O
primeiro-ministro português, José Sócrates, anunciou formalmente a
opção do governo de ratificar o Tratado de Lisboa da União
Européia por via parlamentar ao inaugurar, nesta quarta-feira de
janeiro, o novo modelo de debate quinzenal no congresso português.
A opção do governo luso
quanto à forma de ratificação do tratado - que batizou e que
constituiu seu maior sucesso na liderança do bloco europeu, no
segundo semestre de 2007 - era aguardada com expectativa pelos
demais países da União Européia (UE), cujas posições já são
conhecidas.
Para poder entrar em
vigor e encerrar uma das mais graves crises institucionais da
história da integração européia, o Tratado de Lisboa precisa ser
ratificado em todos os membros da UE, sem exceções, por via
parlamentar ou em referendos populares.
Vinte e cinco Estados
membros já haviam optado pela ratificação parlamentar, já
consumada na Hungria, e apenas um, a Irlanda, colocará o texto em
votação por referendo por imperativos constitucionais.
Portugal foi, então, o último dos Estados-membros do bloco a
revelar sua opção, decisão tomada pelo governo de José Sócrates
com o argumento de que, enquanto o país ocupava a Presidência da
UE, deveria se abster de tomar uma posição para não criar
"instabilidade".
O "suspense" em torno
da decisão portuguesa cresceu com o passar dos dias e suscitou
algumas inquietações entre os demais países europeus já que, caso
Portugal optasse pela consulta popular, outros membros do bloco
teriam dificuldades em justificar a opção pela via parlamentar à
população.
O referendo sobre o
tratado era uma promessa de campanha do partido governista e
constava no próprio programa de governo de Portugal.
Terça-feira, pelo segundo dia consecutivo, o presidente rotativo
da UE, o primeiro-ministro esloveno, Janez Jansa, advertiu para o
risco de a realização de um referendo em Portugal causar um
efeito-cascata na Europa, desencadeando discussões em outros
países, onde o resultado de um referendo sobre o tratado não seria
tão evidente.
Também o presidente
português, Aníbal Cavaco Silva, alertou na terça-feira para o
"preço elevadíssimo" que a UE teria que pagar em caso de fracasso
do Tratado de Lisboa.
Cavaco Silva é favorável ao Tratado de Lisboa, mas se opõe a
referendos sobre tratados internacionais. No entanto, o chefe de
Estado luso havia se comprometido a convocar o referendo caso
fosse essa a decisão do congresso português.
Na terça-feira à noite,
José Sócrates comunicou formalmente a seu partido - o Partido
Socialista (PS) - sua posição quanto à forma de ratificação do
Tratado de Lisboa, dando preferência à via parlamentar.
Antes, José Sócrates defendia que tanto a votação em Parlamento,
quanto o referendo, eram válidos do ponto de vista democrático.
Nesta quarta-feira, será iniciado no congresso português um debate
sobre o Tratado de Lisboa, como tradição iniciado pelo
primeiro-ministro, seguindo-se uma única volta de perguntas de
cerca de hora e meia.
Decisão
A comissão política nacional do partido governista aprovou na
madrugada de terça para quarta-feira, por ampla maioria contra
sete votos, a decisão de propor a ratificação do Tratado de Lisboa
por via parlamentar.
De
acordo com fontes da comissão do Partido Socialista, a proposta da
votação foi feita pelo primeiro-ministro português e
secretário-geral do partido, José Sócrates.
Além de José Sócrates, falaram em defesa da ratificação do Tratado
da UE por via parlamentar, entre outros dirigentes socialistas, o
prefeito de Lisboa, António Costa, o ex-comissário europeu António
Vitorino e o secretário de Estado da Presidência, Jorge Lacão.
A favor de um referendo
sobre o tratado da UE se manifestaram o deputado socialista
António José Seguro e o líder da Juventude Socialista, Pedro Nuno
Santos.
O ex-ministro da
Justiça, Vera Jardim, que se absteve na votação, disse ser, por
princípio, favorável a um referendo sobre o tratado da UE, mas
afirmou compreender os riscos que a realização da consulta oferece
a outros Estados-membros da UE.