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04/MAI/2007
Portugueses presos no Rio citam ligação com António Braga
Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas nega
envolvimento. Máfia dos bingos teria financiado PS no Brasil e
queria cassino em Lisboa.
Mundo Lusíada com agências
Mundo Lusíada
O secretário de Estado das Comunidades, António Braga, foi citado
por um dos empresários portugueses detidos no Rio de Janeiro, no
âmbito da ‘Operação Furacão’, que desmantelou uma rede de
branqueamento de capitais, conforme anunciou o “Expresso on-line”.
Fonte da secretaria de Estado disse que António Braga conhecia Licínio Soares Bastos (um dos detidos) de quem tinha as “melhores
referências”.
Jaime Garcia Dias, advogado e um dos detidos pela Polícia Federal
(PF) brasileira no caso da "máfia das sentenças", foi escutado a
conversar com o pai, dizendo a este que o secretário António Braga
poderia ser um contato para desembargar uma obra em Portugal.
Na conversa, que consta do relatório da PF a que o jornal
“Expresso” teve acesso, foi feita uma referência a um presidente
de câmara socialista da região de Braga. No processo foram detidos
dois portugueses: Laurentino Santos e Licínio Soares Bastos,
nomeado, em 2006, Cônsul Honorário em Cabo Frio (onde reside um
número insignificante de portugueses, não justificando a
implementação de serviços diplomáticos).
O Jornal “Público” divulgou em 5 de maio que o PSD deve exigir
esclarecimentos por parte do PS “com urgência”, sobre as ligações
dos socialistas aos detidos no Rio. O grupo é acusado de, a partir
do Brasil, negociar sentenças judiciais e decisões políticas para
beneficiar casas de bingo e de máquinas de jogos de azar.
Segundo as investigações, o português Licínio Soares Bastos, é um
dos maiores financiadores do PS no Brasil e suportou grande parte
das despesas da campanha do candidato socialista ao círculo fora
da Europa nas legislativas de 2005, Aníbal Araújo.
Licínio é também proprietário do imóvel onde está instalada a sede
do PS na Barra da Tijuca (RJ). O empresário viria a ser nomeado
cônsul honorário de Portugal em Cabo Frio, um ano depois de José
Sócrates chegar ao poder, mas o processo nunca chegou a ser
formalizado junto do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.
A Polícia Federal (PF) brasileira suspeita que o português fosse o
intermediário do grupo nas negociações para abrir cassinos em
Portugal e no Brasil. Numa das escutas anexadas ao processo, outro
detido, o advogado e empresário Jaime Garcia Dias, admitia ao
vice-presidente da Associação dos Bingos do Rio de Janeiro, José
Renato Granado, que estava em Portugal reunido com deputados e que
as despesas da estadia estavam a ser suportadas “pelo presidente
da câmara”. Na transcrição da escuta, o empresário brasileiro
nunca revelava o nome ou o partido dos deputados e do autarca.
José Cesário, deputado do PSD e antigo secretário de Estado das
Comunidades, disse que o PS e o Governo têm de “clarificar esta
situação com urgência”, referindo que é o nome de Portugal e das
comunidades portuguesas “que está em risco”.
Licínio Soares Bastos é natural de Oliveira de Azeméis, de onde é
também oriundo o candidato do PS ao círculo de fora da Europa em
2005, Aníbal Araújo. O primeiro é fundador de alguns dos jornais
administrados por Aníbal Araújo. “É um benemérito que muito ajuda
a comunidade portuguesa, não há qualquer promiscuidade”, enfatiza
Araújo.
Antes das legislativas de 2005, a confusão instalou-se na secção
do PS no Rio de Janeiro, sem se saber quem dirigia esta estrutura.
Terá sido por essa altura que se tornaram públicas as relações
entre Aníbal Araújo e Licínio Bastos - alguns elementos do PS
defendem que o empresário brasileiro impôs o nome do futuro
candidato. “Foi então que o Sr. Licínio disse que foi contatado
pela direção do PS para ajudar o partido. Aí, criou a sede e pagou
a campanha de Aníbal Araújo”, disse ao jornal “PÚBLICO” Eduardo
Neves Moreira, ex-deputado do PSD para o círculo fora da Europa e
residente no Rio de Janeiro.
A ostentação da campanha motivou uma queixa do PSD à Comissão
Nacional de Eleições, apresentada a 20 de abril de 2005.
“Utilizaram aviões, cartazes em autocarros [ônibus], programas de
rádio e televisão aqui no Brasil. É óbvio quem suportou tudo
isso”, expõe o social-democrata. “Eu desconheço se o Sr. Licínio,
de quem sou amigo, financiou ou não a minha campanha”, contrapôs
Aníbal Araújo.
O deputado José Lello, antigo secretário de Estado e responsável
pela área das Comunidades Portuguesas do PS, também alega
desconhecer a origem do financiamento. “Isso é da responsabilidade
do candidato. Conheci Licínio Soares Bastos durante essa campanha,
foi-me apresentado por Aníbal Araújo. Não sei se foi ele o
financiador”, afirmou, argumentando também ignorar que a sede do
PS no Rio funciona em instalações do empresário agora detido.
O atual responsável pelo departamento de Relações Internacionais e
Comunidades Portuguesas do PS, Luís Pisco, admite e desvaloriza o
fato de a sede do PS no Rio de Janeiro estar instalada numa
propriedade de Licínio Bastos. “É normal isso acontecer, ele quis
ajudar o partido. Posso garantir que as reuniões políticas do
partido se realizam noutro lugar”, frisou. Pisco não soube, no
entanto, identificar os atuais dirigentes socialistas no Rio de
Janeiro.
Colocando a tônica na sede do partido e na “generosidade” do
empresário agora detido, o social-democrata Eduardo Moreira
recorda conversas antigas. “Eu não sei se há promiscuidade ou não,
sei é que o Sr. Licínio dizia que o apoio ao PS lhe renderia
contrapartidas comerciais em Portugal”, sublinhou.
Um ano depois de o PS chegar ao poder, Licínio Soares Santos foi
nomeado cônsul honorário de Portugal em Cabo Frio, a 150
quilômetros do Rio de Janeiro. A nomeação, despachada pelo
secretário de Estado das Comunidades, António Braga, foi publicada
no Diário da República dia 16 de Maio de 2006, mas foi suspensa
meses depois quando se constatou que Licínio Bastos vinha sendo
investigado pelas autoridades brasileiras. A secretaria de Estado
justificou a suspensão pela disponibilidade manifestada por
Licínio Bastos para suportar todas as despesas do posto consular.
“O Estado português não teria qualquer despesa com esse consulado,
Licínio Bastos ofereceu-se para suportar todo o investimento para
ajudar a comunidade portuguesa, ele é um benemérito e até ser
condenado merece a presunção de inocência”, explicou ao “PÚBLICO”
Eduardo Saraiva, assessor de imprensa do secretário de Estado das
Comunidades, António Braga. Um argumento que não colhe, pelo menos
junto de Eduardo Moreira, que também já presidiu o Conselho das
Comunidades Portuguesas no Rio de Janeiro. “Em Cabo Frio residem
no máximo 20 portugueses, não faz sentido abrir aí um consulado e
encerrar o de Santos, onde habitam cerca de 15 mil pessoas [na
verdade passam de 30 mil] com ligações a Portugal”, disse.
Na Bahia, a jornalista Eulália Moreno lembrou que o jornal “O
Globo”, do Rio de Janeiro, fez questão de referir que ambos os
acusados [Laurentino e Licínio], eram financiadores do Partido
Socialista no Brasil, no entanto o secretário nada sabe. “E o
‘Braguinha’ também não sabe que está com a sua presença
prestigiando um encontro da dita Imprensa Regional organizado pelo
‘medalhudo’ Aníbal Araújo, de Oliveira de Azeméis, a mesma terra
dos detidos? E ele também não sabe que aqui em Salvador os
jornalistas idôneos presentes estão cansados de saber que este
encontro foi patrocinado pelos manos, hoje detidos?”, interpela a
jornalista.
Eulália ainda garantiu que o “Expresso” está vasculhando mais
informações e completa: “o José Cesário que não se fique a rir
porque a hora dele também está chegando”. “E por onde andará o
Eduardo [?], o diretor do Primeiro de Janeiro que era o que mais
se governava com a imprensa dita regional já que nas gráficas de
sua propriedade eram impressos milhares de jornalecos folha de
couve e paroquiais que se governavam com o ‘porte pago’ forjando
tiragens que nunca tiveram? Esse era do PSD, mas transitava por
todos os partidos. Até conseguiu um terreno magnífico na Boa
Vista, da cidade do Porto, alegando que ali seria construída a
sede do Primeiro de Janeiro, o jornaleco que nunca pagou aos seus
profissionais da informação”, denuncia Eulália.
Ainda de Salvador, Eulália disse ter-se encontrado com várias
“personalidades” e, segundo ela, a maioria delas com ar de “não me
comprometa”. A jornalista diz ainda que, “em declarações ao
jornalista da Lusa que também está aqui à custa do contribuinte
português, o secretário das Comunidades, Antonio Braga, à boa
maneira do que se diz no Minho, de onde é originário, ‘fugiu com o
rabo à seringa’ quando foi interpelado acerca do processo da
‘Máfia das Sentenças’. Ai, ai, ai que isto ainda vai parar no
escândalo do ‘BragaParques’, passando pelos financiadores do
Partido Socialista no Brasil, os manos Licínio e Laurentino que se
encontram devidamente encarcerados no Rio de Janeiro acusados de
envolvimento nos negócios dos bingos”. E encerra seu comentário
com ironia: “Abraço, do Congresso Faz de Conta da UNIR, em São
Salvador, Bahia, Eulália Moreno”.
A Agência Lusa por sua vez publicou em 4 de maio que o secretário
de Estado das Comunidades Portuguesas, Antônio Braga, “não
conhece” os portugueses supostamente envolvidos no esquema de
venda de sentenças judiciais desbaratado pela Polícia Federal na
Operação Hurricane. Segundo a Lusa, Braga assegurou não ter
“qualquer relação” com as acusações que são feitas pelo semanário
português “Expresso”.
“Não conheço nenhum desses protagonistas. Nunca tive nenhuma
relação, a qualquer nível, com as referências que são feitas.
Portanto, fico deveras admirado”, disse à Agência Lusa Antônio
Braga, que se encontra em visita ao Brasil, em Salvador.
O secretário, um dos três vice-ministros das Relações Exteriores
de Portugal, ressaltou que a notícia da versão on-line do Expresso
“não tem nenhum sentido”, acrescentando que já fez as mesmas
declarações ao próprio Expresso. A Operação Hurricane, deflagrada
no último dia 13, levou à prisão vários juízes, advogados e
empresários, entre os quais os portugueses Licínio Bastos e
Laurentino dos Santos, pelos motivos já expostos.
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