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25/ABR/2006
Cavaco Silva lembra desigualdades sociais nos
32 anos da Revolução dos Cravos
O presidente português assinalou o 25
de Abril com referências às desigualdades sociais e problemas como
a pobreza e exclusão dos idosos e a violência doméstica.
Lisboa - O Presidente da
República de Portugal, Cavaco Silva, centrou o seu discurso na
sessão solene dos 32 anos do 25 de Abril nas desigualdades e
problemas sociais que ainda dividem o país. Cavaco Silva afirmou
que 32 anos após a revolução “Portugal continua a ser um país
fortemente marcado pelo dualismo do seu desenvolvimento”,
considerando que “há que enfrentar com sucesso a dupla exclusão do
envelhecimento e da pobreza no interior”.
Cavaco Silva defendeu que não seja
apenas o Estado, mas também os portugueses, a lutar pela melhoria
das condições sociais. "Quero propor um compromisso cívico, para a
inclusão social, que envolva não só as forças políticas, mas
também as autarquias e as instituições de solidariedade", disse o
novo presidente português.
O fosso entre as regiões rurais e as
urbanizadas, os problemas de exclusão da população mais idosa e a
violência doméstica foram as principais questões destacadas por
Cavaco Silva, cuja intervenção foi aplaudida pelos deputados do
PSD, CDS-PP e PS, com o PCP, Bloco de Esquerda e "Os Verdes" a
absterem-se de aplaudir.
O discurso de Cavaco Silva, que
dispensou o cravo, algo inédito entre os presidentes portugueses
do pós-25 de Abril, foi antecedido por intervenções do presidente
da Assembleia da República, Jaime Gama, e de representantes dos
vários partidos com assento no parlamento.
O Partido Comunista Português (PCP),
que lutou na clandestinidade durante décadas, até à Revolução dos
Cravos, evocou a "libertação de um povo que sofreu ao longo de uma
época de obscurantismo" e considerou, segundo Abílio Fernandes,
que "as profundas transformações então [em 1974] realizadas foram
plasmadas numa das constituições mais progressistas da Europa". Na
sua intervenção o PCP defendeu ainda o pluralismo das instituições
e criticou os governos por falharem o cumprimento das promessas
eleitorais.
Vera Jardim, pelo Partido Socialista
(PS), enfatizou a necessidade do Estado social. "As condições
sociais de hoje são diferentes das de há 32 anos, mas continuamos
a querer uma sociedade mais justa e rejeitamos a sociedade do
mercado", disse o antigo ministro da Justiça. Por outro lado, o
representante do PS defendeu o contributo português ao combate ao
terrorismo, afirmando que "Portugal deve continuar a apoiar na
União Européia uma política de reforço da segurança internacional,
particularmente no combate ao terrorismo".
O combate ao terrorismo é uma
prioridade igualmente para outros partidos, como o CDS-PP, que
defendeu, pela voz de Telmo Correia, que Portugal não deve ser
neutro, mas aliado dos seus parceiros atlânticos. O Partido
Popular pretende mudanças na Constituição de 1976 e anunciou que
irá propor em breve alterações no sentido de produzir um segredo
de Justiça "digno", bem como mecanismos para combater a
delinqüência juvenil.
As comemorações dos 32 anos da
Revolução continuam durante o dia. Além da habitual sessão solene,
o dia é marcado pela inauguração de uma nova exposição sobre os
"30 Anos de Constituição" e pela abertura ao público, entre as 15h
e as 18h, da residência oficial do primeiro-ministro.
Estão ainda previstas manifestações
populares em Lisboa, do Marquês de Pombal para o Rossio, e no
Porto, na Praça D. João I. Em dezenas de municípios tem havido ao
longo dos últimos dias eventos comemorativos, com debates,
conferências e vários espetáculos subordinados ao tema do 25 de
Abril.
O dia da Revolução
No dia 24 de Abril de 1974, um grupo
de militares comandados por Otelo Saraiva de Carvalho instalou
secretamente o posto de comando no quartel da Pontinha, em Lisboa.
Às 22h55 era transmitida a canção ”E depois do Adeus”, de Paulo de
Carvalho, pelos Emissores Associados de Lisboa. Este foi um dos
sinais previamente combinados pelos revolucionários e que dava
início à tomada de posições da primeira fase do movimento militar,
o Movimento das Forças Armadas, com forte apoio popular e dos
partidos que lutavam contra a ditadura fascista.
O segundo sinal foi dado às 0h20,
quando foi transmitida a canção ”Grândola Vila Morena“ de José
Afonso, pelo programa Limite da Rádio Renascença, que confirmava o
movimento militar e marcava o início das operações.
O movimento militar do dia 25 de Abril
teve a colaboração de vários regimentos militares, que
desenvolveram uma ação concertada. No Norte, uma força do CICA 1
liderada pelo tenente-coronel Carlos Azeredo toma o
Quartel-General da Região Militar do Porto. Estas forças são
reforçadas por forças vindas de Lamego. Forças do BC9 de Viana do
Castelo tomam o Aeroporto de Pedras Rubras. E forças do CIOE tomam
a RTP e o RCP no Porto. O regime reagiu e o ministro da Defesa
ordenou a forças sedeadas em Braga para avançarem sobre o Porto,
no que não foi obedecido, já que estas já tinham aderido ao
movimento.
À Escola Prática de Cavalaria, que
partiu de Santarém, coube o papel mais importante: a ocupação do
Terreiro do Paço. As forças da Escola Prática de Cavalaria eram
comandadas pelo então comandante Salgueiro Maia. O Terreiro do
Paço foi ocupado à primeiras horas da manhã. Salgueiro Maia moveu,
mais tarde, parte das suas forças para o Quartel do Carmo onde se
encontrava o chefe do governo, Marcello Caetano, que ao final do
dia se rendeu, fazendo, contudo, a exigência de entregar o poder
ao General António de Spínola, que não fazia parte do MFA, para
que o "poder não caísse na rua". Marcello Caetano partiu, depois,
para a Madeira, rumo ao exílio no Brasil.
Da revolução "pacífica" resultou,
contudo, a morte de 4 pessoas, quando elementos da polícia
política do regime fascista - a Pide/DGS, (Direção-Geral de
Segurança) - dispararam sobre um grupo que se manifestava à porta
das suas instalações na Rua António Maria Cardoso, em Lisboa.
O cravo tornou-se o símbolo da
Revolução de Abril de 1974 porque com o amanhecer do dia 25 as
pessoas começaram a juntar-se nas ruas, apoiando os soldados
revoltosos e alguém começou a distribuir cravos vermelhos pelos
soldados, que depressa os colocaram nos canos das espingardas.
Miguel Prado, Portugal Digital |