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Pedro Sá da
Bandeira/Lusa

VISITA >> O Presidente da República de Portugal,
Aníbal Cavaco Silva, com o Presidente do Parlamento
Moçambicano, Eduardo Mulembué, durante a visita que o Chefe de
Estado Português efetuo ao Parlamento Moçambicano, 25 de Março
de 2008, em Maputo. |
Durante visita oficial a Moçambique, o
Presidente português Cavaco Silva defendeu que o patrimônio
histórico construído por Portugal disperso pelo mundo, caso da
Ilha de Moçambique, seja encarado como "um símbolo de aproximação
entre portugueses e outras culturas".
"Há um património construído por esse
mundo fora, de raiz portuguesa, mas que hoje é visto como símbolo
de aproximação entre portugueses e outras culturas. E é assim que
deve ser", disse o chefe de Estado luso durante uma visita à Ilha
de Moçambique, norte do país, no terceiro e último dia da sua
visita.
Na ilha Patrimônio da Humanidade, refúgio
das caravelas portuguesas que faziam a rota das especiarias e um
dos projetos principais da cooperação portuguesa com Moçambique
para o triénio 2007-2009, Cavaco Silva elogiou a articulação entre
as autoridades portuguesas e moçambicanas para a reabilitação do
patrimônio edificado.
"A cooperação deve fazer-se com as
autoridades locais, neste caso com o Governo de Moçambique, com as
autoridades provinciais, e pensar de uma forma integrada. Não
apenas a recuperação do patrimônio pelo patrimônio, mas
recuperação a serviço das populações", observou.
Cavaco Silva subscreveu ainda a idéia que
considerou "totalmente correta" de criar condições para a atração
da população excedentária da Ilha de Moçambique (com uma área de 1
km2, a ilha tem 16 mil habitantes) para uma vila próxima da cidade
insular.
"Parece-me totalmente correta a idéia de
desenvolver o Lumbo aqui ao lado, de forma a criar oportunidades
de emprego e incentivos para que o excesso de população, que neste
momento está aqui na ilha e dificulta fazer dela uma atração
turística, possa deslocar-se para a chamada vila do Milênio.
Parece-me bem concebido o projeto", comentou.
O chefe de Estado português manifestou-se
convicto no sucesso do projeto em que a cooperação portuguesa está
envolvida de reabilitação e requalificação Ilha de Moçambique, mas
chamou a atenção para a necessidade de "mobilizar apoios
acrescidos".
"Temos que fazer um esforço adicional para
mobilizar apoios acrescidos. Não é só Portugal que está aqui. Está
também a UNESCO, as Nações Unidas e o Japão. E foi muito
importante que elementos da sociedade civil, neste caso
instituições bancárias, tenham decidido contribuir com 200 mil
dólares (133 mil euros). É um sinal que, espero, possa ser seguido
por outras empresas portuguesas ou luso-moçambicanas, porque a
recuperação deste símbolo da proximidade histórica entre Portugal
e Moçambique tem um valor para os nossos dois países", disse.
O exemplo pretendido por Cavaco Silva
esteve patente numa cerimônia que decorreu no principal hotel da
ilha, na qual representantes do Banco Comercial Português e da
Caixa Geral de Depósitos formalizaram a entrega de dois cheques,
no valor de 100 mil dólares (63 mil euros) cada um, para a
recuperação dos estragos feitos pela recente passagem pela ilha
do ciclone "Jokwe".
Ainda, o secretário de Estado dos Negócios
Estrangeiros português, João Gomes Cravinho, anunciou o lançamento
de um programa de dois anos, com uma verba de um milhão e 500 mil
dólares (950 mil euros) disponibilizada através da agência das
Nações Unidas para o desenvolvimento industrial (UNIDO), para
apoio a pequenas e médias empresas e criação de empregos. Ao mesmo
tempo, anunciou o apoio de Portugal à construção de uma conduta de
16 km para o transporte de água potável até à vila do Lumbo.
Na apresentação do projeto de criação de
um "cluster da Ilha de Moçambique", um potencial pólo de
desenvolvimento para todo o norte do país", João Gomes Cravinho
explicou que o objetivo é "colocar as potencialidades" da ilha a
"funcionar de acordo com um plano integrado e com uma lógica
comum" e "de acordo com as prioridades definidas pelas autoridades
moçambicanas".
O objetivo do programa, avaliado em um
milhão e 750 mil euros para os próximos cinco anos, acabaria por
ser sintetizado nas palavras da coordenadora moçambicana do
programa vilas do milénio: "A ilha necessita de um programa que
crie uma atracção para o continente, para transformarmos a ilha
atractiva para o turismo".
Mas a apresentação do projeto integrado
para a recuperação da ilha foi apenas um "parêntesis" na visita de
Cavaco Silva ao histórico entreposto marítimo em pleno oceano
Índico, declarado em 1991 Património da Humanidade pela UNESCO.
Viagem Oficial
Na sua primeira visita à minúscula ilha, onde chegou num avião
Hércules C-130 da Força Aérea Portuguesa, Cavaco atravessou a
ponte estreita de 3km que lhe dá acesso e foi recebido à chegada
por grupos de mulheres de trajes tradicionais, que dançavam e
cantavam agitando bandeiras portuguesas e moçambicanas.
"Bem-vindo pai Aníbal", entoavam
repetidamente as mulheres trajadas de cores garridas, para um
Cavaco Silva sorridente e informal, em camisa, calças bege e
óculos escuros, que ia acenando e cumprimentando em todas as
direções, sempre com Maria Cavaco Silva ao lado.
No extremo oposto da ilha, sob um sol
inclemente e um calor tórrido, o chefe de Estado efectuou uma
visita relâmpago à fortaleza de São Sebastião, mandada construir
no século XVI por D.João III, onde estiveram Vasco da Gama e o
poeta Camões, e ouviu os relatos dos vários ataques de armadas
holandesas a que a fortificação portuguesa resistiu.
"Mas esta fortaleza nunca foi tomada?",
questionou Cavaco Silva, que haveria de exclamar mais tarde: "Não
podemos deixar de ficar impressionados quando vemos que os
portugueses do século XVI construíram uma fortaleza que resiste
até aos tempos de hoje". Em seguida, o Presidente português
visitou o Museu de São Paulo, outrora um colégio jesuíta, depois
residência de governadores, onde a primeira dama, Maria Cavaco
Silva, foi totalmente coberta por uma indumentária tradicional, de
panos amarelos com motivos tipicamente africanos - "Fica muito
bonita", exclamou, a seu lado, Cavaco Silva.
Antes de regressar a Maputo, o chefe de
Estado português homenageou uma das mais antigas famílias de
empresários portugueses ainda presentes em Moçambique,
condecorando o empresário João Ferreira dos Santos com a comenda
da Ordem do Infante Dom Henrique. "É um exemplo da presença
centenária de Portugal em Moçambique e um exemplo da proximidade
entre os nossos dois países", enfatizou.
Não longe, junto a um grupo de crianças de
roupas esfarrapadas que jogavam à bola e lhe pediam que trouxesse
o jogador Cristiano Ronaldo à ilha, estava o treinador de futebol
português Carlos Queirós, que nasceu em Nampula, no norte de
Moçambique, e passou muitos anos na Ilha de Moçambique.
"É com algum desgosto que vejo a ilha
neste estado de degradação. Temos essa dor há muito tempo. Mas
agora há que olhar para a frente e acreditar que com Portugal a
apoiar agora firmemente e de forma determinada seja possível
recuperar isto", comentou, lembrando as "muito boas memórias" que
tem da ilha.
Um desejo partilhado por muitos, a que
Cavaco Silva deu corpo com uma evocação da epopéia marítima
portuguesa: "chegados aqui, tinha sido vencido o Adamastor e as
outras dificuldades e o caminho das especiarias estava aberto".