Os países membros do Mercosul e dos
Estados Associados pretendem enviar ao Parlamento Europeu
documento comum de repúdio às novas regras de imigração européias,
aprovadas no mês de junho. A declaração vem sendo articulada entre
as chancelarias durante a 35ª Cúpula de Chefes de Estado, que dia
1º de julho reuniu dez líderes sul-americanos na cidade argentina
de San Miguel de Tucumán.
A nova diretiva européia gerou protestos
em toda a América do Sul. O governo brasileiro divulgou nota
afirmando que as novas regras "contribuem para criar percepção
negativa da migração e vai no sentido contrário ao de uma desejada
redução de entraves à livre circulação de pessoas e de um mais
amplo e pleno convívio entre os povos".
O Paraguai é um dos países mais
preocupados com o endurecimento das normas de tratamento a
imigrantes ilegais. As remessas de paraguaios que vivem no
exterior são a segunda maior fonte de ingressos do país, atrás
apenas da produção de soja. Na Bolívia, as remessas representam
10% do produto Interno Bruto: US$ 1,1 bilhão, um terço das
exportações bolivianas de gás.
O presidente do Equador, Rafael Correa,
definiu a chamada Lei de Retorno como "diretriz da vergonha". O
venezuelano Hugo Chávez ameaçou com a possibilidade de represálias
a empresas européias instaladas na Venezuela. O presidente da
Comissão de representantes Permanentes do Mercosul (CRPM), Chacho
Alvarez, avaliou as normas de imigração como violatórias dos
direitos humanos básicos e as definiu como repressivas e
discriminatórias.
Peru, Colômbia e Equador chegaram a enviar
uma carta à União Européia pedindo uma "reflexão conjunta" sobre a
questão dos imigrantes. E a Argentina - como presidente
pro-tempore do Mercosul - divulgou nota conjunta em que lamenta a
aprovação da nova lei de imigração européia. No comunicado,
Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai, Venezuela, Bolívia, Chile,
Colômbia, Equador e Peru reafirmam seu compromisso com o respeito
aos direitos humanos e destacam a necessidade de que se reconheça
o principio de co-responsabilidade entre os países de origem,
trânsito e destino dos fluxos migratórios.
A chamada Lei de Retorno harmoniza
procedimentos referentes à deportação de imigrantes ilegais e
estabelece regras mais rígidas. A partir de 2010, o estrangeiro
que se encontrar em situação irregular em qualquer país membro da
União Européia terá entre sete e 30 dias para voltar a seu país de
origem, independentemente do tempo em que esteja na Europa e da
situação familiar. Caso não deixe o país no período previsto, o
imigrante estará sujeito a detenção por até seis meses,
prorrogáveis por mais 12 meses em casos excepcionais. Os
deportados não poderão retornar à UE durante cinco anos. Segundo
estimativas da Comissão Européia, há oito milhões de imigrantes
ilegais na região.
Só vinga por consenso
Para o vice-ministro português da Administração Interna, o Pacto
para a Imigração, proposto pela presidência francesa da UE, só
será um sucesso se reunir um “consenso total” entre os 27
Estados-membros. "O pacto só será um sucesso se for a bandeira
comum de todos os Estados-membros, e por isso mesmo o texto ainda
não está fechado, está a ser discutido entre nós, para que reflita
estes pontos de vista e possa ser um denominador comum e um
acelerador de políticas definidas em sede própria", afirmou José
Magalhães.
De acordo com ele, o documento já passou
por “sucessivas versões e alterações”. “O pacto é uma declaração
política de alto nível que afirma o compromisso de aplicar
instrumentos que estão em elaboração, ou seja, é algo que se
constrói sobre o trabalho feito”, disse sobre o trabalho
desenvolvido principalmente por Alemanha, Portugal e Eslovênia nos
últimos 18 meses.
Latinos são injustos
O presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso,
considerou "injustas" as críticas da América Latina à nova lei de
repatriação dos imigrantes ilegais da União Européia, defendendo
que se trata de "um progresso" na relação com esses países.
"Honestamente, acho que o criticismo não é
justo", afirmou o presidente do braço executivo europeu,
sustentando que a chamada "diretiva do retorno" é "um progresso
até do ponto de vista da América Latina", pois a UE está dando a
seus parceiros, incluindo à América Latina, "regras claras".
Hoje existem muitos regimes diferentes em
vigor na Europa e a nova lei fixa limites de rigidez, como o prazo
máximo de detenção de imigrantes ilegais com processo de
repatriação, mas permite que países com leis mais brandas as
mantenham.
Para o presidente da Comissão Européia
disse ainda que "é importante lembrar" que as novas regras de
imigração da UE são, de forma geral, "mais generosas" do que as
que existem entre os próprios países latino-americanos, apontando
como exemplo o que acontece entre Colômbia e Venezuela e entre
Bolívia e Colômbia.
Com agencias