pastoris, a Marujada, a Chegança, que às vezes são verdadeiros autos.” (Andrade 1977:185)

A transformação do fado dançado para o fado cantado ocorreu a partir do momento em que o estilo atravessa o mar e chega a Lisboa com a raia miúda composta de personagens de péssima conduta, segundo Tinhorão, o elemento desencadeador para o fado canção lisboeta seria à desgarrada que propicia os improvisos em quadras e os desafios.

Outro autor que defende a teoria da origem do fado estar em Terras de Vera Cruz e o musicólogo português Rui Vieira Nery em sua obra mais recente Para uma História do Fado compartilha em vários pontos da opinião de José Ramos Tinhorão tendo apenas alguns pontos de discordância.

Vieira Nery também sustenta que o fado nasceu no Brasil como dança, fruto de um processo multicultural que mesclou elementos africanos, europeus e brasileiros e chegou a Lisboa ainda como dança e sofreu modificações até se transformar em canção e assimilar as várias culturas que pairavam no universo lisboeta no século XIX criando uma nova síntese cultural.

Para Nery o fado dançado em Lisboa possui similitude ao dançado no Brasil, considera que várias representações coreográficas no fado-dança lisboeta foram imitações do brasileiro. Com relação ao fado cantado o autor liga sua origem ao fado dançado que as primeiras notícias estão em terras brasileiras e segundo ele outro fato que corrobora para sustentar a teoria de origem do fado em Terras de Vera Cruz e a presença de gêneros musicais afro brasileiros em Portugal amplamente documentado como no caso da fofa e o lundum que demonstra as práticas culturais intercruzadas entre a África, Brasil e Portugal

Do contexto das múltiplas danças de terreiro de negros e mulatos que abundavam por todo o Brasil ao longo do século XVIII, cruzando matrizes africanas e européias, emerge o Fado, que por sua vez penetra gradualmente nos salões domésticos e nos palcos de teatro das grandes cidades brasileiras já nas primeiras décadas do século XIX, a exemplo do que anteriormente sucedera com outra canção dançada com a mesma raiz. (Nery 2004: 49)

A teoria brasilianista defendida por José Ramos Tinhorão e Rui Vieira Nery para a origem do fado como dança derivada do lundum e levada a Portugal com o retorno da família Real e seus súditos incorporando se nos bairros menos abastados de Lisboa e ganhando novas referências e transformando se em música ícone dos lisboetas.

Nos próximos textos buscaremos esmiuçar os muitos aspectos que levaram a teoria brasilianista a ser amplamente aceita nos meios acadêmicos e culturais. Agradeço à todos pela atenção. Fabiana Moutinho

 

Bibliografia:

Nery, R. V (2004): Para uma História do Fado. Lisboa: Público.)

Sardinha, J. A (2010):A Origem do fado. Vila Verde: Tradisom.

SOARES, C. E (2001): A capoeira escrava e outras tradições rebeldes no Rio de Janeiro (1808-1850). São Paulo: Unicamp.

Tinhorão, J. R (1994):Fado,Dança do Brasil,Cantar de Lisboa-o fim de um mito. Lisboa: Caminho.

_______ (2008): Os sons dos negros no Brasil(Cantos,danças,folguedos:origens). São Paulo: Editora 34.

 

Por Fabiana Moutinho
Historiadora em texto para o Blog da Escola Online Canal GP (Guitarra Portuguesa)



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