Durante uma curta visita ao Brasil, o
presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso,
defendeu, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a
necessidade de atuação conjunta em questões de interesse global.
Estão entre elas as negociações por um regime pós Protocolo de
Quioto, com novas metas de redução de emissões de gases causadores
de efeito estufa. Para Barroso, nesse contexto, ganha especial
relevância o estabelecimento de um mercado global para os
biocombustíveis.
“Com o papel de liderança do Brasil na
questão dos biocombustíveis, estamos trabalhando juntos para
garantir que os biocombustíveis serão sustentáveis, serão bons
para o ambiente, serão bons para reduzir os gases com efeito
estufa e, portanto, para garantir a qualidade de vida do nosso
planeta”.
Segundo Durão Barroso, o Brasil e a União
Européia podem, além de aprofundar o diálogo sobre questões de
interesse comum, dar uma contribuição para resolver problemas
globais. “Se juntarmos o Brasil e a UE, podemos fazer grandes
coisas juntos. Por exemplo, contribuir para o sucesso da rodada de
Doha. Nós acreditamos que é possível, se todos fizermos um esforço
para isso”.
Sobre a crise entre Brasil e Espanha
provocada pelas repatriações de cidadãos, apenas Lula se
pronunciou, limitando-se a dizer que a questão é tratada
bilateralmente, sem fazer qualquer referência à Convenção de
Schengen (espaço europeu de direito e de livre circulação).
“Estamos tratando a questão da imigração com a Espanha. Durão
Barroso já nos ajudou muito quando tivemos problemas com Portugal
e agora nós temos de tratar diretamente com a Espanha, que é onde
o problema está mais grave”, disse Lula, acrescentando que “estas
coisas serão resolvidas logo, logo”.
Além desta questão, Lula e Durão Barroso
também não mencionaram o embargo europeu à carne brasileira. O
assunto não consta na declaração conjunta divulgada ao final do
encontro, os dois mandatários apenas saudaram a instalação do
Mecanismo de Consultas sobre Questões Sanitárias e Fitossanitárias,
que em breve iniciará suas atividades de consulta e coordenação
entre o Brasil e a Comissão Européia.
A retomada das negociações de um Tratado
de Livre Comércio entre Mercosul e União Européia, outro tema que
interessa aos dois presidentes, também foi tratada na reunião do
dia 19 de março. “A discussão que estamos fazendo sobre a questão
da parceria União Européia e Mercosul é uma coisa para nós
extremamente importante, e temos trabalhado nesse sentido”, disse
Lula.
Na declaração conjunta, os dois
mandatários também reiteraram o interesse em dinamizar a
cooperação no campo da navegação e observação por satélite e de
pesquisa em energia de fusão nuclear e mencionam a possibilidade
de cooperação entre o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES) e o Banco Europeu de Investimento (BEI), em
especial na área da mitigação dos efeitos da mudança do clima e no
financiamento do projeto brasileiro de trem de alta velocidade.
Antes do encontro entre Lula e Durão
Barroso, manifestantes do Greenpeace, empunhando cartazes,
protestaram à frente do Palácio do Itamaraty, sede do Ministério
das Relações Exteriores, contra o desmatamento da Amazônia. Os
ambientalistas acusaram a União Européia de ser co-responsável
pela destruição da Amazônia por importar a madeira da região sem
possuir um sistema de verificação de origem do produto.
Durante a visita oficial ao Brasil, o
presidente da Comissão Européia participou, dia 17 de março em São
Paulo, da abertura da conferência “O euro: implicações globais e
importância para a América Latina” e recebeu o título de “doutor
honoris causa” da Pontifícia Universidade Católica. A visita de
Durão Barroso ao Brasil serviu também de preparação para a 2ª
cúpula UE-Brasil, que acontece em dezembro em território
brasileiro, já que Brasil e União Européia pretendem aprofundar a
parceria estratégica firmada em julho do ano passado. De Brasília,
Durão Barroso seguiu para o Rio de Janeiro, onde participou de um
jantar de comemoração aos 200 anos da chegada da família real
portuguesa ao Brasil.
200 Anos: Globalização e diversidade
O presidente da Comissão Européia (braço executivo da UE), José
Manuel Durão Barroso, afirmou no Rio de Janeiro que o fenômeno da
globalização não ameaça a diversidade cultural dos povos. “O
Brasil é a prova cabal de que a globalização não é sinônimo de
uniformização, nem um rolo compressor da diversidade cultural”,
disse, durante jantar na Academia Brasileira de Letras (ABL), em
comemoração aos 200 anos da chegada da família real portuguesa.
“O Rio de Janeiro de D. João VI e sua
corte, microcosmo da globalização, foi o terreno fértil onde se
gerou a identidade e a nacionalidade brasileiras, fruto de um
intenso diálogo entre culturas”, acredita o líder europeu,
sublinhando que falava a “título pessoal, não como presidente da
Comissão Européia”.
Durão Barroso afirmou que D. João VI
simbolizou a “visão globalizante de um rei que deixou marcas
profundas no Brasil e na sua cultura”. “A nova condição de sede do
império português e a abertura dos portos transformou a grande
aldeia tropical do Rio de Janeiro em uma cidade cosmopolita e em
um grande centro populacional, onde se concentravam representantes
estrangeiros, comerciantes, viajantes, artistas e estudiosos
europeus”, lembrou.
Barroso ainda saudou a “feliz
coincidência” da comemoração sobre a chegada da corte estar sendo
feita no Ano Europeu do Diálogo Intercultural. Citando parcerias e
objetivos comuns entre o bloco europeu e o Brasil, o presidente da
comissão discursou sobre a “unidade política e proximidade física
e cultural estabelecida por D. João VI entre os dois lados do
Atlântico”, concluindo que “a globalização faz da cultura um dos
motores das relações internacionais e um vetor de difusão dos
valores que ela veicula”.
Boicote: Jogos de Pequim
Diante de uma hipótese de boicote aos Jogos Olímpicos de Pequim,
por conta do atual conflito entre a China e o Tibete, o presidente
da Comissão Européia apelou aos 27 países europeus que definam uma
“posição conjunta” em relação aos jogos. “Não estamos de forma
alguma seguros que qualquer eventual boicote levasse a um maior
respeito pela lei da China ou no Tibete”, afirmou José Manuel
Durão Barroso, após a cerimônia em que se tornou confrade da
Academia Portuguesa de História.
Barroso disse estar “muito preocupado” com
a situação de conflito que se vive entre a China e o território do
Tibete, apelando “a todas as partes envolvidas para que terminem
com a violência”. Segundo afirmou, “os Jogos Olímpicos não são um
acontecimento político, mas sim um grande evento desportivo e
humano”, em relação ao qual “não se podem defraudar as hipóteses
dos jovens atletas”. Os Jogos Olímpicos de Pequim acontecem entre
8 e 24 de agosto. Com Agencias.