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Quarta-feira | 02 ABR 08

"Mais cedo do que mais tarde"
Portugal critica UE por demora em assumir questão de Kosovo

Da Lusa.pt

O ministro português das Relações Exteriores, Luís Amado, acusou a União Européia (UE) de irresponsabilidade na condução do processo de Kosovo e apontou a necessidade de, "mais cedo do que mais tarde", fazer a questão voltar ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, trabalhando com a Rússia e outros membros um enquadramento da situação.

Em um almoço-debate sobre política externa, Amado afirmou que a declaração unilateral de independência de Kosovo foi uma ruptura do sistema internacional, voltando a defender que a posição portuguesa deve ser anunciada sem precipitação.

"O efeito de precedente não depende de Portugal reconhecer ou não. O precedente está criado, pela violação dos princípios da lei internacional e pela questão das minorias", disse o ministro, acrescentando que, "quanto mais a UE se envolver, enquanto UE, no enquadramento, tratando-o como um caso sui generis, mais terá controle sobre os efeitos colaterais".

O ministro luso considerou que, até junho de 2007, a UE estava "irresponsavelmente" empurrando a responsabilidade sobre os Bálcãs Ocidentais - em particular sobre Kosovo - para o grupo de contato formado por Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido e Itália, "sem nenhuma iniciativa que desse rosto a uma política européia".

O Plano Ahtissari, do enviado especial da ONU ao território, que previa uma "independência vigiada", foi endossado por duas vezes pelos membros da UE, mas "não houve reflexão nem debate", "porque se acreditava que seria apoiado pela ONU" e que "a 'digestão' do processo ia se fazendo ao ritmo da integração daqueles Estados à UE".

Amado considerou, por outro lado, que "o papel construtivo que se esperava do secretário-geral da ONU na relação com a Eulex [missão européia em Kosovo] parece que não vai ser assim" e que uma transmissão fácil e eficaz de competências e poderes da Unmik [missão da ONU] para a Eulex "não está assegurada".

O nível relativamente baixo de incidentes registrados em Kosovo, pelo menos em relação ao que era esperado, deve-se muito, na opinião do ministro, à postura sérvia, que "tem favorecido o diálogo político" em consonância com "uma preocupação de não alimentar uma fogueira cujas labaredas se refletirão na estabilidade da Sérvia".

Posição lusa
Sobre um pronunciamento de Portugal em relação à independência, Luís Amado reiterou que "o governo tem uma posição", mas só vai anunciá-la no momento que entender, definindo como condições a coerência com as posições já assumidas pelo governo e a obtenção
do maior consenso possível no espectro político português.

Sobre a primeira condição, o ministro mencionou a orientação dada à questão pela Presidência portuguesa, que acabou por vingar com a decisão de criar a Eulex. Portugal considera que "a paz em Kosovo é vital para a paz na Europa", sendo indispensáveis unidade e flexibilidade, ou seja, uma plataforma de interesse estratégico comum e uma decisão soberana de cada Estado.

"O governo não pode enjeitar esses acordos", disse, acrescentando que a UE vai ter que "trabalhar a reconfiguração do quadro jurídico que sustenta a Eulex", o que traria a necessidade de diálogo com a Rússia.

Luís Amado repetiu ainda que, tanto quanto possível, "a política externa [portuguesa] deve ser sustentada em um consenso" e que, não tendo visto no Parlamento português "uma franca abertura para um reconhecimento imediato", considera útil adiar o pronunciamento sobre a independência.

Segundo o ministro, o adiamento desse pronunciamento contribui ainda para o diálogo com a Sérvia. "Os setores moderados [sérvios] têm mais facilidade para trabalhar se tiverem o conforto de algumas pontes com a UE", acredita.

 

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