Portugal vai começar a diminuir as emissões de gases causadores do
efeito estufa em 2010, de acordo com as primeiras estimativas do
projeto Misp - Estratégias de Mitigação das Alterações Climáticas.
Desenvolvido por especialistas portugueses, o projeto dá como
certa a diminuição da quantidade de dióxido de carbono emitido
para a atmosfera, dentro de pouco mais de dois anos. As conclusões
são baseadas nos panoramas mundiais projetados este ano pelo
Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) das
Nações Unidas.
Ricargo Aguiar, co-autor do projeto Misp ao lado do especialista
em alterações climáticas Filipe Duarte Santos, explicou que essa
redução de emissões vai acontecer naturalmente em Portugal devido
à maturidade do desenvolvimento da infra-estrutura, ao parque
automotivo [em estagnação e mais preocupado com o ambiente], a uma
redução da população portuguesa e ao fim dos fluxos migratórios
entre zonas rurais e cidades. Segundo ele, em 2070, a população
portuguesa pode estar reduzida a oito milhões de habitantes, cerca
de 20% menor do que a atual.
Isso, por si só, já contribui para uma menor emissão de gases do
efeito estufa.
"Todos os cenários mostram que, por volta de 2010, vamos reduzir
as emissões, e isto se mantém até 2050. Nos vinte anos seguintes,
o ritmo de redução vai ser mais brando", adiantou. Esta tendência
é contrária à verificada nos últimos anos, já que os dados mais
recentes indicam que, em 2005, as emissões portuguesas de gases
efeito estufa estavam 18% acima das metas impostas pelo protocolo
de Kyoto e 45% acima dos níveis emitidos em 1990 - considerado ano
de referência para o cumprimento deste acordo para os demais
países europeus.
Segundo ele, Portugal "já está no horizonte da sustentabilidade" e
vai seguir a tendência de países mais desenvolvidos, como a
Inglaterra e Alemanha, que já estão reduzindo as emissões. "Os
resultados deste estudo de prospectiva até 2070 indicam que a
procura de energia em Portugal deverá continuar a crescer, mas o
país poderá estar já num pico de emissões de gases do efeito
estufa, a que se seguirá um declínio constante das emissões até,
pelo menos, 2050".
Na UE
Portugal também já deu recados para que a União Européia acelere
este processo. Segundo afirmou o ministro português da Economia,
Manuel Pinho, a UE precisa tomar rapidamente medidas para
estimular eficiência energética e utilização de energias
alternativas, tornando a Europa líder mundial no setor. "O custo
de não fazermos nada é maior do que o custo de agirmos
imediatamente", disse Pinho ao final de um encontro em Bruxelas
com o comissário europeu da Energia, Andri Piebalgs.
O ministro português disse que os países do bloco europeu estão
"muito mais próximos" de um acordo sobre o terceiro pacote de
propostas legislativas do setor energético apresentado pela
Comissão Européia (braço executivo da UE). Durante a reunião
ocorrida em outubro, foi discutida uma estratégia para o segmento
até o final de 2007, quando se encerra a presidência rotativa, de
Portugal, na UE. Em 3 de dezembro, se reúne na capital belga o
Conselho de Ministros da Energia, oportunidade que Manuel Pinho
quer um "consenso" entre os Estados-membros.
"A Europa tem a capacidade de promover a mudança tecnológica no
setor energético", disse. Para Manuel Pinho, o setor dos
transportes tem um papel "muito importante" na luta contra as
emissões de poluentes, que devem ser reduzidos em 40% até 2050. O
ministro luso da Economia apresentou ao comissário europeu um
conjunto de propostas sobre a estratégia para cumprir os objetivos
de redução dos gases causadores do efeito de estufa.
Nas suas medidas, com a promoção da sustentabilidade e estimulação
da eficiência energética, garante que empresas de menor dimensão,
inclusive as que investem em energias renováveis, possam ter
acesso ao mercado da energia.
Portugal já aplica uma medida que prevê a separação entre as
atividades de produção e fornecimento de eletricidade e de gás, e
as atividades de transporte dos produtos nas respectivas redes.
Apesar disso, a questão ainda divide os Estados-membros da UE.
Para Andri Piebalgs, quem agradeceu a contribuição portuguesa, o
país é "um exemplo" em matéria de tecnologias limpas. Segundo o
comissário europeu, a maior instalação de aproveitamento solar e a
maior instalação de aproveitamento das ondas do mar estão em
Portugal.
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Nuno Veiga/Lusa

A maior
central solar do mundo inaugurada em Brinches, Serpa, que
permite produzir energia "limpa" para a rede elétrica nacional
nos próximos 15 anos. |
Em Portugal
As estimativas de redução das emissões baseiam-se também na
tecnologia que está sendo desenvolvida no mundo e que acabará por
ser adotada em Portugal, assim como em um aumento das energias
renováveis, da reposição de carbono (por reflorestamento, por
exemplo) ou de redução da queima de combustíveis fósseis.
As previsões dos especialistas indicam ainda que, nas próximas
décadas, a economia portuguesa vai se basear fortemente no setor
de serviços (lazer, comunicações, gestão do ambiente) e que haverá
menos indústrias pesadas do que atualmente.
O Protocolo de Kyoto impõe à União Européia uma meta de redução
das emissões de 8% em relação a 1990. Para Portugal, no entanto, é
permitido um aumento de 27% devido a um acordo de partilha de
responsabilidades. A União Européia estabeleceu uma meta própria
de redução de 20% até 2020, podendo chegar aos 30%. Isso
significa, em números redondos, que cada pessoa não poderá ser
responsável pela emissão de mais de uma tonelada de dióxido de
carbono por ano. Para Portugal, isso significa oito vezes menos do
que o nível atual.
O objetivo destas metas é de não deixar o aquecimento global
ultrapassar o limite de dois graus centígrados a longo prazo.
"Como dentro da União Européia as metas nacionais são
estabelecidas ao abrigo do princípio de subsidariedade, os
resultados do estudo são úteis indicações para a negociação das
contribuições portuguesas relativas a estes objetivos do bloco
europeu", defendeu o especialista português Ricardo.