O escritor português José Saramago,
vencedor de um Prémio Nobel da Literatura, renovou as suas
críticas ao desenvolvimento da sociedade portuguesa, indicando que
"o grande problema nacional é a mediocridade e a resignação à
mediocridade".
"Verifico com pena que continuamos com
pouca ousadia no que se refere a projectos e à sua realização.
Comparo o nosso país com uma pessoa que está na borda do passeio à
espera que alguém a ajude a atravessar para o outro lado. Estamos
sempre à espera de alguém que venha salvar a pátria", disse
Saramago em entrevista ao jornal "Público" e à Rádio Renascença.
O escritor, que está a recuperar de uma
pneumonia, disse ainda que "o cidadão médio tem uma preguiça
enorme em riscar as opiniões que não sejam aquelas que se trocam
por miúdos ao longo do dia". E sobre os problemas graves do mundo
Saramago também foi directo. "Não vejo a participação dos
portugueses nos debates de todas essas coisas", afirmou.
José Saramago também comentou a 'gaffe' do
Presidente da República, Cavaco Silva, quando este no Dia de
Portugal (10 de Junho) disse aos jornalistas estar a celebrar o
"dia da raça", expressão utilizada durante a ditadura de Oliveira
Salazar, antes de 1974. "Se ele disse dia da raça é porque pensa
efetivamente que deveria chamar-se assim, embora não ouse fazer
essa proposta", afirmou Saramago. Questionado sobre se esse
deslize merecia um pedido de desculpa ao país, o escritor
respondeu que "os políticos dificilmente pedem desculpa às pessoas
a quem de alguma maneira ofenderam".
Saramago, que tem vivido em Espanha,
estará em Lisboa até meados de julho, escrevendo diariamente o seu
próximo romance, "A Viagem do Elefante", que deverá estar
concluído em agosto. Sobre a evolução do seu estilo literário, o
escritor português admite que "a idade tem uma influência grande".
"Não é agora, aos 85 anos, que eu poderia lançar-me a escrever o
'Memorial do Convento' ou o 'Evangelho segundo Jesus Cristo'.
Porque olho para o calendário e pergunto: ainda estarei vivo daqui
por um ano?", explicou Saramago.