O Banco Comercial Português (BCP), o maior
banco privado que responde por cerca de 25% do mercado financeiro
do país, atravessa prolongada crise de gestão e alguns dos seus
principais administradores em Portugal são suspeitos de diversas
irregularidades e crimes financeiros, sob investigação do Banco de
Portugal.
Para o ministro luso das Finanças,
Fernando Teixeira dos Santos, as denúncias de “operações ilegais”
e “eventuais ilícitos criminais” no BCP devem ser investigadas e
os culpados devem ser punidos. “É importante que as autoridades
prossigam a sua atividade até ao fim e é importante que punam seja
quem for e doa a quem doer”, disse Teixeira à rádio TSF, de
Lisboa.
Segundo ele, foram “enunciadas
publicamente um conjunto de operações ilegais, operações que
indiciam ilícitos de natureza criminal que estão sob investigação
do Banco Portugal, da CMVM (Comissão do Mercado de Valores
Mobiliários) e do próprio DIAP (Departamento de Investigação e
Ação Penal”.
De acordo com o Jornal de Negócios, o BCP
teria concedido financiamentos de pelo menos 700 milhões de euros
a sociedades "off-shores" que com esses fundos adquiriram ações do
banco nos aumentos de capital feitos desde 2000. Uma prática que,
a ser confirmada pelas investigações da CMVM e do Banco de
Portugal, configura uma violação ao Código das Sociedades
Comerciais e à lei bancária.
Na sexta-feira, 18 de janeiro, o
governador do Banco de Portugal (BdP) falou por quase seis horas
durante audiência na Assembléia da República, após muita polêmica
sobre o adiamento da data. Ele afirmou que a criação de 17
sociedades off-shore pelo Millenniumbcp para compra de ações
próprias nunca foi comunicada pelos auditores externos. Os
partidos da oposição, de esquerda e direita, consideram
insatisfatórios os esclarecimentos de Vítor Constâncio, e o
assunto está em todos os jornais lusos.
Segundo Constâncio, os processos de
contra-ordenação que o Banco de Portugal abriu no final de
dezembro contra o BCP nada têm a ver com as off-shores
investigadas em 2003, e são relativos a um segundo conjunto de
entidades sediadas em off-shores, das quais se desconhece ainda os
proprietários. O governador do Banco de Portugal destacou que a
existência destas 17 off-shores foi ocultada e que a instituição,
com as suas capacidades de intervenção, “não tinha real
possibilidade de as ter identificado”. “Nem nós, nem a CMVM, nem
os auditores tínhamos possibilidade de saber que existiam”, disse.
Durante a audição parlamentar, Constâncio
declarou-se limitado pela lei do sigilo bancário e sigilo
profissional, e considerou que essa inibição se estende a uma
comissão parlamentar de inquérito. O governador do Banco de
Portugal garantiu aos deputados que não existem situações de risco
específico iminente no BCP nem estão em causa os rácios de
capital. Também “não existem acusações deduzidas contra quem quer
que seja”, disse Constâncio, acrescentando que “a dimensão das
operações sob investigação nunca poria em causa a capacidade” do
maior banco privado português em desenvolver a sua atividade.
Através de duas denúncias, em novembro e
dezembro de 2007, com fotocópias e documentos internos do BCP, o
BdP conseguiu identificar off-shores, que teriam gerado
"conseqüências financeiras significativas". Apesar da ilegalidade,
não apontou ninguém. "O BCP não está afetado na sua atividade
normal" disse, "e não existem acusações deduzidas sobre quem quer
que seja" afirmou Constâncio.
Também estão sendo ouvidos em audiência o
presidente da CMVM, Carlos Tavares, e o ministro das Finanças,
Fernando Teixeira dos Santos. O primeiro-ministro português, José
Sócrates, recusou comentar a situação do BCP. “Não tenho nenhum
comentário a fazer(...) Espero que os acionistas saibam dar
resposta pronta à situação que se vive no BCP", afirmou Sócrates,
no mês passado. As denúncias sobre operações bancárias ilegais do
BCP sucedem-se há mais de um ano, mas até hoje não foram
apresentados resultados das investigações desencadeadas pelo Banco
de Portugal e pela CMVM.
Banco de Portugal
O ministro das Finanças manifestou apoio e confiança às
investigações, e considerou injustificáveis as críticas que possam
pôr em causa a independência das autoridades, referindo-se ao
Banco de Portugal, divulgou o Portugal Digital. “É injustificável
a todo o título que se procure fragilizar essas instituições
atacando-as de forma injustificada. A quem serve questionar a
independência das autoridades quando elas estão a desenvolver um
processo de investigação?”, questionou.
Isso porque o líder do CDS-PP, Paulo
Portas, sugeriu que o governador do Banco de Portugal devia se
demitir ou ser fiscalizado por uma comissão de inquérito
parlamentar. “O governador diz que em nenhuma parte do mundo a
fiscalização é infalível. Mas é por isso que quando falha, se
fiscaliza, com uma comissão de inquérito, ou então se muda, com
uma demissão” disse Paulo Portas.
O jornal Público divulgou que desde 2001,
o Banco de Portugal sabia da existência de operações suspeitas no
BCP. Segundo o jornal português, o Banco de Portugal chegou a
trocar correspondência com a administração do banco, culminando em
instruções do vice-governador do Banco de Portugal, e apenas em
2004, António Marta solicitou a correção das irregularidades.
Vítor Constâncio, governador do Banco de
Portugal, em 18 de janeiro, desvalorizou o pedido de demissão ou
sujeição a uma comissão de inquérito, afirmando que as suas
explicações ao Parlamento “foram abundantes e cabais”. Para
Constâncio, as avaliações sobre o sistema financeiro português e
também sobre a supervisão do setor, são positivas para o Fundo
Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. “A qualidade do
nosso sistema de supervisão é muito positiva, segundo o FMI:
ativa, profissional e competente, o que constitui um ativo para o
nosso país”.