A geografia de Portugal e o acesso à
energia solar, eólica e hidro-elétrica "dão-lhe grandes
oportunidades de liderar nas energias renováveis", assegura
Nicholas Stern no livro "O Desafio Global", que a editora Esfera
do Caos acaba de publicar.
Numa nota à edição portuguesa, o autor -
que ficou internacionalmente conhecido pelo "Relatório Stern" -
salienta ainda que "Portugal tomou uma importante iniciativa no
seu empenho na economia de baixo carbono e no investimento em
eletricidade renovável, em particular eólica e solar".
Um investimento justificado porque, entre
outros fatores, "Portugal, como a totalidade da Europa do Sul, é
extremamente vulnerável às alterações climáticas", escreve o
economista britânico.
Segundo Nicholas Stern, "emissões não
controladas podem, para o fim deste século, começar a fazer com
que grande parte da Europa Meridional se pareça com o deserto do
Saara", sendo Portugal "inevitavelmente envolvido nas migrações de
centenas de milhões de pessoas da África e outras paragens que se
seguiriam à transformação do planeta ocasionada por alterações
climáticas não controladas".
Esta é apenas uma das previsões que Stern
inclui em "O Desafio Global - Como Enfrentar as Alterações
Climáticas criando uma nova Era de Progresso e Prosperidade", onde
salienta a urgência de reduzir as emissões dos gases com efeitos
de estufa, destacando a importância das políticas públicas e o
papel de cada cidadão.
Como podem as emissões ser reduzidas e a
que custo, qual o papel das empresas nas políticas públicas, quais
as metas para os países ricos, como pode a comunidade
internacional apoiar a adaptação nos países em desenvolvimento às
alterações climáticas, quais os custos da inação - estes são
alguns dos aspectos focados no livro.
A obra marca o início da Coleção
Gulbenkian Ambiente, dirigida pelo acadêmico e ambientalista
Viriato Soromenho-Marques, que assina o prefácio à edição
portuguesa e para quem a atual crise econômica e financeira tem
"nas suas raízes mais fundas e nas suas consequências mais
distantes" uma ligação essencial "com a negligência com que a
Humanidade tem habitado e malbaratado este planeta".
Relatório Stern
De acordo com Nicholas Stern, a história do livro tem início
quando Gordon Brown, então ministro das Finanças do Reino Unido,
lhe pediu para "dirigir uma investigação sobre a economia das
alterações climáticas". Dessa pesquisa resultaria o "Relatório
Stern sobre a Economia das Alterações Climáticas", divulgado em
outubro de 2006 e no qual assenta "O Desafio Global", obra
desenvolvida ao longo dos dois anos subsequentes.
"Como é possível que, em face das
esmagadoras provas científicas e lógicas, ainda exista quem negue
os perigos e a urgência da ação?" - questiona o autor, para quem
"agir pensando que o futuro será igual ao passado é simplesmente
uma tolice".
"Mesmo que sejamos prudentes, as emissões
do passado combinar-se-ão com as que emitiremos no futuro próximo
e teremos de lidar com prováveis temperaturas médias acrescidas de
2-3º C, possivelmente mais, face a 1850. Estes efeitos
tornar-se-ão muito mais intensos e a adaptação será essencial e
dispendiosa", exigindo que se planeje antecipadamente, explica
Nicholas Stern.
Casos de sucesso
Apesar de realçar a importância de um compromisso a nível das
políticas públicas dos vários países, a responsabilidade
individual não é esquecida pelo economista, que indica exemplos de
ação comunitária como Woking, uma pequena vila do Reino Unido que
gera energia no local em que é utilizada, principalmente a partir
de moinhos de vento locais, "reduzindo as perdas por transmissão e
aumentando a eficiência".
Stern aponta também como um êxito o
sistema de aquecimento do distrito de Copenhague, "que fornece
aquecimento limpo, confiável e acessível a 97% da cidade".
"Criado em 1984, o processo captura
simplesmente o calor desperdiçado pela produção de eletricidade -
normalmente libertado no mar - e canaliza-o de volta, através de
tubagens, para as residências", o que permitiu reduzir as contas
de energia das habitações em 1.400 euros anuais e poupou, ao
distrito de Copenhague, o equivalente a 665.000 toneladas de CO2,
conta o pesquisador.
Para Nicholas Stern, apesar dos vários
casos de sucesso conhecidos, a dificuldade em mobilizar os
indivíduos para a ação resulta da combinação de dois fatores: "a
menos que as pessoas tenham visto ou sentido um problema, é
difícil persuadi-las de que é necessária uma resposta" e como "os
efeitos das alterações climáticas só se tornam patentes ao fim de
um longo período de tempo"... as mudanças ficam muitas vezes por
concretizar.
Consciência
Todavia, se em vez de levar o problema a sério o mundo esperar até
que Bangladesh, a Holanda ou a Flórida estejam submersos, "será
demasiado tarde para sairmos de um enorme buraco", alerta Stern.
Lembrando que as alterações climáticas são
um fenômeno não equitativo, em que "os países ricos são
responsáveis pela maior parte das emissões, mas os países pobres
são atingidos mais cedo e mais duramente", o autor insiste na
necessidade de um compromisso global.
Um acordo que "tem de ser eficaz no
sentido de fazer baixar as emissões na escala necessária; tem de
ser eficiente quanto a manter baixos os custos; e tem de ser
equitativo em relação às capacidades e responsabilidades, levando
em conta tanto as origens como o impacto das alterações
climáticas", conclui.
Nicholas Stern, de 63 anos, é docente da
Escola de Economia de Londres, professor convidado da Universidade
de Oxford e presidente do Instituto de Pesquisa Grantham sobre
Alterações Climáticas e Ambiente.
Foi conselheiro especial do presidente do
Banco Europeu para a Reconstrução e desenvolvimento (1994-1999) e
vice-presidente e economista-chefe do Banco Mundial (2000-2003),
sendo consultor do governo britânico e da Comissão Europeia para
as Alterações Climáticas e Desenvolvimento.