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Sexta-feira | 20 JUN 08

Especial Entrevista
“O Brasil é uma potência cultural” afirma Ministro da Cultura de Portugal

Países de Língua Portuguesa querem uma promoção da língua comum em todas as diásporas lusófonas. No intercâmbio com um grande “centro cultural”, São Paulo, o ministro citou a exposição de José Saramago que vai chegar na cidade, em entrevista ao Mundo Lusíada.

Por Odair Sene
Mundo Lusíada

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>> Ministro da Cultura de Portugal, José Antonio Pinto Ribeiro em São Paulo.

Para o Ministro da Cultura de Portugal, José Antonio Pinto Ribeiro, Brasil tem um papel fundamental para os propósitos comuns da Língua Portuguesa nos países lusófonos. Em visita a São Paulo, o ministro afirmou que o Brasil é hoje uma “potência mundial”, um país que muito se valorizou nos últimos anos, e que tem um papel importante no que diz respeito à cultura lusófona no mundo.

“O Brasil de hoje não é o Brasil de 10, 20 ou 40 anos. Ele tem uma situação econômica ímpar, estável, não tem dívida. Aquilo que o Brasil tem, faz e exporta, dos aviões da Embraer até a soja, ao petróleo ou ao suco de laranja, tudo isso tem extraordinariamente valorizado” defende. “Portanto o Brasil transformou-se numa potência regional e mundial”.

Segundo o ministro, estas diferenças podem ser vistas por quem regularmente visita o país, citando ainda o “grande esforço” brasileiro na criação de condições sociais para o desenvolvimento econômico e social. “O Brasil, simultaneamente, descobre-se e percebe-se uma potência mundial e cultural também”, disse o Ministro da Cultura, exemplificando com a qualidade as orquestras sinfônicas, como a de São Paulo, e a divulgação da língua portuguesa do “samba à bossa nova”. “Tudo isso afirma o Brasil como potência cultural”.

Unir a diáspora pela Língua
A mais recente cimeira realizada em Lisboa, dia 24, pela CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), trouxe como tema a Língua Portuguesa. Em uma iniciativa do ministro brasileiro Gilberto Gil, um estudo sobre o idioma com os países da CPLP aponta seu valor econômico, e também esteve sendo abordado durante a cimeira.

Um dos projetos para a promoção da língua em discussão é a união, em todas as diásporas lusófonas, do ensino e aprofundamento do português. “Temos muitas centenas de milhares de descendentes de português na Venezuela, mas o Brasil tem muitas pessoas em Massachusetts e New Ingland, o Brasil tem muita gente na Flórida e Califórnia, muitos brasileiros no Japão que estão lá só falam o português, estão lá para ver se prendem japonês. Há muitos caboverdianos que estão na Holanda, há muitos portugueses em Paris, Londres. Há muitas diásporas, unir estas diásporas, consolidá-los como alguém que pensa numa forma específica” é objetivo, disse.

O projeto é complexo, mas segundo o ministro, possível. “Na nossa vida, devemos fazer as coisas bem, e quem vier atrás de nós que continue. Aquilo que fizermos, se fizermos bem, fica. O nosso objetivo é fazer com paixão e deixar uma cicatriz no mundo” sustentou. “Aquilo que eu gostaria de ajudar a fazer é percebermos o que de extraordinário e específico tem falarmos e pensarmos em português. Somos diferentes dos alemães, ingleses, franceses, chineses, russos, americanos. E esta maneira de falar que nos une, e faz do Brasil este país extraordinário”.

O Ministro falou ainda sobre o recém lançado Fundo para Promoção e Aprofundamento da Língua Portuguesa no Estrangeiro. Dedicado aos países em via de desenvolvimento, tem objetivo de transformar o idioma português numa língua técnica, de aprendizagem, da comunicação e progressivamente, possa “transformar-se na língua mãe”.

“Quando nós aprendemos a falar numa língua local, e essa língua não tem livros, não tem expressão escrita, quando a pessoa começa a procurar outros conhecimentos além daquele que está muito próximo de si, o conhecimento das coisas muito materiais, não há maneiras de voar mais longe. Se nessa língua não existe a Bíblia, Os Lusíadas, Shakespeare, ou tudo aquilo através do que nos tornamos pessoas mais merecedoras, mais capazes de resolver os problemas, estas pessoas ficam nessas situações mais ou menos analfabetas”.

Defendendo a necessidade de difusão de uma maneira de aprender o português nos países lusófonos, Pinto Ribeiro falou da possibilidade de se fazer “tudo” em português. “Dá para namorarmos, dá para fazermos negócio, para viajar, se comunicar, dar e obter ordem, dá para fazermos tudo”.

SP: Centro Econômico
José Antonio Pinto Ribeiro, afirmando que sua visita à São Paulo foi muito positiva, disse que o intercâmbio com São Paulo pode ser muito amplo. “É um centro economicamente muito importante, mas culturalmente muito forte e ativo. É possível fazer muitas coisas e intercâmbios culturais”.

Entre os projetos citados pelo ministro, está a exposição de José Saramago em São Paulo. Ainda sem data definida, será montada em parceria com a Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo e o Instituto Tomie Ohtake. “Queremos mandar para cá jovens artistas, e tenho tido contato para que estreitem estas relações culturais e de língua, para que não seja só de vez em quando”.

Na visão de Ribeiro, o multicultural Brasil foi colonizado pelos portugueses tão quanto por outros povos imigrantes, como japoneses, alemães ou italianos. “Nós temos que perceber que os portugueses não colonizaram o Brasil, fizeram o Brasil. E cá ficaram, não foram embora. Por acaso, havia cá poucas pessoas que eram índios, que os trataram muitas vezes mal, outras melhor, alguns até defenderam que não os tratassem mal como o Pe. Antonio Vieira, cujo os 400 anos este ano se celebram”.

Para ele, o país é feito sobretudo pelos portugueses por causa da língua, o que sustenta Brasil e Portugal serem países-irmão. “Se aqui se falasse espanhol ou inglês, não teríamos a relação fraterna que temos. Somos iguais mesmo sendo diferentes”.

Em passagem por São Paulo para assinalar o Dia de Portugal, Camões e das Comunidades Portuguesas, o ministro manteve encontros com autoridades locais, entre eles com o secretário de Cultura do Estado de São Paulo, João Sayad. Participou ainda de ato cívico no Clube Português, e uma recepção no Consulado de Portugal em São Paulo.

 

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