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Quinta-feira | 27 MAR 08

Moçambique
Patrimônio português no mundo deve ser "símbolo de aproximação" entre culturas, diz Cavaco

Da Redação
Com Lusa.pt

Pedro Sá da Bandeira/Lusa

VISITA >> O Presidente da República de Portugal, Aníbal Cavaco Silva, com o Presidente do Parlamento Moçambicano, Eduardo Mulembué, durante a visita que o Chefe de Estado Português efetuo ao Parlamento Moçambicano, 25 de Março de 2008, em Maputo.

Durante visita oficial a Moçambique, o Presidente português Cavaco Silva defendeu que o patrimônio histórico construído por Portugal disperso pelo mundo, caso da Ilha de Moçambique, seja encarado como "um símbolo de aproximação entre portugueses e outras culturas".

"Há um património construído por esse mundo fora, de raiz portuguesa, mas que hoje é visto como símbolo de aproximação entre portugueses e outras culturas. E é assim que deve ser", disse o chefe de Estado luso durante uma visita à Ilha de Moçambique, norte do país, no terceiro e último dia da sua visita.

Na ilha Patrimônio da Humanidade, refúgio das caravelas portuguesas que faziam a rota das especiarias e um dos projetos principais da cooperação portuguesa com Moçambique para o triénio 2007-2009, Cavaco Silva elogiou a articulação entre as autoridades portuguesas e moçambicanas para a reabilitação do patrimônio edificado.

"A cooperação deve fazer-se com as autoridades locais, neste caso com o Governo de Moçambique, com as autoridades provinciais, e pensar de uma forma integrada. Não apenas a recuperação do patrimônio pelo patrimônio, mas recuperação a serviço das populações", observou.

Cavaco Silva subscreveu ainda a idéia que considerou "totalmente correta" de criar condições para a atração da população excedentária da Ilha de Moçambique (com uma área de 1 km2, a ilha tem 16 mil habitantes) para uma vila próxima da cidade insular.

"Parece-me totalmente correta a idéia de desenvolver o Lumbo aqui ao lado, de forma a criar oportunidades de emprego e incentivos para que o excesso de população, que neste momento está aqui na ilha e dificulta fazer dela uma atração turística, possa deslocar-se para a chamada vila do Milênio. Parece-me bem concebido o projeto", comentou.

O chefe de Estado português manifestou-se convicto no sucesso do projeto em que a cooperação portuguesa está envolvida de reabilitação e requalificação Ilha de Moçambique, mas chamou a atenção para a necessidade de "mobilizar apoios acrescidos".

"Temos que fazer um esforço adicional para mobilizar apoios acrescidos. Não é só Portugal que está aqui. Está também a UNESCO, as Nações Unidas e o Japão. E foi muito importante que elementos da sociedade civil, neste caso instituições bancárias, tenham decidido contribuir com 200 mil dólares (133 mil euros). É um sinal que, espero, possa ser seguido por outras empresas portuguesas ou luso-moçambicanas, porque a recuperação deste símbolo da proximidade histórica entre Portugal e Moçambique tem um valor para os nossos dois países", disse.

O exemplo pretendido por Cavaco Silva esteve patente numa cerimônia que decorreu no principal hotel da ilha, na qual representantes do Banco Comercial Português e da Caixa Geral de Depósitos formalizaram a entrega de dois cheques, no valor de 100 mil dólares (63 mil euros) cada um, para a recuperação dos estragos feitos pela recente passagem pela ilha
do ciclone "Jokwe".

Ainda, o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros português, João Gomes Cravinho, anunciou o lançamento de um programa de dois anos, com uma verba de um milhão e 500 mil dólares (950 mil euros) disponibilizada através da agência das Nações Unidas para o desenvolvimento industrial (UNIDO), para apoio a pequenas e médias empresas e criação de empregos. Ao mesmo tempo, anunciou o apoio de Portugal à construção de uma conduta de 16 km para o transporte de água potável até à vila do Lumbo.

Na apresentação do projeto de criação de um "cluster da Ilha de Moçambique", um potencial pólo de desenvolvimento para todo o norte do país", João Gomes Cravinho explicou que o objetivo é "colocar as potencialidades" da ilha a "funcionar de acordo com um plano integrado e com uma lógica comum" e "de acordo com as prioridades definidas pelas autoridades moçambicanas".

O objetivo do programa, avaliado em um milhão e 750 mil euros para os próximos cinco anos, acabaria por ser sintetizado nas palavras da coordenadora moçambicana do programa vilas do milénio: "A ilha necessita de um programa que crie uma atracção para o continente, para transformarmos a ilha atractiva para o turismo".

Mas a apresentação do projeto integrado para a recuperação da ilha foi apenas um "parêntesis" na visita de Cavaco Silva ao histórico entreposto marítimo em pleno oceano Índico, declarado em 1991 Património da Humanidade pela UNESCO.

Viagem Oficial
Na sua primeira visita à minúscula ilha, onde chegou num avião Hércules C-130 da Força Aérea Portuguesa, Cavaco atravessou a ponte estreita de 3km que lhe dá acesso e foi recebido à chegada por grupos de mulheres de trajes tradicionais, que dançavam e cantavam agitando bandeiras portuguesas e moçambicanas.

"Bem-vindo pai Aníbal", entoavam repetidamente as mulheres trajadas de cores garridas, para um Cavaco Silva sorridente e informal, em camisa, calças bege e óculos escuros, que ia acenando e cumprimentando em todas as direções, sempre com Maria Cavaco Silva ao lado.

No extremo oposto da ilha, sob um sol inclemente e um calor tórrido, o chefe de Estado efectuou uma visita relâmpago à fortaleza de São Sebastião, mandada construir no século XVI por D.João III, onde estiveram Vasco da Gama e o poeta Camões, e ouviu os relatos dos vários ataques de armadas holandesas a que a fortificação portuguesa resistiu.

"Mas esta fortaleza nunca foi tomada?", questionou Cavaco Silva, que haveria de exclamar mais tarde: "Não podemos deixar de ficar impressionados quando vemos que os portugueses do século XVI construíram uma fortaleza que resiste até aos tempos de hoje". Em seguida, o Presidente português visitou o Museu de São Paulo, outrora um colégio jesuíta, depois residência de governadores, onde a primeira dama, Maria Cavaco Silva, foi totalmente coberta por uma indumentária tradicional, de panos amarelos com motivos tipicamente africanos - "Fica muito bonita", exclamou, a seu lado, Cavaco Silva.

Antes de regressar a Maputo, o chefe de Estado português homenageou uma das mais antigas famílias de empresários portugueses ainda presentes em Moçambique, condecorando o empresário João Ferreira dos Santos com a comenda da Ordem do Infante Dom Henrique. "É um exemplo da presença centenária de Portugal em Moçambique e um exemplo da proximidade entre os nossos dois países", enfatizou.

Não longe, junto a um grupo de crianças de roupas esfarrapadas que jogavam à bola e lhe pediam que trouxesse o jogador Cristiano Ronaldo à ilha, estava o treinador de futebol português Carlos Queirós, que nasceu em Nampula, no norte de Moçambique, e passou muitos anos na Ilha de Moçambique.

"É com algum desgosto que vejo a ilha neste estado de degradação. Temos essa dor há muito tempo. Mas agora há que olhar para a frente e acreditar que com Portugal a apoiar agora firmemente e de forma determinada seja possível recuperar isto", comentou, lembrando as "muito boas memórias" que tem da ilha.

Um desejo partilhado por muitos, a que Cavaco Silva deu corpo com uma evocação da epopéia marítima portuguesa: "chegados aqui, tinha sido vencido o Adamastor e as outras dificuldades e o caminho das especiarias estava aberto".

 

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