O quotidiano da Corte portuguesa no
Brasil, entre 1811 e 1821, é relatado em cartas escritas por um
funcionário da Biblioteca Real da Ajuda que acompanhou a Família
Real e agora publicadas pela Biblioteca Nacional. É a primeira vez
que é publicada a totalidade dos 206 documentos que compõem a
correspondência entre Luís Joaquim dos Santos Marrocos e o seu pai
e outros familiares.
"Inicialmente ele critica o clima, o
estado da cidade, etc., mas acaba por se afeiçoar e casar no Rio
de Janeiro com uma 'sinházinha' como ele diz e de quem teve dois
filhos", assinalou à Lusa o diretor da Biblioteca Nacional, Jorge
Couto.
A publicação com grafia atualizada, de
“Cartas do Rio de Janeiro, 1811-1821” de Luís Joaquim dos Santos
Marrocos, insere-se na política de publicação de fontes
documentais, levada a cabo pela Biblioteca Nacional e ocorre no
quadro das comemorações dos 200 anos da partida da Família Real
para o Brasil.
A publicação inclui dois estudos, de Ana
Cristina Araújo sobre o contexto das cartas e a partida da Família
Real para o Brasil, e um outro de Luís Marques sobre as marcas de
água.
Os relatos
As cartas foram encontradas na escrivaninha do pai na Biblioteca
da Ajuda, quando este abandonou o cargo que ali desempenhava. Das
206 cartas, 163 são endereçadas ao pai, as outras à irmã e
restantes familiares. Luís Joaquim Marrocos conseguira emprego
como praticante da Biblioteca Real da Ajuda, onde seu pai, um
professor laico em Belém, trabalhava como ajudante. “Tinha
freqüentado a Universidade de Coimbra, mas era um boêmio e o pai
consegue-lhe aquele emprego. É nessa condição que acompanha a
segunda remessa de volumes da biblioteca para o Rio de Janeiro, em
1811”, explicou Jorge Couto.
Segundo Couto, Luís Joaquim Marrocos
estava encarregue dos manuscritos e nas suas cartas escreve como
“diligencia para cair nas boas graças dos poderosos”. “Ele conta
que o príncipe regente D. João levantava-se às sete da manhã e ele
pontualmente logo pela manhã ia sempre beijar-lhe a real mão”,
referiu Couto.
As cartas revelam, porém, outros
pormenores para além das questões particulares de Luís Joaquim
Marrocos, que cortará relações com a família em 1821, ao decidir
ficar no Brasil, onde se torna partidário de D. Pedro, futuro
Imperador. “Ele refere as manobras de bastidores da Corte e os
diversos grupos que circulavam, faz alguns comentários sobre
determinadas personalidades”, disse Jorge Couto.
Frei José Mariano da Conceição Veloso e
Manuel Francisco Carvalhosa, filho varão do primeiro visconde de
Santarém, "são duas personalidades que menospreza". “Veloso é um
botânico e o autor de 'Florae Fluminensis', e o segundo visconde
de Santarém desempenhará um papel importantíssimo, no futuro, na
cartografia”, salientou Jorge Couto, segundo o qual,
"relativamente a Manuel Francisco, Marrocos faz a justiça de
afirmar que é um assíduo freqüentador da biblioteca”.