MUNDO economia
 

13/JUN/2007

 

Entrevista

Seixas da Costa: "Quero elevar a visibilidade das câmaras portuguesas de comércio"

Embaixador Seixas da Costa, em entrevista ao Portugal Digital, fala sobre os preparativos para a cimeira de 4 de julho e das relações entre Europa e América Latina.

Cândida Bittencourt
Portugal Digital


Estreitar relações e criar uma aliança estratégica entre o Brasil e a União Européia estão entre as prioridades de Portugal para o segundo semestre deste ano, quando ocupa a presidência européia. O embaixador de Portugal no Brasil, Francisco Seixas da Costa, está empenhado em ajudar a cumprir essa missão.

Entre reuniões preparatórias e uma agenda carregada, aceitou conversar com o Portugal Digital para falar também sobre América Latina, Mercosul, além de outros assuntos, como a importância das câmaras portuguesas de comércio para o desenvolvimento de negócios entre empresas de pequeno e médio portes no Brasil e em Portugal, e também sobre o fechamento do Consulado de Portugal em Santos.

Seixas da Costa acredita que os brasileiros que vivem hoje em terras lusitanas são os grandes embaixadores do Portugal contemporâneo. São eles, na opinião do embaixador, que fazem aumentar o número de turistas brasileiros no País. O embaixador, no entanto, lamenta que as universidades portuguesas explorem pouco a literatura brasileira em seus currículos. Acompanhe a entrevista:


» Brasil e União Européia assinam, em 4 de julho próximo, acordos de cooperação. O interesse de Portugal, no decorrer da presidência da União Européia, é estreitar essa relação?

Embaixador Seixas da Costa: Portugal propôs à União Européia que as relações com o Brasil passassem a encontros regulares entre o presidente o Brasil e o presidente da União Européia, que é comissário rotativo. Esta proposta foi aceita e a primeira cimeira União Européia – Brasil, em Portugal, vai ter lugar em Lisboa no dia 4 de julho. Durante esta primeira cimeira, e também por iniciativa portuguesa, vai ser analisada uma proposta que tem sido trabalhada no âmbito da comissão européia para o Brasil, de uma chamada parceria estratégica.

É um quadro referencial de uma cooperação em variadas áreas, que a UE só tem hoje com os Estados Unidos, Canadá, Rússia, China, Japão e com a Índia. Nós pensamos que não fazia sentido e que era uma situação anômala que o Brasil, dada sua importância no quadro internacional, estivesse afastado deste quadro preferencial de interlocução com a União Européia.

Portanto, a primeira cúpula UE – Brasil terá lugar no dia 4 e é a primeira das futuras cúpulas anuais. A partir de agora, a União vai apresentar sua proposta de parceria e vamos, obviamente, ouvir do Brasil suas observações a esta proposta. Quando todo este processo estiver acordado, será assinada a Parceria Estratégica. Ela cobre desde o ambiente político até áreas de natureza científica, desenvolvimento, energia, etc. Pensamos que isto é importante e pensamos que era preciso fazê-lo durante a presidência portuguesa, porque embora o Brasil tenha as portas abertas de toda Europa, Portugal é um país abertamente preocupado com o Brasil e ficamos muito satisfeitos por ter a oportunidade de fazer esta alteração qualitativa do relacionamento com o Brasil.


» O Mercosul e também a América Latina estão inseridos neste novo relacionamento?

Este relacionamento com o Brasil enquadra-se também numa leitura que Portugal faz da necessidade de posicionar o olhar da União Européia para a América Latina. Há alguns anos, a América Latina e, em particular o processo integrador no quadro Mercosul, estava na agenda prioritária da União. O mundo evoluiu, a UE expandiu-se para o Leste, novas preocupações começaram a mobilizar as atenções, como o relacionamento com a Rússia, o papel da China no quadro internacional, os problemas da área central, as questões energéticas, e então demos conta que também a política de relação com a América Latina tinha perdido prioridade no quadro da relação externa da União.

O recentrar das atenções faz-se por duas vias. Em primeiro lugar, faz-se por dar um estatuto especial àquele que é o país mais importante e que tem uma escala incontestável como parceiro na América Latina e, em segundo lugar, faz-se pela tentativa de reanimar o processo de negociação entre o Mercosul e a União Européia. É um processo que tem sofrido manifestamente pela circunstância de ambos os lados estarem envolvidos em um processo mais global, que é a rodada de Doha, da Organização Internacional do Comércio.

Aparentemente, esta rodada está tendo dificuldades e há escassas esperanças de ela possa chegar a uma conclusão. Caso ela não chegue a uma conclusão, pensamos que há todas as condições para relançar o diálogo entre a União e o Mercosul.

Portanto, a parceria com o Brasil não é um substituto do relacionamento UE – Mercosul, pelo contrário, esperamos que seja um estímulo para que ele seja reativado. Esta é uma mensagem que queremos deixar bem clara, até porque o conteúdo da Parceria Estratégica não se confunde com o conteúdo do relacionamento UE – Mercosul.


» Essa parceria pode trazer maiores benefícios para o Brasil e para Portugal em termos econômicos?

Esta parceria não tem rigorosamente nada a ver com os campos de natureza comercial. Ela é uma questão entre a União Européia e o Brasil, não entre Portugal e o Brasil. Portugal é apenas quem a estimula, durante sua presidência da União.


» Mas o momento pode favorecer as relações econômicas?

Não. Não tem rigorosamente nada a ver com isso. Se há algo que pode favorecer o aumento das exportações e importações entre Brasil e Portugal ou o Brasil e outros países europeus, são as conclusões do acordo entre a União e o Mercosul. A parceria em si não tem nada que situe essa área.

Agora, o acordo com o Mercosul, que é algo que achamos que deve regressar rapidamente ao topo das nossas prioridades, é algo que pode estimular fortemente os investimentos e o comércio bilateral, quebrando as barreiras que existem entre os mercados. E esperamos também que possa facilitar o aumento dos investimentos. Embora hoje a União Européia seja o bloco que mais investe no Brasil, achamos que está criada a possibilidade de um salto fantástico no relacionamento entre a UE e o Brasil em matéria comercial com o eventual acordo. Portanto, achamos que estão criadas as condições para sermos otimistas.


» Como o senhor vê a possibilidade de ter a visibilidade de Portugal ampliada no Brasil? Não só em termos econômicos, mas também culturais...

Esta é uma questão muito longa, com quase 500 anos... Portugal é um país que recebe muitos turistas e que tem uma economia muito focada no turismo. Portugal tem cerca de 11 milhões de turistas por ano, o Brasil tem cerca de 5,5 milhões. Portanto, daí se vê até o crescimento potencial do Brasil. É evidente que é muito interessante para Portugal dar a conhecer aos brasileiros o Portugal contemporâneo. Em primeiro lugar, os brasileiros que vão para Portugal como turistas estão a aumentar, apesar de ser uma viajem cara, e o que estamos a tentar fazer é criar o hábito dos brasileiros que vão para a Europa passarem por Portugal. Portugal não estava nas rotas tradicionais de turismo do brasileiro, mas acho que isto está a mudar. Não só pelo ciclo que a TAP está criar, mas também porque há uma realidade nova brasileira que vai ajudar a mudar a imagem de Portugal no Brasil. Esta realidade são os brasileiros que vivem em Portugal. Eles são hoje os milhares embaixadores do Portugal contemporâneo aqui. São eles que estão a mudar a imagem do Portugal caricatural que existia durante muitos anos no imaginário brasileiro. Não podemos fazer muito mais sobre isso, porque embora lá exista uma grande presença brasileira com as novelas, a música e até o futebol, o mesmo não existe no Brasil.


» Mas e em termos culturais, por exemplo, a literatura?

Há mais literatura contemporânea portuguesa à venda no Brasil hoje do que literatura contemporânea brasileira em Portugal. Aliás é uma pena que as universidades portuguesas não sejam estimuladas para ter mais cátedras de literatura brasileira, porque o contrário é verdade. Os autores contemporâneos portugueses são estudados nas universidades brasileiras. Portugal tem uma grande visibilidade no Brasil, também graças pelo prêmio Nobel do Saramago e de vários escritores visitarem regularmente o Brasil.

Gostaríamos de ver mais escritores brasileiros em Portugal e tê-los mais presentes. Eu faço parte de uma geração que aprendeu a ler escritores brasileiros como Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Jorge Amado. E hoje em dia isto não é verdade para as novas gerações portuguesas. Até os clássicos perderam a dimensão que tinham. Machado de Assis é muito menos conhecido em Portugal do que o Eça de Queiroz é conhecido aqui. E isso é pena, porque os países de língua portuguesa têm hoje um patrimônio literário que está ao nível de qualquer outra língua do mundo.
 


» Como é que o senhor vê o papel das câmaras portuguesas no incremento dos negócios?

As câmaras portuguesas têm feito um grande esforço no sentido de melhorar serviços aos seus associados. Hoje temos 10 câmaras portuguesas no Brasil e no futuro poderemos ter mais uma ou duas. Eu não sou um adepto da multiplicação das câmaras e sim da interligação delas no sentido de criar uma sinergia. E isto tem sido feito nos últimos anos e a Embaixada tem dado muito apoio ao chamado Conselho das Câmaras, que tem um site próprio e que organiza um grande congresso de dois em dois anos. O último foi em 2005 e vamos o próximo ter em dezembro deste ano. Estamos até pensando em trazer países euroamericanos para dar uma maior dimensão ao evento.

A meu ver, as câmaras são um elemento essencial para o fornecimento de informação atualizada para as pequenas e médias empresas portuguesas que querem atuar no mercado brasileiro. É preciso alguém que decodifique as peculiaridades jurídicas brasileiras. As grandes empresas não têm esse problema porque normalmente estão assessoradas por uma equipe de advocacia.

Eu quero, por isso, elevar a visibilidade das câmaras portuguesas de comércio, em Portugal, para que os empresários que venham possam ser estimulados, desde o princípio, a ligarem-se às câmaras de comércio. Também temos trabalhado bem com a Câmara de Indústria e Comércio Luso-brasileira em Lisboa, que faz um trabalho de aproximação entre empresas portuguesas no Brasil e empresas brasileiras em Portugal. Há um diálogo que está a funcionar bem. Já reuni com as 10 câmaras que existem no Brasil e procuro dinamizá-las o máximo possível. Estamos agora a querer criar uma nova Câmara aqui em Brasília que poderá cobrir o Centro-Oeste.
 


» Muitos portugueses e seus descendentes têm reclamado do encerramento das atividades do Consulado de Portugal em Santos? Esta é uma situação irreversível?

Eu só posso repetir o que já é público. A Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas fez uma nova avaliação da rede de consulados no mundo e decidiu fechar alguns, em diversas partes. No Brasil, contrariamente a algumas expectativas, só foi encerrado o consulado de Santos. Alguns como os de Belém, Porto Alegre, Curitiba e Recife tornaram-se vice-consulados, com um modelo de gestão diferente e com uma dependência dos três grandes consulados gerais, em São Paulo, Rio e Salvador.

Está em estudo um modelo de substituição do Consulado de Santos, modelo esse que poderá passar por uma criação de um pólo para que os portugueses não precisem se deslocar a São Paulo. Globalmente, esta reforma consular tem como filosofia evitar o recurso chamado de cultura de balcão, que as pessoas se desloquem aos sítios. Esse modelo foi feito com grande êxito pelo consulado geral de São Paulo. Hoje não há mais filas e grande parte dos atos consulares são feitos pelo correio ou via internet. Esse é o futuro. Criar alguns pequenos pólos que podem ficar ligados a associações portuguesas e que podem ajudar os cidadãos portugueses e brasileiros a preencher informaticamente os modelos, evitando a ida direta aos balcões. É um modelo que pode criar pequenas tensões até porque aponta para a mudança de cultura. Mas estamos aqui para tentar resolver e a Embaixada está disponível para recolher as queixas e reclamações e canalizar para Lisboa.


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